BAPTISTA-BASTOS
O GRANDE E ETERNO MIÚDO DE LISBOA




bb

Tarde outonal de Novembro, em 2002. Quero recordar-te, Baptista-Bastos, inesquecível BB. Tu, o grande e eterno miúdo de Lisboa nascido na Ajuda, com o teu olhar largo, tão largo quanto o sorriso único que entregava todo o rosto aos outros. Começava a entrevistar-te para o DN. Gravador modernaço, longe dos trambolhos do início de carreira; ajeitei-o na mesa da tua sala: um, dois, três, experiência, teste da praxe, grava não grava, tem de gravar, mas, toma lá…, nicles!
À unha, Maria Augusta, à unha é que é — o teu sorriso tornara-se ainda maior, deliciado, tentando ajudar-me de modo a que a safada engenhoca funcionasse.
Resignei-me: vamos a isto, à unha. Logo me deste um monte de laudas (quem se lembra das laudas, folhas de papel aos molhos nas redações para se escrever à mão ou na máquina, mil vezes rasgadas, amarrotadas, lixo, enquanto o primeiro parágrafo não saísse coisa asseada?).
Bom, primeira pergunta, num tu a tu, que, depois, cumprindo as normas do jornal, sairia no estilo cerimonioso:
Tem sido feliz numa terra redonda?
Com altos e baixos. Olhando para os homens da minha geração, tenho a impressão que poucos chegaram tão perto da felicidade como eu porque sempre me realizei na adversidade.
(Dei mais um safanão ao gravador, zangada com o monstrinho, tu dobraste o meu safanão, rindo, rindo e apaziguando-me: esta é uma adversidade quase nada, Maria).
OK., em frente. À unha. Mão ligeira (apesar de tudo, as minhas artroses então cinquentonas não impediam o ritmo de uma estenografia inventada para tais malogros). De repente, uma intrigante chiadeira: que será isto, BB?, olha, o gravador arrancou! Repetimos para o careta a primeira pergunta e resposta. Tu rias, rias. Eu, incrédula…
Querido BB, meu douto jornalista, digo-te: ainda guardo aquele mafarrico e uma coisa nunca me saiu da cabeça: o meu mágico gravador não terá sido, à sorrelfa, alvo de uma malandrice tua?
Neste Maio de flores (2017), a tua partida doeu muito, muito (continua a doer) aos teus familiares, amigos, camaradas de profissão, aos que te conheciam bem, a quantos te admiravam e respeitavam. E dou comigo a cismar num assunto que te coloquei na entrevista de há 15 anos, tão atual se mantém:
Como se relaciona com a única certeza da vida que é  a morte?
Tenho fascínio por um dado mistério que a morte consubstancia, mas sinto medo. Não vou ao enterro de ninguém por medo e não tenho relutância em dizê-lo.
Sim, BB, a morte, cruel e irremediável dor da ausência. Dessa dor falávamos há pouco, ao telefone, eu e a Isaura (tua mulher, tua maior paixão). Ausência, temática que abordaste igualmente em vasta obra literária. Ausência, esse tremendo já não estar. Tu, no entanto, acreditavas no «milagre da palavra». E as palavras tuas não se ausentaram, não. Ficaste nelas, inteiro no exemplo de uma coragem que te levava ao risco, «ao prazer do risco», em nome de valores essenciais que implicavam (implicam) uma permanente inquietação e busca. Cultor da boa polémica (olá, meu idealista «não normalizado»!) poderá isso ter-te acarretado desamores, azedumes, incompreensões, incompatibilidades. Mas davas a cara, frontal, não tolerando a hipocrisia. Homem de ódios, jamais. Sim, homem de causas em que acreditavas, de liberdade, honradez, fraternidade. «Nunca fiz nenhuma sacanice premeditadamente; se a fizesse não dormia e nunca precisei de sedativos», confessavas-me com firmeza e a ponta de vaidade a que tinhas direito por valor próprio (sublinho, pela excelência), simultaneamente amante de «uma capacidade de autocrítica que chega a ser sangrenta».
Baptista-Bastos, sei, em múltiplos aspetos cívicos, sociais, culturais, o quanto te deve o jornalismo, essa tua outra paixão «tão devoradora e chamejante que, às vezes, ultrapassava a razão»; sei da necessidade de escreveres até a morte se abeirar do teu corpo com 83 anos e de um espírito sem idade. Sei que, tanto os que te consideravam como os que eventualmente menos te apreciavam, não poderão esquecer-se de quem, em mais de seis décadas, ajudou a inovar e marcou a história do jornalismo português, um profissional com garra, genial na reportagem, entrevista, crónica, fosse nos jornais ou programas a que deste alma nas televisões.
Reponho outra pergunta de 2002 e a tua resposta cristalina, intemporal:
Geriu sempre bem a sua carreira?
Não. Sou um homem com muito mais defeitos do que os outros homens mas de uma grande generosidade. Os amigos mais próximos e todos aqueles que trabalharam comigo, mesmo os que de mim não gostam, reconhecem-me essa qualidade. O mérito não é meu. Tive a sorte de conhecer grandes portugueses do século XX que adicionaram ao moço que fui doses maciças de integridade, coragem e honra.
Agora, BB, por favor, endireita o laço com aquele elegante  tique revelador do teu sentido estético também no modo de vestir. Mostra-me Lisboa, tua imorredoira namorada. Essa «Lisboa Contada pelos Dedos» num volume de crónicas (Abril, 2001); Lisboa que teu pai, de mãos dadas, te ensinou a ver, explicando-te, inclusive, «a que luz se viam melhor as ruínas do Carmo».
É bom reler os teus livros. E permite-me que te roube o título do romance «No Interior da Tua Ausência» para testemunhar-te (eu e o Pedro, neste sítio de encontro e partilha) como permaneces no «interior» dos nossos corações. A tua ausência é uma adversidade (tantas conheceste, logo ao perderes a mãe em criança); dói-nos o teu «secreto adeus» entre os cuidados hospitalares que tudo fizeram para te devolverem à vida. O Secreto Adeus (1963), nome do romance inaugural da tua criatividade na arte da ficção. E o «secreto adeus», fim de um ciclo. Recusamos, todavia, o esquecimento.
Permite-me, hoje, a ousadia: Onde estás agora, BB?
Lembro-me do que me respondeste em tempos sobre a questão da transcendência: «O homem veio das estrelas e às estrelas vai regressar».
Obrigada, meu «fanático da palavra» e do sonho.


