JORGE LISTOPAD
OBRIGADA POR TUDO O QUE REALIZASTE «COM AMOR E ÀS VEZES COM RAIVA»




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Sacola ao ombro, passo desembaraçado, sorriso que impressionava pela serenidade, delicadeza e sinceridade, lá vinha Jorge Listopad entregar na redação os seus textos para as páginas de cultura (recordo-o em particular no antigo jornal a Luta). Nascido em Praga (1921), demandou outros caminhos e Portugal, desde a década de cinquenta, acabou por tornar-se na sua habitação sem nunca perder o sotaque do berço. Nomeadamente, a poesia escrevia-a em língua checa, porque, sublinhou-me um dia: A poesia é como o leite materno. Está muito ligada à origem dos sentidos, aos primeiros aromas. O que há de mais profundo em mim vive nessa pele.
Em Portugal levou por diante uma multifacetada atividade profissional nas áreas culturais, ressaltando o teatro e a sua exigente e briosa garra de encenador, até nos deixar nestes dias outonais (invulgarmente escaldantes) sem completar os 96 anos em Novembro (2017). Cumprira-se o que uma mulher cigana (na Croácia) lhe adivinhara quando pequeno: Vai morrer longe daqui. E sorria ao falarmos da hipótese de haver  um destino inscrito nas linhas das mãos: Não acredito em sinas mas ela disse… E segredava-me: Julgo que morrerei em Portugal. Jorge Listopad, também filósofo, aberto a permanentes buscas, pois «a filosofia nunca está acabada», confessava-nos uma «sensação de humildade diante de alguma coisa que não compreendemos».
Foi assim que, em Julho de 2003, dialogámos em sua casa, realizando uma longa entrevista para o Diário de Notícias, a qual não perdeu atualidade e oferece-nos o perfil de um homem raro, homem de «várias pátrias que se ligam à palavra», (presente a ideia pessoana), «à criação poética, ao teatro, à beleza; a minha pátria é essa, a de todas as línguas e a de todas as imagens capazes de dizer e de encenar de maneira diferente a beleza da vida e das coisas». Um homem desejoso de que a expressão refugiado caísse «em desuso rapidamente», porque: Migrante, emigrante já não é bom, refugiado ainda pior, já fui.
Listopad, um construtor incansável de arte e do saber, no teatro como em jornais e televisão, no ensino como na literatura (cronista, crítico, romancista, contista, poeta, ensaísta), distinguido em Portugal e a nível internacional com prémios significantes, detentor, inclusive, do grau de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique e da Medalha Militar Checoslovaca da Resistência. Escreveu igualmente para crianças e ainda sobre a velhice. A esse propósito perguntei-lhe: os extremos criam pontes? Resposta imediata: É a necessidade de dissolver os limites e de ver se atrás dos limites há outros limites.
Dizia-se «anarquista, lírico, cético e sorridente», homem ciente da «nossa efemeridade». Gostava de viver entre a ordem e o caos: Sou muito ordenado e muito desordenado. Entre essas duas coisas procuro um sistema superior que existe no mundo, todavia não sabemos qual é. Suspeitamos. Somos espiões desse sistema na medida em que somos cultores do oculto. Preferia não ser cultor… Temos de saber brincar também com isso. Criar dúvidas sobre a nossa noção de inteligência, saber troçar de nós próprios. E poucos como Listopad percebiam de uma ironia subtil, desarmante.
O medalhão (pedra de ónix) que trazia ao peito fazia parte da sua «identidade física»; na decoração da casa onde o entrevistámos não faltavam conchas, uma árvore na sala e pinhas. «Eu sou Jorge, que significa homem da terra. Terra do grande Cosmos». Um homem feliz, «mas não digo a ninguém porque os deuses são ciumentos». 
Obrigada, Jorge Listopad, pela lição de vida e do mesmo modo por, na entrevista que me concedeste, acentuares uma imensa (preciosa e necessária) esperança: «Estamos praticamente esmagados pela tecnologia, no entanto, acredito que a tecnologia vai libertar-se, fugir de si própria e criará uma nova espiritualidade». Obrigada, mais uma vez, por tudo o que realizaste (tanto, tanto!) «com amor e às vezes com raiva».


