BREVE HISTÓRIA DE UM ”INCERTO OLHAR”
IMAGENS EM BUSCA DE UMA IDENTIDADE ARTÍSTICA


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GALERIA MUNICIPAL DO CASTELO DE PIRESCOUXE
Santa Iria de Azoia
EXPOSIÇÃO
“INCERTO OLHAR”
PATENTE ATÉ 4 DE AGOSTO DE 2018
Entrada gratuita | Terça-feira a sábado | 10h00 – 18h00
Orientação GPS: 2690-414 SANTA IRIA DE AZOIA
ou:
SANTA IRIA DE AZOIA / PRAÇA VISCONDE CASTELO BRANCO


“Um Certo Olhar”? [primitiva designação]. “Incerto Olhar” seria o título certo. Não só incerto, o olhar, mas também imprevisível no início do processo fotográfico, porque na obra artística de Pedro Foyos a fotografia constitui, frequentes vezes, tão só o ponto de partida de uma alquimia de recriação da realidade, um instrumento sugestionador de novas imagens, de renovadas figurações que transgridem os tratados modelares da arte. Desarmante subversão aos cânones imaculáveis por decreto divino. Cometida a heresia, ultrapassado o interdito, iniciada a dissecação, a fotografia tende a perder o antenome “foto” e assim, quase anónima, procura uma identidade artística que estaria por definir. O autor sugere “imagiografia” (com “i”, adverte, porque deriva de imaginação”), vocábulo que transmite também uma mágica ressonância espectral de pesquisas em laboratórios médicos. Todavia, não se crê que tal «incerto olhar gráfico-profano» (definição do autor) alije de todo a nossa íntima amiga “fotografia”: ela permanece teimosamente com insistente esplendor e a justa honraria de matriz fundadora.
As transfigurações da realidade operadas por Pedro Foyos são com frequência paródicas, mas de súbito o autor desassossega-nos angustiosamente com a visão crua “do outro lado”, ou “mesmo ao lado”. Exemplo fortíssimo desse contraste é o grande e perturbador mosaico de seis imagens com o título «Família». Talvez por ímpeto deontológico o autor obrigar-se-á, profissionalmente, como jornalista, a comunicar a realidade sem o deslustre da fantasia. Mas logo retoma o paradigma visionário. O aparente paradoxo compreende-se em personalidades multifacetadas, que navegam em diversíssimas águas, sem risco de mesclas, como é o caso deste jornalista que escreve não só obras historiográficas mas também romances…


Abel de Avelar




MOMENTO DA SESSÃO INAUGURAL REGISTADO POR ARMANDO CARDOSO







"O GRITO", d’après EDVARD MUNCH

"INÍCIO”, d’après Leonardo da Vinci.





DIA MUNDIAL DA POESIA
CELEBRAMOS COM POEMA DE RUI COSTA


Com o poeta Rui Costa assinalamos hoje (21 Março 2018) o Dia Mundial da Poesia. Deixou-nos tragicamente com 39 anos. Breve a vida. Breve a sua obra literária, todavia bastante e vital na intensidade e qualidade do fulgor criativo. Um permanente desafio de livro para livro, uma demanda próxima de uma transcendência que porventura se ocultava num jogo vertiginoso invulgar, tornando-o imortal em cada poema.
 
BIÓTICA

Eu mexo-me por contágio —
no rasto que sobe dos teus passos
quando a manhã  desgovernada chega
ao fim. Cravado, sigo pelos dedos da mão
que se alimenta e entro nos buracos — ouvidos,
nariz, boca — e recolho-me no linho que se estende
até ao cérebro. Outras vezes, é nos olhos que aterro
e despoleto as visões: ele ainda vê a minha imagem até
que se alinhava por trás da sua consciência. Então
pode ser que balouce como um vegan ou que se
tome de um súbito amor pelas camélias. Mais
água-de-fogo — dirá — e o peito a responder-lhe
com um mar do tamanho de um coração a
que falte o fuso. Pedaços de animais,
digo, coisas parecidas com artérias e
pequenas combustões de carne ve-
getal em pedra pura: o mundo é a
mais exacta forma do amor.


Extraído de MIKE TYSON PARA PRINCIPIANTES
— antologia poética / 2017, organizada por André Corrêa de Sá (coordenador da edição), António Aguiar
Costa, Claudia Souto e Margarida Vale de Gato. Edição de Assírio e Alvim, na chancela da Porto Editora.






