GALOPIM DE CARVALHO


ZÉ GRANDE, O MEU AMIGO FEITOR  


Pinturas de Dórdio Gomes                                                             


Zé Grande era o feitor de um importante lavrador com residência em Évora e pai de dois rapazes da minha geração. No Alentejo o lavrador não é o trabalhador que lavra a terra mas o dono delas. Via de regra, tem ao seu serviço um homem da sua confiança, bom conhecedor dos trabalhos agrícolas, incluindo os relativos à criação e negócio do gado. Zé Grande tinha sido porqueiro em criança, fora dos tempos de escola onde concluíra a 4ª classe. Bom de cabeça, a leitura não lhe metia medo e, dizia-se, era esperto e fino que nem um doutor. Fora ganhão respeitado em todas as fainas, tendo revelado qualidades de organização do trabalho e de chefia que o fizeram chegar onde chegou.

O lavrador era um homem com estudos e invulgarmente culto, uma excepção na sociedade provinciana, atrasada e preconceituosa que ainda era a nossa nos anos cinquenta do século que passou. Conhecedor de arte, tinha em casa dezenas de pinturas originais, entre as quais recordo algumas do pintor arraiolense Dórdio Gomes, com magníficas paisagens alentejanas, onde os homens e mulheres do campo, o montado de cortiça e os cavalos eram temas dominantes. Apreciador da grande música, dispunha das maiores obras dos mais destacados mestres da Europa, em discos da Deutsche Grammophon, de 78 rotações. Foi na sua casa que ouvi, pela primeira vez, os concertos e as sinfonias de Beethoven, a abertura da ópera Tannhäuser, de Wagner, Daphnis e Chloé, de Ravel, a Sagração da Primavera, de Stravinsky e muitas outras.

Zé Grande era um homem de estatura avantajada, na casa dos 50 anos, bem parecido e bem falante. Era grande por fora e por dentro, diziam os que com ele privavam. Conhecia "de olhos fechados" todos os segredos da vida do campo, quer os do trabalho, quer os do dia-a-dia dos homens e mulheres que ali trocavam a força dos braços pelo pão que comiam.

Conheci-o numa das vezes em que, a convite do Domingos, o filho mais velho do lavrador, fui à herdade das Pedras Alvas, onde ele vivia. Ficámos amigos e foram muitas as vezes que nos sentámos à mesma mesa, no Café Arcada, quando ele vinha à cidade tratar dos mais variados assuntos próprios das suas funções.

Recordo o modo de se tratarem entre si estes meus amigos. Vingava nesse tempo, no Alentejo que conheci, a hierarquia da idade. O patrão velho tratava por tu o feitor e este, ao responder-lhe, dava-lhe senhoria. Aos filhos do patrão, que ele vira nascer e crescer e que, com o tempo, acabaram por ser seus patrões, o Zé dava o tu, ao que eles respondiam com o tradicional vossemecê.

Um belo dia de Maio, em que as searas de pão estavam a virar de verde a ouro, o Domingos levou-me a percorrer aquela mesma herdade. Andámos por lá o tempo todo numa charrete puxada pela Vermelha, uma elegante e ligeira égua, até fazer horas do almoço que ali e então se dizia "jantar". Não vi toda a propriedade, tal a sua extensão, mas vi que as pedras alvas que deram nome à propriedade, eram as de um importante filão de quartzo leitoso que, por ser mais duro do que o xisto, aflorava, saliente, à superfície do terreno.

Na casa do feitor regalámo-nos com umas belas sopas de tomate, enriquecidas pelo pingo da linguiça e do toucinho tirado da salgadeira, aromatizadas com poejos e acompanhadas com ovos escalfados.

Estávamos de abalada e já prestes a entrar no velho Opel, quando o Zé, pedindo-nos que esperássemos um minuto, entrou em casa, saindo momentos depois com um par de botas de atanado que entregou ao jovem patrão.

— Podes usá-las à vontade, que já não te fazem bolhas nos pés.