Maria Augusta Silva

TAMBÉM NESTE SÍTIO
GRANDE ENTREVISTA A JORGE LISTOPAD (2003)
COM EXCERTOS REPRODUZIDOS EM ÁUDIO







PROFESSOR GALOPIM DE CARVALHO
“IN MEMORIAM” DO MEU IRMÃO MÁRIO ZUZARTE

(Évora, 1 de Agosto de 1929 — Rio de Janeiro, 19 de Agosto de 2017)




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Quando se tem a minha idade, não é o minguar do horizonte de vida que mais nos atormenta. O que mais dói é ver partir os familiares, amigos e companheiros. Este foi o terceiro irmão a partir, tinha acabado de fazer 88 anos. E partiu lá longe, do outro lado do Atlântico, para onde foi em começos dos anos 50, com secretário do outro nosso irmão Francisco José. Carioca de Copacabana, ligado à indústria de diversão nocturna (Discoteca Marius’inn), não quis voltar, a não ser em três ou quatro visitas à Europa.
Com este irmão brinquei, briguei e tornei a brincar tantas vezes quantas a infância e a adolescência nos manteve unidos. As memórias que, a seguir, reproduzo são uma parte do que fizemos e vivemos juntos, que hoje recordo e partilho com um misto de saudade pelo muito de bom que a vida então nos proporcionou.
Foi da Porta Nova que, com o meu irmão Mário, dois anos mais velho do que eu saímos para as nossas primeiras incursões no mundo rural envolvente da cidade. Esta experiência, que prolongámos anos a fio, sob a forma de campismo rudimentar e selvagem em territórios sucessivamente mais alargados, somada a todas as outras vividas no meio citadino, foram determinantes na formação da minha maneira de estar e de participar na sociedade.
Nestas incursões nos campos do Alentejo, dormindo numa simples canadiana, sem duplo tecto, emprestada pela Ala de Évora da Mocidade Portuguesa e cozinhando o que calhasse numa velha panela de ferro, conhecemos herdades, homens e mulheres do campo e os trabalhos que faziam. Do lançar do trigo à terra, em braçadas do semeador, certas e cadenciadas, à debulha, sob o brasido do sol de Verão e do calor não menos intenso da ruidosa locomóvel, entre nuvens de moínha, tudo o que vimos e experimentámos nos deu a noção exacta do valor do pão. E esse tudo foi presenciar o abrir dos regos, um trabalho duríssimo de homem só, de mão firme na rabicha do arado, de aivecas bem fundas, puxado por possantes parelhas de mulas. Foi a monda da primavera, um trabalho de mulheres novas e velhas, tagarelando e cantando e, finalmente, a colheita do cereal por ceifeiros e ceifeiras locais, partilhada por “ratinhos”, nome algo depreciativo que se dava aos homens das Beiras vindos todos os anos para a “aceifa”. 
Assistimos à despela ou descortiçagem nos montados de sobro e encantámo-nos com a perícia dos tiradores, manuseando o machado, e dos molheiros, a amontoarem as pranchas de cortiça, explicando-nos depois que, assim, bem arrumadas numa pilha de base rectangular, permitiam ter uma ideia do peso de toda a tirada.
Ficou-me no ouvido o som cavo do machado, bem afiado e brilhante do uso, a entrar fundo na cortiça madura, de 10 anos, e o cantar das grandes e encurvadas pranchas a descolarem do tronco descarnado.
Experimentámos o varejo das oliveiras e andámos de joelhos na apanha da azeitona caída nos oleados ali estendidos no chão. Frequentámos um velho lagar de azeite, o tempo suficiente para saber como se faz o precioso óleo da gastronomia mediterrânea. Vimos esmagar a azeitona com mós de pedra num engenho da antiga Fábrica Metalúrgica Eduardo Duarte Ferreira, do Tramagal: Vimos espremer a pasta entre capachos, a separar o bagaço do mosto oleoso, sentimos o forte aroma do azeite virgem a sobrenadar uma aguadilha suja e percebemos o sentir da minha mãe quando nos dizia «não se come uma azeitona de uma só vez», explicando que não se trata assim uma preciosidade que leva um ano a criar.
Ajudámos, como curiosos, em vindimas, respirámos o cheiro do outro mosto, que antecede o vinho novo, que provámos pelo São Martinho e acamaradámos com os homens, na grande adega das Cortiçadas, petiscando pão com toucinho assado no braseiro da destila, junto ao alambique, acompanhado de sorvinhos de aguardente ainda morna, acabada de fazer.
Acompanhámos, passo a passo, o trabalho do caleiro, no desmonte do calcário, a tiros de dinamite, na quebra dos pedregulhos, à força de braços empunhando a marreta e no empilhamento, a preceito, das pedras dentro do forno.
Vimos armar e cobrir de terra pilhas e pilhas de lenha de azinho e de sobro nos tradicionais fornos de carvão e conhecemos o intenso cheiro a tição que libertavam no ar em redor e ficámos horas a ver oleiros no trabalho do barro vermelho com a roda.
Bebemos água tirada do poço, por cocharros de cortiça, junto ao bebedouro do gado e molhámos os pés nos regos das hortas onde nos deixavam apanhar beldroegas com que fizemos muitas das nossas refeições. 
Foram felizes as vezes que confraternizámos com os trabalhadores rurais, eles e elas, tantas vezes numa brejeirice alegre e saudável, muito característica deste povo. Sentados no chão, em roda da fogueira que fazíamos, de “navalhinha” na mão, comendo nacos de pão com lasquinhas de queijo ou de linguiça, passámos serões de Verão inesquecíveis.
Com estes nossos amigos iniciámo-nos na consciencialização dos problemas sociais e políticos que a cidade de então, vigiada e censurada, não permitia. Com eles aprendemos o valor da fraternidade e a respeitar e amar a ruralidade".





