Introdução

A câmara de milagres


TEXTO DE BAPTISTA-BASTOS


Eles procuram sempre a eternidade contida num momento fugaz. As coisas estão sempre a acontecer; todavia, há instantes onde o universo cabe num trémulo segundo. Aí, eles disparam a máquina: um produto que só dura vinte e quatro horas.


Todos eles, com maior ou menor talento, fotografam, na coragem e no temor alheios, a sua própria coragem e o seu próprio temor diários. Fotógrafos dos jornais. Repórteres-fotográficos da Imprensa, poetas da luz natural ou da claridade improvisada, convertendo o sacrifício num ritual de espanto. «A minha vida por um bom boneco!» Ou a bravura pessoal que outrora levou Diniz Salgado a fixar na sua Kodak a morte unilateral na praça de touros de Badajoz, corria a Guerra Civil de Espanha. Ou os estoiros de coração que conduziram Marques da Costa à Guadarrama para sentir o fratricídio transformado na perecível eternidade dos negativos em vidro.

Velhos guerreiros de múltiplas causas perdidas: o giz de um círculo que o tempo vai apagando e de que poucos conservam a memória cada dia mais delida.

Andei com eles, tarimbeiro de notícias avulsas. Pobre repórter de lápis, então julgava-me imbatível e incólume neste depósito de loucos. Foram entrevistas, aviões em chamas, a farândola dos crucificados em vida, crónicas de batalhas que a lembrança não preservou, reportagens de tremores de terra batucadas numa Smith-Corona no alvor de infaustas manhãs. O fecho imperioso dos jornais, quando os jornais ainda não eram uma encrenca mecanizada. «Quero um título para a primeira página! Um bom título é o murro nos queixos dos leitores!» Em todas as folhas diárias, o mesmo grito imperioso, o mesmo tormento apelativo do chefe de Redação. De todos os chefes de todas as Redações. O terceiro homem essencial de um triângulo com dois vértices indispensáveis: o cabouqueiro da escrita, o bandeirante da imagem.

Gente estranha, esta. Desses homens recebi lições de tenacidade, e de cada um deles subtraí o ofuscante calor que faz do repórter anónimo o herói do seu jornal. Noites e noites, dias e dias de tantos anos varados em lustros, em décadas, aprendendo a humilde felicidade de se ser mosqueteiro de papel, num mundo impresso onde as páginas são sempre, para nós, os do ofício, páginas intocáveis, chão sagrado.

Contemplo um deles. Zé Lobo. Morreu com 57 anos, os pulmões rebentados, por uma inclemente manhã de Maio de 1956. Recordo que enviei uma flor para o Caramulo, em cuja serra ele procurava a saúde perdida pelos ácidos das cuvetas, na escuridão do laboratório, onde se completa o milagre perfeito de fazer de um instantâneo uma obra-prima que vai durar vinte e quatro horas. Não morreu apenas da violência profissional. Morreu de privações, de noites nunca dormidas, de dias e dias preenchidos com corridas dementes entre o facto fotografável e fotografado e o jornal, O Século, no qual o ultrajavam com um salário de miséria. Ele ia à mata, ao mar, à trincheira, à rua, à montanha, ao fogo, às cinzas, aos domínios dos vivos e ao distrito dos mortos – com a autoridade da sua honra, a fascinante teimosia do seu talento, a ímpar qualidade do seu faro, para fotografar, apenas para fotografar. Afirmativo em tudo quanto disse e fez, nunca o foi, porém, ao discorrer sobre o seu ofício. Aí, Zé Lobo, caolho, desdentado, cigarro pendente entre os lábios finos, ria da nossa arrogância e colimava a nossa imperícia com esta frase invariável:

— Em jornalismo tudo se aprende todos os dias.

A Imprensa estava destruída pela Ditadura, com o conluio dos grandes patrões e a alvoroçada cumplicidade de muitos chefes, que fugiam aos regulamentos da ética e aceitavam letras promissórias. Mas havia quem conseguisse existir livre no império do papel sem voz. Alguns, os da caneta, escreviam nas entrelinhas, recuperando dos velhos arsenais todos os sistemas de metáforas, de alegorias, de parábolas. Alguns, os da imagem, improvisavam uma outra, dissente, maneira de ver. Se, em relação aos primeiros, desejo nomear Acúrsio Pereira, Rocha Júnior, Norberto Lopes, Mário Neves, Artur Inez; sobre os segundos citarei: José Lobo. Chateou chefias, censuras, negligências com incomparáveis matreirices, uma das quais lendária: foi o primeiro repórter-fotográfico português a filmar a tragédia dos bairros da lata, colocando, em comoventes primeiros-planos, miúdos sujos e só vestidos de osso, de susto e dor. As correntes internas antagónicas de esse mar caudaloso de protesto inconformado, que eram as fotos do Zé Lobo, encontravam no Zé Lobo o desdém superior nascido de quem provinha de uma dinastia popular.