Fiquei curioso face àquela conversa do feitor e, vínhamos nós na estrada, a chegar à cidade, perguntei ao meu amigo o que é que ele queria dizer com aquela história das botas e das bolhas nos pés.

É muito simples — respondeu-me, com um sorriso matreiro estampado no rosto. — O Zé Grande calça o mesmo número que eu, mas tem os pés mais calejados, mais valentes do que os meus. Assim, como as botas de atanado são duras como um corno, passo-lhas para a mão antes de as calçar. Ele besunta-as com sebo e anda com elas uma semana ou duas até as amansar.






EDITE  ESTEVES


O DOM DA PARTILHA




A sua simplicidade, uma entrega sem subterfúgios, uma energia inesgotável e uma alegria contagiante, genuína, infantil na sua essência surpreenderam tudo e todos na noite de 21 de Março. Cristina Scuccia, uma freira siciliana de 25 anos, hábito singelo, sapatos rasos, cabeça deferente toda coberta e uns óculos simples que lhe iluminavam o rosto rosado espantou e emocionou meio mundo com a sua voz cristalina e uma ousadia sem limites ao interpretar a bela canção "No One", de Alicia Keys, na segunda edição italiana do programa de talentos musicais The Voice.

Perante a estupefacção dos jurados e a cumplicidade crescente do público, Cristina não manifestou nem num só momento qualquer tipo de hesitação. Confiante no seu dom, a "irmã" partilhou-o por inteiro e de coração aberto com todos os que a ouviam. "Não será isso que o nosso Papa Francisco diz que se deve fazer? Pois então, eu aqui estou para partilhar o meu dom com todos vós, para evangelizar". Estas, em suma, as suas palavras directas, a contrapor as interrogações e os olhares incrédulos dos quatro elementos do júri, apanhados totalmente de surpresa, mas que, unanimemente, tinham virado as suas cadeiras, mal soaram os primeiros versos da garganta da concorrente. Um espanto!

Quem a vê ainda agora nas redes sociais, onde se tornou um "vírus" a manter vivo — mais de 20 milhões de visitantes em quatro dias é um recorde mundial para o Youtube —, nem acredita que, nestes tempos onde tudo se compra-e-vende, haja pessoas assim, pedaços de dádiva total que nos arrepiam de tanto calor que emanam.

A luta pela justiça, paz e ambiente precisa de todos os que procuram "a verdade, a bondade e a beleza", diz o Papa Francisco. Pois a "irmã" Cristina é bem o exemplo desta asserção. Sem medo, sem complexos de qualquer ordem e com a alegria própria dos que sabem que têm em si mesmos o dom da partilha, o dever de dar aos outros o que de melhor têm, espalha justiça, bondade e uma beleza inigualáveis.

O rapper italiano J-Ax, o primeiro a carregar no botão, emocionou-se com a religiosa. "Imbatível!", classificou-a. E quando buscou um argumento forte para a tentar conquistar para a sua equipa, lançou: "Eu sou o demónio, você é a santa". Estava feita a evangelização de que Cristina Scuccia falara. Escolheu-o. Um abraço descomprometido e impetuoso elevou a portadora do dom acima do seu "demónio".

Sabemos que um só ser não faz o milagre da superação total. Mas que ajuda muito, ajuda. Quantos dons por esse mundo fora já não estimulou o Papa Francisco com a sua atitude sempre em prol do outro?! Nem tudo está fora de controlo. Há sempre uma luz que atrai os seres na sombra. Serão as "cintilações da sombra" de Victor Oliveira Mateus? A "poesia" viva  desta “irmã” Cristina foi a tocha que irrompeu do meio da escuridão, quiçá para iluminar as mentes negras de tantos "demónios" à solta.

"No One" ficará na história, não só pela sua autora — Alicia Keys —, mas pela inusitada visita de uma enviada de Deus ao palco terráqueo e competitivo dos talentos. Socorrendo-me de dois versos da canção que Cristina Scuccia interpretou com tanto vigor, termino esta reflexão, cantando com a esperança na voz: "People keep talking  they can say what they like / But all I know is everything’s going to be alright" (As pessoas podem continuar a dizer o que quiserem / Mas o que eu sei é que tudo vai ficar bem).