«ALIENAÇÃO DE ATIVOS» (REVISTAS) NO GRUPO IMPRESA
A CRISE DO JORNALISMO NAS PALAVRAS OPORTUNAS
DO JORNALISTA NICOLAU SANTOS

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«Quando passei a ser jornalista profissional, a 1 de outubro de 1980, o jornalismo era uma profissão marginal e mal paga, sem grandes perspetivas de futuro. Tinha de se trabalhar em dois empregos para garantir a subsistência do agregado familiar, escrevia-se à máquina e contactavam-se as redações por telefone fixo. Os telexes eram já um avanço. E os faxes foram uma revolução. Desde aí, houve uma brutal
revolução tecnológica que acelerou exponencialmente a velocidade de informação ao mesmo tempo que permitiu que qualquer pessoa com um telemóvel na mão pudesse pretensamente fazer as vezes dos jornalistas. Deixámos de fazer jornalismo e passámos a produtores de conteúdos. As empresas deixaram de ser familiares e passaram a estar cotadas em bolsa. A lógica e as exigências financeiras passaram a dominar o sector, limitando cerce o jornalismo de investigação e as grandes reportagens. As famílias que desde sempre estiveram ligadas ao sector foram substituídas pouco a pouco por investidores nacionais ou estrangeiros que olham para a comunicação social não como um negócio, cujo produto essencial é o grande jornalismo, mas como um instrumento de influência sobre o poder político para ganhar vantagem noutras áreas onde detêm interesses».

EXCERTO DE UM ARTIGO PUBLICADO NO JORNAL “EXPRESSO” (26-08-2017)
ADENDA: OS TREZE TÍTULOS DETIDOS PELO GRUPO IMPRESA E AGORA ‘ALIENÁVEIS’ INTEGRAM CERCA DE 200 TRABALHADORES, NA MAIORIA JORNALISTAS.