Maria Augusta Silva

TAMBÉM NESTE SÍTIO
GRANDE ENTREVISTA A BAPTISTA-BASTOS
(Novembro 2002)







DIA MUNDIAL DA POESIA
CELEBRAMOS COM POEMA DE JOÃO RUI DE SOUSA


Com a sensibilidade, o verso depurado e a estética da palavra de João Rui de Sousa assinalamos o Dia Mundial de Poesia. Trazemos assim a este sítio de cultura, afetos e de partilha, uma voz marcante do mundo literário português. Do seu recente livro Ardorosa Súmula, editado por Coisas de Ler, permitimo-nos sublinhar o poema


Furtiva, a constatação

Hoje,
não vou ardor nem vou amargo:
vou num cantil de barro – neutro
e fragmentado.

Não vou ao mar nem vou ao lago:
vou só no lodo de me ver sentado
pensando em quantos braços
são de afago
ou tábuas de me ajudar
se venho a nado.





DONALD TRUMP VISTO DE UM ÂNGULO MAIS DESCONHECIDO
REGISTO JORNALÍSTICO DA NATUREZA DESUMANA
DO NOVO PRESIDENTE DOS EUA

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Ainda antes das eleições presidenciais norte-americanas divulgámos neste espaço um trecho de uma crónica assinada em 9 de agosto de 2014 pelo jornalista João Adelino Faria. Surpreendentemente, Donald Trump foi eleito. É importante conhecer a natureza desumana, impiedosa, desta personagem obscena que ascende agora a um dos escalões supremos do poder mundial. (Re)leia-se:

«Em direto, os canais norte-americanos mostraram nesta semana, não o horror dos campos da morte desta doença [o ébola], mas o regresso a casa de um médico e de uma missionária doentes. Os dois regressaram infetados com o vírus depois de ajudarem dezenas de vítimas da febre hemorrágica em África. O milionário Donald Trump, que deve ter um saldo bancário inversamente proporcional à sua inteligência, exigiu que deixassem os voluntários doentes em África. Propôs mesmo que se proibissem os voos dos países onde se registaram casos de ébola. Felizmente as redes sociais incendiaram-se de indignação e venceram. Os dois voluntários norte-americanos regressaram aos Estados Unidos e estão agora internados em hospitais especializados, seguros, e a melhorar».





