DIA MUNDIAL DA POESIA
CELEBRAMOS COM POEMA DE JOÃO RUI DE SOUSA


Com a sensibilidade, o verso depurado e a estética da palavra de João Rui de Sousa assinalamos o Dia Mundial de Poesia. Trazemos assim a este sítio de cultura, afetos e de partilha, uma voz marcante do mundo literário português. Do seu recente livro Ardorosa Súmula, editado por Coisas de Ler, permitimo-nos sublinhar o poema


Furtiva, a constatação

Hoje,
não vou ardor nem vou amargo:
vou num cantil de barro – neutro
e fragmentado.

Não vou ao mar nem vou ao lago:
vou só no lodo de me ver sentado
pensando em quantos braços
são de afago
ou tábuas de me ajudar
se venho a nado.





DONALD TRUMP VISTO DE UM ÂNGULO MAIS DESCONHECIDO
REGISTO JORNALÍSTICO DA NATUREZA DESUMANA
DO NOVO PRESIDENTE DOS EUA

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Ainda antes das eleições presidenciais norte-americanas divulgámos neste espaço um trecho de uma crónica assinada em 9 de agosto de 2014 pelo jornalista João Adelino Faria. Surpreendentemente, Donald Trump foi eleito. É importante conhecer a natureza desumana, impiedosa, desta personagem obscena que ascende agora a um dos escalões supremos do poder mundial. (Re)leia-se:

«Em direto, os canais norte-americanos mostraram nesta semana, não o horror dos campos da morte desta doença [o ébola], mas o regresso a casa de um médico e de uma missionária doentes. Os dois regressaram infetados com o vírus depois de ajudarem dezenas de vítimas da febre hemorrágica em África. O milionário Donald Trump, que deve ter um saldo bancário inversamente proporcional à sua inteligência, exigiu que deixassem os voluntários doentes em África. Propôs mesmo que se proibissem os voos dos países onde se registaram casos de ébola. Felizmente as redes sociais incendiaram-se de indignação e venceram. Os dois voluntários norte-americanos regressaram aos Estados Unidos e estão agora internados em hospitais especializados, seguros, e a melhorar».





MÁRIO SOARES NO "INDEX PROHIBITORUM"
MEMÓRIA DO TEMPO EM QUE O SEU NOME
NÃO PODIA SEQUER APARECER NA IMPRENSA


[DOCUMENTO INÉDITO]

No Bairro Alto, outrora pátria da quase totalidade dos jornais diários de Lisboa, circulava amiúde a notícia de que mais uma ou outra figura da cultura acabara de entrar no Index dos impublicáveis. À semelhança do Index Prohibitorum do Santo Ofício, também a Censura portuguesa do século XX possuía uma lista negra de nomes que nem sequer deviam ser pronunciados. Um silenciamento atroz. Alguns, como José Afonso, tinham caráter perpétuo. O jornalista e escritor Julião Quintinha ficou “apagado” para toda a vida depois de haver provocado o despedimento de um censor (deixara passar, por inadvertência, um artigo que causou brado).
Outros entravam, saíam e reentravam consoante os ares do tempo político — casos de Augusto Abelaira, Jorge de Sena, José Gomes Ferreira, Jacinto do Prado Coelho, Francisco de Sousa Tavares (cuja esposa, Sophia de Mello Andresen, esteve igualmente no Index), ainda, entre muitos outros, Manuel da Fonseca, Fernanda Botelho, Maria Lamas, Natália Correia. A vigilância censória não era menos brutal para com figuras estrangeiras: recordo vultos da cultura como a escritora francesa Simone de Beauvoir ou, num outro plano, astronautas russos cujos nomes foram declarados impublicáveis.
Certo dia, um jornalista do vizinho Diário de Lisboa, Pedro Alvim, com quem mantive duradoura e fraterna convivência pessoal e profissional, alarmou-nos: O nome de Mário Soares está proibido. Inventem uma notícia inócua e enviem à Censura. Logo verão. Não era a primeira vez. Mário Soares reunia já um massivo cadastro político e ascendera desde a década anterior ao grupo dos “maus patriotas” que denegriam internacionalmente a Ditadura. Agora subira à categoria dos inomináveis (literalmente: não podia ser nomeado em letra tipográfica).
Tive o ensejo de comprovar essa proscrição quando dias depois fui em serviço, com Salvador Ribeiro, reportar um julgamento no Supremo Tribunal Militar. Dois oficiais e um furriel haviam sido presos e julgados sob a acusação de apoio a elementos do Partido Africano de Independência da Guiné e Cabo Verde. Absolvidos, entretanto, por improcedência e falta de provas. Todavia, decorridos quatro meses, voltavam a sentar-se no banco dos réus na sequência de recurso interposto pelo promotor de Justiça. Como é natural, descreviam-se no texto as entidades que constituíam o Supremo, o juiz-auditor e os dois advogados de defesa: Artur Cunha Leal e Mário Soares. Destes, porém, apenas do primeiro foi permitido o registo do seu nome no jornal. Mário Soares desapareceu sob o lápis azul que, para evitar se percebesse a amputação do nome, expandiu-se pelas linhas anteriores e posteriores.
Preservo a estiolada prova tipográfica vinda da Censura.



Fortuna minha no meio de infindas adversidades. Já o escrevi: tive como diretores do República dois homens de imensa coragem, Carvalhão Duarte e Raul Rego (este não só na Ditadura mas também durante o Verão Quente de 1975). Detenho-me por ora no pedagogo Carvalhão Duarte, com uma longa carreira no Ensino Primário, que nos incentivava a escrever ignorando os censores. Os nomes proscritos nunca deixaram de ser escritos. Dizia-nos (quase gritando): O vosso trabalho é digno, limpo e límpido. Deixem o trabalho indigno e sujo para os mais vis dos porcos. Quem usurpa o nome de um Homem, nem merece que lhe chamemos porco porque desse modo ofendemos os porcos!
Esta nobre consciência tinha, além do mais, um preço material elevadíssimo. Custava dinheiro, sempre parco naquele jornal. Na realidade, nós, jornalistas e tipógrafos, produzíamos diariamente dois jornais, posto que metade, ou mais, era destruído pela Censura.
Carvalhão Duarte não havia sido jornalista, nem viria a sê-lo. Era um pedagogo, apaixonado pela arte de ensinar. Ensinava de tudo um pouco, a vida inclusive.
Foram buscá-lo para a direção do jornal República a altas horas de uma noite de julho de 1941, em circunstâncias dramáticas. Não havia tempo a perder. O anterior diretor, Ribeiro de Carvalho, herói do movimento que implantou a República, acabara de ser despedido pelo diretor da Censura, o então tenente-coronel Álvaro Salvação Barreto. E o jornal não poderia publicar-se sem diretor.
Essa é uma outra história que contarei um dia.



Neste instante, 7 de janeiro 2017. 16h00.
Na serena partida, apenas uma palavra: obrigado, Mário Soares, nomeadamente pelo exemplo de coragem./

PEDRO FOYOS