BAPTISTA-BASTOS
O GRANDE E ETERNO MIÚDO DE LISBOA




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Tarde outonal de Novembro, em 2002. Quero recordar-te, Baptista-Bastos, inesquecível BB. Tu, o grande e eterno miúdo de Lisboa nascido na Ajuda, com o teu olhar largo, tão largo quanto o sorriso único que entregava todo o rosto aos outros. Começava a entrevistar-te para o DN. Gravador modernaço, longe dos trambolhos do início de carreira; ajeitei-o na mesa da tua sala: um, dois, três, experiência, teste da praxe, grava não grava, tem de gravar, mas, toma lá…, nicles!
À unha, Maria Augusta, à unha é que é — o teu sorriso tornara-se ainda maior, deliciado, tentando ajudar-me de modo a que a safada engenhoca funcionasse.
Resignei-me: vamos a isto, à unha. Logo me deste um monte de laudas (quem se lembra das laudas, folhas de papel aos molhos nas redações para se escrever à mão ou na máquina, mil vezes rasgadas, amarrotadas, lixo, enquanto o primeiro parágrafo não saísse coisa asseada?).
Bom, primeira pergunta, num tu a tu, que, depois, cumprindo as normas do jornal, sairia no estilo cerimonioso:
Tem sido feliz numa terra redonda?
Com altos e baixos. Olhando para os homens da minha geração, tenho a impressão que poucos chegaram tão perto da felicidade como eu porque sempre me realizei na adversidade.
(Dei mais um safanão ao gravador, zangada com o monstrinho, tu dobraste o meu safanão, rindo, rindo e apaziguando-me: esta é uma adversidade quase nada, Maria).
OK., em frente. À unha. Mão ligeira (apesar de tudo, as minhas artroses então cinquentonas não impediam o ritmo de uma estenografia inventada para tais malogros). De repente, uma intrigante chiadeira: que será isto, BB?, olha, o gravador arrancou! Repetimos para o careta a primeira pergunta e resposta. Tu rias, rias. Eu, incrédula…
Querido BB, meu douto jornalista, digo-te: ainda guardo aquele mafarrico e uma coisa nunca me saiu da cabeça: o meu mágico gravador não terá sido, à sorrelfa, alvo de uma malandrice tua?
Neste Maio de flores (2017), a tua partida doeu muito, muito (continua a doer) aos teus familiares, amigos, camaradas de profissão, aos que te conheciam bem, a quantos te admiravam e respeitavam. E dou comigo a cismar num assunto que te coloquei na entrevista de há 15 anos, tão atual se mantém:
Como se relaciona com a única certeza da vida que é  a morte?
Tenho fascínio por um dado mistério que a morte consubstancia, mas sinto medo. Não vou ao enterro de ninguém por medo e não tenho relutância em dizê-lo.
Sim, BB, a morte, cruel e irremediável dor da ausência. Dessa dor falávamos há pouco, ao telefone, eu e a Isaura (tua mulher, tua maior paixão). Ausência, temática que abordaste igualmente em vasta obra literária. Ausência, esse tremendo já não estar. Tu, no entanto, acreditavas no «milagre da palavra». E as palavras tuas não se ausentaram, não. Ficaste nelas, inteiro no exemplo de uma coragem que te levava ao risco, «ao prazer do risco», em nome de valores essenciais que implicavam (implicam) uma permanente inquietação e busca. Cultor da boa polémica (olá, meu idealista «não normalizado»!) poderá isso ter-te acarretado desamores, azedumes, incompreensões, incompatibilidades. Mas davas a cara, frontal, não tolerando a hipocrisia. Homem de ódios, jamais. Sim, homem de causas em que acreditavas, de liberdade, honradez, fraternidade. «Nunca fiz nenhuma sacanice premeditadamente; se a fizesse não dormia e nunca precisei de sedativos», confessavas-me com firmeza e a ponta de vaidade a que tinhas direito por valor próprio (sublinho, pela excelência), simultaneamente amante de «uma capacidade de autocrítica que chega a ser sangrenta».
Baptista-Bastos, sei, em múltiplos aspetos cívicos, sociais, culturais, o quanto te deve o jornalismo, essa tua outra paixão «tão devoradora e chamejante que, às vezes, ultrapassava a razão»; sei da necessidade de escreveres até a morte se abeirar do teu corpo com 83 anos e de um espírito sem idade. Sei que, tanto os que te consideravam como os que eventualmente menos te apreciavam, não poderão esquecer-se de quem, em mais de seis décadas, ajudou a inovar e marcou a história do jornalismo português, um profissional com garra, genial na reportagem, entrevista, crónica, fosse nos jornais ou programas a que deste alma nas televisões.
Reponho outra pergunta de 2002 e a tua resposta cristalina, intemporal:
Geriu sempre bem a sua carreira?
Não. Sou um homem com muito mais defeitos do que os outros homens mas de uma grande generosidade. Os amigos mais próximos e todos aqueles que trabalharam comigo, mesmo os que de mim não gostam, reconhecem-me essa qualidade. O mérito não é meu. Tive a sorte de conhecer grandes portugueses do século XX que adicionaram ao moço que fui doses maciças de integridade, coragem e honra.
Agora, BB, por favor, endireita o laço com aquele elegante  tique revelador do teu sentido estético também no modo de vestir. Mostra-me Lisboa, tua imorredoira namorada. Essa «Lisboa Contada pelos Dedos» num volume de crónicas (Abril, 2001); Lisboa que teu pai, de mãos dadas, te ensinou a ver, explicando-te, inclusive, «a que luz se viam melhor as ruínas do Carmo».
É bom reler os teus livros. E permite-me que te roube o título do romance «No Interior da Tua Ausência» para testemunhar-te (eu e o Pedro, neste sítio de encontro e partilha) como permaneces no «interior» dos nossos corações. A tua ausência é uma adversidade (tantas conheceste, logo ao perderes a mãe em criança); dói-nos o teu «secreto adeus» entre os cuidados hospitalares que tudo fizeram para te devolverem à vida. O Secreto Adeus (1963), nome do romance inaugural da tua criatividade na arte da ficção. E o «secreto adeus», fim de um ciclo. Recusamos, todavia, o esquecimento.
Permite-me, hoje, a ousadia: Onde estás agora, BB?
Lembro-me do que me respondeste em tempos sobre a questão da transcendência: «O homem veio das estrelas e às estrelas vai regressar».
Obrigada, meu «fanático da palavra» e do sonho.