MÁRIO SOARES NO "INDEX PROHIBITORUM"
MEMÓRIA DO TEMPO EM QUE O SEU NOME
NÃO PODIA SEQUER APARECER NA IMPRENSA


[DOCUMENTO INÉDITO]

No Bairro Alto, outrora pátria da quase totalidade dos jornais diários de Lisboa, circulava amiúde a notícia de que mais uma ou outra figura da cultura acabara de entrar no Index dos impublicáveis. À semelhança do Index Prohibitorum do Santo Ofício, também a Censura portuguesa do século XX possuía uma lista negra de nomes que nem sequer deviam ser pronunciados. Um silenciamento atroz. Alguns, como José Afonso, tinham caráter perpétuo. O jornalista e escritor Julião Quintinha ficou “apagado” para toda a vida depois de haver provocado o despedimento de um censor (deixara passar, por inadvertência, um artigo que causou brado).
Outros entravam, saíam e reentravam consoante os ares do tempo político — casos de Augusto Abelaira, Jorge de Sena, José Gomes Ferreira, Jacinto do Prado Coelho, Francisco de Sousa Tavares (cuja esposa, Sophia de Mello Andresen, esteve igualmente no Index), ainda, entre muitos outros, Manuel da Fonseca, Fernanda Botelho, Maria Lamas, Natália Correia. A vigilância censória não era menos brutal para com figuras estrangeiras: recordo vultos da cultura como a escritora francesa Simone de Beauvoir ou, num outro plano, astronautas russos cujos nomes foram declarados impublicáveis.
Certo dia, um jornalista do vizinho Diário de Lisboa, Pedro Alvim, com quem mantive duradoura e fraterna convivência pessoal e profissional, alarmou-nos: O nome de Mário Soares está proibido. Inventem uma notícia inócua e enviem à Censura. Logo verão. Não era a primeira vez. Mário Soares reunia já um massivo cadastro político e ascendera desde a década anterior ao grupo dos “maus patriotas” que denegriam internacionalmente a Ditadura. Agora subira à categoria dos inomináveis (literalmente: não podia ser nomeado em letra tipográfica).
Tive o ensejo de comprovar essa proscrição quando dias depois fui em serviço, com Salvador Ribeiro, reportar um julgamento no Supremo Tribunal Militar. Dois oficiais e um furriel haviam sido presos e julgados sob a acusação de apoio a elementos do Partido Africano de Independência da Guiné e Cabo Verde. Absolvidos, entretanto, por improcedência e falta de provas. Todavia, decorridos quatro meses, voltavam a sentar-se no banco dos réus na sequência de recurso interposto pelo promotor de Justiça. Como é natural, descreviam-se no texto as entidades que constituíam o Supremo, o juiz-auditor e os dois advogados de defesa: Artur Cunha Leal e Mário Soares. Destes, porém, apenas do primeiro foi permitido o registo do seu nome no jornal. Mário Soares desapareceu sob o lápis azul que, para evitar se percebesse a amputação do nome, expandiu-se pelas linhas anteriores e posteriores.
Preservo a estiolada prova tipográfica vinda da Censura.



Fortuna minha no meio de infindas adversidades. Já o escrevi: tive como diretores do República dois homens de imensa coragem, Carvalhão Duarte e Raul Rego (este não só na Ditadura mas também durante o Verão Quente de 1975). Detenho-me por ora no pedagogo Carvalhão Duarte, com uma longa carreira no Ensino Primário, que nos incentivava a escrever ignorando os censores. Os nomes proscritos nunca deixaram de ser escritos. Dizia-nos (quase gritando): O vosso trabalho é digno, limpo e límpido. Deixem o trabalho indigno e sujo para os mais vis dos porcos. Quem usurpa o nome de um Homem, nem merece que lhe chamemos porco porque desse modo ofendemos os porcos!
Esta nobre consciência tinha, além do mais, um preço material elevadíssimo. Custava dinheiro, sempre parco naquele jornal. Na realidade, nós, jornalistas e tipógrafos, produzíamos diariamente dois jornais, posto que metade, ou mais, era destruído pela Censura.
Carvalhão Duarte não havia sido jornalista, nem viria a sê-lo. Era um pedagogo, apaixonado pela arte de ensinar. Ensinava de tudo um pouco, a vida inclusive.
Foram buscá-lo para a direção do jornal República a altas horas de uma noite de julho de 1941, em circunstâncias dramáticas. Não havia tempo a perder. O anterior diretor, Ribeiro de Carvalho, herói do movimento que implantou a República, acabara de ser despedido pelo diretor da Censura, o então tenente-coronel Álvaro Salvação Barreto. E o jornal não poderia publicar-se sem diretor.
Essa é uma outra história que contarei um dia.



Neste instante, 7 de janeiro 2017. 16h00.
Na serena partida, apenas uma palavra: obrigado, Mário Soares, nomeadamente pelo exemplo de coragem./

PEDRO FOYOS