23 de março de 2014





LUÍS DE MATOS


A CAVERNA DE ALI BABÁ  


O Leandro, como a rapaziada o chamava, era um dos anfitriões das regulares visitas de estudo que a nossa escola efetuava a instituições e empresas da região de Coimbra. Uma vez por ano, pelo menos, cumpria-se o encontro apetecido com o Leandro, mestre vinhateiro reformado. Décadas e décadas de paixão pela vitivinicultura. Vejo-o, numa das reminiscentes nostalgias da minha adolescência, a falar-nos de coisas espantosas, a propósito do vinho e dos homens. O Leandro, arrimado aos setenta ou oitenta anos da sua vida rural, sabia do que falava quando falava de vinho. Todos os géneros de vinho. Um único gole, lento e meditativo, revelava-lhe a biografia do líquido, da cepa ao engarrafamento... E nós, maravilhados, escutávamo-lo. Determinado, o Leandro transformara a cave da moradia que habitava num autêntico laboratório experimental de enologia. Recorrendo a métodos artesanais, no segredo de fórmulas licorosas que ensaiava numa liturgia de fragrâncias e transmutações, aguardava os efeitos com uma ansiedade quase infantil. Não escondia que a matéria-prima predileta das suas alquimias era o «champanhe» (assim, com aspas, como determinava, para identificar o «champanhe português»; o outro, o original, produzido na província francesa com o mesmo nome, deveria escrever-se champagne, sem aspas...). Das dissertações do mestre memorizei expressões fabulosas: rémuage, dégorgement, à la glace. Dizia «personalidade» ao referir-se ao tipo da bebida, porque esta poderia ser jovial, aristocrática, fresca, ou nervosa...
Um dia, chegados à cave do Leandro, o nosso professor saiu-se com esta: «Vamos lá visitar a caverna de Ali Babá». E assim ficou batizada. Era de facto uma caverna de Ali Babá onde as joias tinham a forma de uma infinita diversidade de recipientes de vidro: garrafas, frascos, cuvetes, alambiques... A parede do fundo estava tapada com alvéolos hexagonais que abrigavam centenas de garrafas. Particularidade estranha: os fundos dessas garrafas encontravam-se virados para a nossa cara e víamos em todos eles uma pinta branca. «Ó Leandro, estas pintas servem para quê?» E ele explicava, com um sorriso terno, que todos os dias as garrafas deveriam rodar «só um bocadinho», e que a pinta branca indicava quanto faltava para a volta completa.
Devo confessar, porém, que, na minha lembrança, o mais empolgante da visita não se fixava nas garrafas. Muito pelo contrário. Numa outra parede, por cima de uma pequena mesa de trabalho, via-se o cartaz de uma empresa duriense de espumantes naturais a publicitar o produto por meio de uma borbulhante, efervescente, pin up dos anos vinte... Um olhar lânguido, pouquíssima roupa, pose maliciosa. Braço espreguiçante. Na mão esquerda, uma taça de... champanhe!
Entre risinhos e sussurros, a rapaziada topava o embaraço do professor e redobrava a galhofa. Todos (menos o paciente e absorto Leandro) estavam desatentos aos eloquentes esclarecimentos...
Os anos passaram. Quando chegou o tempo de nós, os excitados discípulos do Leandro, levantarmos as taças em celebrações e outros brindes adultos, não foi novidade que o champanhe alegra a alma...






ROSA ALICE BRANCO


HÁ UM LENÇO EM VIANA QUE TAMBÉM SABE


                                   A MINHA SARAH AFFONSO

" Je suis le peintre portugais Amadeo de Souza-Cardoso".