Maria Augusta Silva

TAMBÉM NESTE SÍTIO
GRANDE ENTREVISTA A BAPTISTA-BASTOS
(Novembro 2002)







DIA MUNDIAL DA POESIA
CELEBRAMOS COM POEMA DE JOÃO RUI DE SOUSA


Com a sensibilidade, o verso depurado e a estética da palavra de João Rui de Sousa assinalamos o Dia Mundial de Poesia. Trazemos assim a este sítio de cultura, afetos e de partilha, uma voz marcante do mundo literário português. Do seu recente livro Ardorosa Súmula, editado por Coisas de Ler, permitimo-nos sublinhar o poema


Furtiva, a constatação

Hoje,
não vou ardor nem vou amargo:
vou num cantil de barro – neutro
e fragmentado.

Não vou ao mar nem vou ao lago:
vou só no lodo de me ver sentado
pensando em quantos braços
são de afago
ou tábuas de me ajudar
se venho a nado.





DONALD TRUMP VISTO DE UM ÂNGULO MAIS DESCONHECIDO
REGISTO JORNALÍSTICO DA NATUREZA DESUMANA
DO NOVO PRESIDENTE DOS EUA

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Ainda antes das eleições presidenciais norte-americanas divulgámos neste espaço um trecho de uma crónica assinada em 9 de agosto de 2014 pelo jornalista João Adelino Faria. Surpreendentemente, Donald Trump foi eleito. É importante conhecer a natureza desumana, impiedosa, desta personagem obscena que ascende agora a um dos escalões supremos do poder mundial. (Re)leia-se:

«Em direto, os canais norte-americanos mostraram nesta semana, não o horror dos campos da morte desta doença [o ébola], mas o regresso a casa de um médico e de uma missionária doentes. Os dois regressaram infetados com o vírus depois de ajudarem dezenas de vítimas da febre hemorrágica em África. O milionário Donald Trump, que deve ter um saldo bancário inversamente proporcional à sua inteligência, exigiu que deixassem os voluntários doentes em África. Propôs mesmo que se proibissem os voos dos países onde se registaram casos de ébola. Felizmente as redes sociais incendiaram-se de indignação e venceram. Os dois voluntários norte-americanos regressaram aos Estados Unidos e estão agora internados em hospitais especializados, seguros, e a melhorar».





MÁRIO SOARES NO "INDEX PROHIBITORUM"
MEMÓRIA DO TEMPO EM QUE O SEU NOME
NÃO PODIA SEQUER APARECER NA IMPRENSA


[DOCUMENTO INÉDITO]