Então, o seu riso escancarado, as suas zombarias implacáveis soltavam-se. Mandou às malvas um suserano, de O Século, que carregava consigo a tenebrosa alcunha de O Medo, e entrou estoicamente no desemprego, resgatando-se à fome e ao vazio dos dias em efémeros trabalhos de "picanço": fotos de casamentos, de batizados, biscates onde a generosidade dos pagamentos era escassa, como inexistente era qualquer glória profissional.

Um dia, envelhecido sem nunca se deixar envilecer, o Zé Lobo começou a cuspir sangue. Eu andava longe, a escrever sobre uma guerra num continente remotíssimo, sacolejando no interior de aviões minúsculos, doido, doido, doido que eu era, porque julgava que poderia passar, num ápice, da cartilha à antologia. Quando regressei, insolente e atrevido, quis saber do Zé Lobo, para com ele beber o velho vinho da amizade. «Morreu hoje, no Caramulo», alguém me disse. Enviei a tal flor, como quem cicia uma reza íntima no coração das próprias trevas. No coração da própria raça do Zé Lobo, caolho, desdentado, impulsivo, brigão, enrolado em fotografias, seu sudário, e apoiado na câmara de milagres, sua religião.




Nomes que se distinguiram
na reportagem fotográfica em Portugal
na segunda metade do século XX


ABEL DIAS | ABREU MORAIS | ACÁCIO FRANCO | ALBERICO ALVES
ALBERTO FRIAS | ALBERTO PEDRO FERREIRA | ALBERTO PEIXOTO
ALBERTO SANTOS | ALEXANDRA SILVA | ALFREDO CUNHA
ÁLVARO GERALDO | ÁLVARO TAVARES | AMADEU FERRARI
AMÍLCAR TEIXEIRA | ANA BAIÃO | ANTÓNIO AGUIAR
ANTÓNIO CAPELA | ANTÓNIO COTRIM | ANTÓNIO FAZENDEIRO
ANTÓNIO MAURÍCIO | AUGUSTO CABRITA | BEATRIZ FERREIRA
BRUNO PERES | CARLOS GIL | CARLOS LOPES | CARLOS VIDIGAL
CORRÊA DOS SANTOS | EDUARDO BAIÃO | EDUARDO GAGEIRO
EDUARDO TOMÉ |EURICO VASCONCELOS | FERNANDO FARINHA
FERNANDO FERREIRA | FERNANDO TOMÉ
FIRMINO MARQUES DA COSTA | GUILHERME VENÂNCIO
HERMÍNIO CLEMENTE | INÁCIO LUDJERO | INÊS GONÇALVES
JOÃO RIBEIRO | JOAQUIM BIZARRO | JOAQUIM LOBO
JORGE SIMÃO | JORGE TAVARES | JOSÉ ALBERTO SILVA
JOSÉ ANTUNES | JOSÉ CARLOS CARVALHO | JOSÉ LOBO
JOSÉ MAURÍCIO | JOSÉ TAVARES | LEONARDO NEGRÃO
LOBO PIMENTEL | LUÍS CARREGÃ | LUÍS RAMOS | LUÍS SARAIVA
LUÍS VASCONCELOS | LUIZ CARVALHO | MANUEL MOURA
MARQUES VALENTIM | MIGUEL BALTAZAR | MIGUEL MADEIRA
MIRANDA CASTELA | NOÉ RAMOS | NUNO FERRARI
ÓSCAR SARAIVA | PAULO COUTINHO | PAULO SILVA
PAULO SPRANGER | PEDRO BEÇA-MÚRIAS | PEDRO MENSURADO
PEDRO SILVA |PEDRO SOUSA DIAS | PLATÃO MENDES
RAUL NASCIMENTO | RODRIGO CABRITA | RUI DUARTE SILVA
RUI HOMEM | RUI OCHÔA | RUI RAIMUNDO
SALVADOR RIBEIRO | SANDRA COSTA | SOUSA DIAS
TIAGO MIRANDA | URSULA ZANGGER