JANEIRO 2018: PARABÉNS, SENHOR FRANKENSTEIN

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Foi há 200 anos que Mary Shelley criou o género literário que perduraria designado por “Ficção Científica”

Uma forma eficaz de avaliar a importância e a influência de determinada obra (um livro, um filme, por exemplo) será a de conceber a hipótese da sua inexistência. O exercício, aplicado ao domínio da ficção científica, revelar-se-ia concludente. Presuma-se: a Lua sem as expedições imaginadas por Verne e Méliès; ou a automação do mundo moderno e a coexistência homo-machina sapiens sem os robots de Isaac Asimov; ou a ideia de espaço infinito sem 2001: Odisseia no Espaço; ou as nossas boas-vindas a seres extraterrestres sem Encontros Imediatos do Terceiro Grau...
… Ou, decisivamente: o mito da criação científica de vida humana sem Frankenstein.
A ficção científica tem a sua pré-história nesta personagem fantástica, criada pela jovem britânica Mary Shelley(1797-1851)e publicada em janeiro de 1818, há precisamente 200 anos. Título inicial: “Frankenstein ou o Moderno Prometeu”


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A “cândida” Mary Shelley numa imagem que se presume próxima da época em que inaugurou um fecundo género literário: o da “ficção científica”

A novela é verdadeiramente precursora ao refletir as novas descobertas da ciência e da tecnologia. Sem dúvida a primeira ficção científica de sempre, se excluirmos as abordagens esporádicas de Cyrano de Bergerac e de um outro francês, Jean-Baptiste Cousin de Grainville, que, em 1805, publicou uma obscura história intitulada “Le Dernier Homme”. Pelo contrário, a obra de Shelley possui uma dimensão e consistência apreciáveis, tendo sido escrita sob a influência científica de eminentes sábios da época, com destaque para Luigi Galvani, o famoso anatomista italiano cuja descoberta da eletricidade dinâmica era um tema que continuava a empolgar os cientistas de toda a Europa. Galvani observara que os músculos das pernas de uma rã dissecada se contraíam repentinamente quando uma faísca proveniente de uma máquina de eletricidade estática as atingia, ou quando um bisturi metálico lhes tocava enquanto a máquina estava a funcionar, mesmo não havendo contato direto com as faíscas. Descobriu, então, que os músculos das pernas da rã reagiam, na ausência total de faíscas elétricas, desde que contatassem em simultâneo com dois metais, como o ferro e o latão. Mais tarde, um outro cientista italiano, Alessandro Volta, demonstrou que dois metais diferentes podiam originar uma corrente elétrica. Já não se duvidava, no princípio do século XIX, que a eletricidade tinha alguma conexão misteriosa, mas aparentemente íntima, com a vida. Os cientistas mais ousados começaram a especular sobre a possibilidade de criação científica de vida.
Também a jovem Shelley, conhecedora das investigações de Galvani e de Volta, pensou no assunto. Porém, foi mais longe. Muito mais longe. Concebeu uma criatura enorme, humanoide, criada artificialmente. O tema pareceu-lhe excelente para um romance científico. Figura central do enredo: Vitor Frankenstein, um inquieto anatomista (como Galvani) que decidiu empreender a experiência limite de infundir vida a um corpo inteiro e não apenas a um músculo isolado. A esse plano prodigioso acrescia a ambição de conferir à nova forma de vida um caráter permanente. Jamais seria uma demonstração transitória, de observação laboratorial.
A genialidade de Mary Shelley não se confinou ao pioneirismo do tema. Poderia ter escrito uma banal ficção de terror gótico, recorrente na época. Preferiu ir às raízes filosóficas e metafísicas do mito, o mito prometeico do homem que ousa franquear o território divino e se torna escravo e vítima do ser que criou. Exercício literário de ressonância goethiana, revela a profundidade das mais ancestrais angústias e aspirações humanas sem deixar de constituir, enquanto realização ficcional, uma obra arrebatadora.
Todavia, é diminuto o número de pessoas que leram o livro. Melhor fortuna teve Frankenstein no cinema e na televisão com uma prole de duas centenas de títulos. Infelizmente continua a sofrer estropiações grosseiras que o desterram sem piedade para as profundezas dos horrores abjetos.
Perdurará a inscrição memorável: este é, efetivamente, na história da literatura de ficção científica, o primeiro marco sólido, consistente, incontestado. À margem das inúmeras discussões académicas sobre o que é e não é ficção científica, verifica-se uma assinalável convergência na atribuição dos louros a este livro. Além do pioneirismo temático, merece distinção quanto à qualidade literária.


Pedro Foyos
Janeiro 2018