No Bairro Alto, outrora pátria da quase totalidade dos jornais diários de Lisboa, circulava amiúde a notícia de que mais uma ou outra figura da cultura acabara de entrar no Index dos impublicáveis. À semelhança do Index Prohibitorum do Santo Ofício, também a Censura portuguesa do século XX possuía uma lista negra de nomes que nem sequer deviam ser pronunciados. Um silenciamento atroz. Alguns, como José Afonso, tinham caráter perpétuo. O jornalista e escritor Julião Quintinha ficou “apagado” para toda a vida depois de haver provocado o despedimento de um censor (deixara passar, por inadvertência, um artigo que causou brado).
Outros entravam, saíam e reentravam consoante os ares do tempo político — casos de Augusto Abelaira, Jorge de Sena, José Gomes Ferreira, Jacinto do Prado Coelho, Francisco de Sousa Tavares (cuja esposa, Sophia de Mello Andresen, esteve igualmente no Index), ainda, entre muitos outros, Manuel da Fonseca, Fernanda Botelho, Maria Lamas, Natália Correia. A vigilância censória não era menos brutal para com figuras estrangeiras: recordo vultos da cultura como a escritora francesa Simone de Beauvoir ou, num outro plano, astronautas russos cujos nomes foram declarados impublicáveis.
Certo dia, um jornalista do vizinho Diário de Lisboa, Pedro Alvim, com quem mantive duradoura e fraterna convivência pessoal e profissional, alarmou-nos: O nome de Mário Soares está proibido. Inventem uma notícia inócua e enviem à Censura. Logo verão. Não era a primeira vez. Mário Soares reunia já um massivo cadastro político e ascendera desde a década anterior ao grupo dos “maus patriotas” que denegriam internacionalmente a Ditadura. Agora subira à categoria dos inomináveis (literalmente: não podia ser nomeado em letra tipográfica).
Tive o ensejo de comprovar essa proscrição quando dias depois fui em serviço, com Salvador Ribeiro, reportar um julgamento no Supremo Tribunal Militar. Dois oficiais e um furriel haviam sido presos e julgados sob a acusação de apoio a elementos do Partido Africano de Independência da Guiné e Cabo Verde. Absolvidos, entretanto, por improcedência e falta de provas. Todavia, decorridos quatro meses, voltavam a sentar-se no banco dos réus na sequência de recurso interposto pelo promotor de Justiça. Como é natural, descreviam-se no texto as entidades que constituíam o Supremo, o juiz-auditor e os dois advogados de defesa: Artur Cunha Leal e Mário Soares. Destes, porém, apenas do primeiro foi permitido o registo do seu nome no jornal. Mário Soares desapareceu sob o lápis azul que, para evitar se percebesse a amputação do nome, expandiu-se pelas linhas anteriores e posteriores.
Preservo a estiolada prova tipográfica vinda da Censura.



Fortuna minha no meio de infindas adversidades. Já o escrevi: tive como diretores do República dois homens de imensa coragem, Carvalhão Duarte e Raul Rego (este não só na Ditadura mas também durante o Verão Quente de 1975). Detenho-me por ora no pedagogo Carvalhão Duarte, com uma longa carreira no Ensino Primário, que nos incentivava a escrever ignorando os censores. Os nomes proscritos nunca deixaram de ser escritos. Dizia-nos (quase gritando): O vosso trabalho é digno, limpo e límpido. Deixem o trabalho indigno e sujo para os mais vis dos porcos. Quem usurpa o nome de um Homem, nem merece que lhe chamemos porco porque desse modo ofendemos os porcos!
Esta nobre consciência tinha, além do mais, um preço material elevadíssimo. Custava dinheiro, sempre parco naquele jornal. Na realidade, nós, jornalistas e tipógrafos, produzíamos diariamente dois jornais, posto que metade, ou mais, era destruído pela Censura.
Carvalhão Duarte não havia sido jornalista, nem viria a sê-lo. Era um pedagogo, apaixonado pela arte de ensinar. Ensinava de tudo um pouco, a vida inclusive.
Foram buscá-lo para a direção do jornal República a altas horas de uma noite de julho de 1941, em circunstâncias dramáticas. Não havia tempo a perder. O anterior diretor, Ribeiro de Carvalho, herói do movimento que implantou a República, acabara de ser despedido pelo diretor da Censura, o então tenente-coronel Álvaro Salvação Barreto. E o jornal não poderia publicar-se sem diretor.
Essa é uma outra história que contarei um dia.



Neste instante, 7 de janeiro 2017. 16h00.
Na serena partida, apenas uma palavra: obrigado, Mário Soares, nomeadamente pelo exemplo de coragem./

PEDRO FOYOS