Acho que tudo o que aconteceu teve, de alguma forma, um início mais concreto com esta frase que o Amadeo disparou em 1911, ao apresentar-se, pela primeira de muitas vezes, à porta dos Delauney, na Rue des Grands Augustins nº3.
No mesmo ano, em Viana, na casa da rua da Senhora de Monserrate, eu dei a ver o meu primeiro desenho. Curiosamente, foi também em 1911 que o Zé publicou o primeiro desenho no jornal Sátira.
Havia já o amor de Lucie e Amadeo, a amizade entre este e o Eduardo Viana, e todos os factos que vão desembocar em 1915, quando o Amadeo está casado desde o ano anterior, depois de um longo amor contrariado pelos pais. Quando um exílio forçado faz o Amadeo regressar a Manhufe e os Delauney se fixam em Vila de Conde, na Villa Simultanée, depois de conhecerem em Lisboa, entre outros, O Zé e o Eduardo Viana. E claro, quando a Revista Orpheu rasga os ares portugueses com esta tempestade inusitada a arrebentar os tímpanos e as certezas. Ah, e no entanto.
Eu já tinha ido viver para o Porto. Mas não minto se disser que fiquei sempre aqui, com as imagens das procissões, das alminhas, dos arraiais, festas populares, das ceifas, da lida do mar e dos bordados. Eu própria não tinha uma consciência clara de ter guardado cá dentro uma Viana cheia de rituais religiosos ou laicos, mas tudo isto veio ainda mais claramente à luz depois da morte do Zé, sobretudo nos livros que lustrei. Mas as pessoas adoravam dizer:
— A tua pintura é igual à do Almada.
Ainda hoje me pergunto porquê. Pensariam que era o supremo elogio? Ou queriam apenas mostrar-me que quem convive com um génio só pode gatinhar à sua sombra? De qualquer modo, não aguentei a pressão. É certo que o Zé me incitava. Mas, por outro lado, não suportava ver os meus pincéis e tintas a partilharem o mesmo espaço, o espaço dele, como se. Foi mais fácil dedicar-me à casa e dar como desculpa a preguiça, ou então. Talvez mais tarde eu venha a procurar saber. Era tudo muito rápido: o ritmo futurista e a dor nas entranhas dos pincéis.
Não sei exactamente o que o Amadeo contava aos Delauney na Cloiserie des Lilás, ou nas reuniões de Domingo na casa do casal. Mas é fácil imaginar que os contagiou com as gotas de luz cavalgando por entre as vagas atlânticas. E depois a guerra fez os seus refugiados. Eu tinha pena de já não estar aqui em Viana, porque eles vinham muito com o Amadeo e, embora eu não tivesse nenhuma afeição por Sónia mais tarde em Paris, naqueles tempos adorava vê-los zingar como galgos, o riso a ecoar nas telas ao vento na praia Norte. Era fácil ver que este grupo era também uma cumplicidade de espírito na obra, na modernidade que nascia cada dia, no traço amanhecido a qualquer hora.
Espantados com a luz do Minho, outras cores começam a aparecer nas telas do casal, cores que os surpreendiam, lhes sorriam à boca e lhes amaciavam a mão.
Pouco a pouco os Delaunay iam recolhendo os motivos, as cores e as texturas dos bordados, as bonecas, a cerâmica de Viana, para integrar nas suas obras que doravante terão recortes vianenses na simultaneidade simultaneísta com outras correntes praticadas (de preferência cubistas), ou a praticar em alucinante movimento futurista.
Tal como dificilmente se distinguiam alguns quadros de Braque e de Picasso, a proximidade geográfica e vanguardista faz pensar em fluências mais do que em influências. Era o que pensava o Eduardo Viana a propósito do seu quadro A Revolta das Bonecas. E foi o que fez ostensivamente quando pintou K4 O quadrado Azul, dando ao quadro o mesmo nome do livro do Zé.
O K4 tem um episódio que agora não deixa de ser divertido. Foi o Amadeo quem ficou com o arranjo gráfico do livro, com o Zé hospitalizado, mas em ânsias de delírio para o ver. É que ele nunca soube ser sem superlativo. Como se pode ler carta do hospital em que diz ao Amadeo:

— K4 na máquina? Ansiosíssimo!!!!

Tão obcecado que quando volta a escrever:

— Mas então o K4?

Atira assim sem mais, sem nada que dissesse que "K4" não era o que parecia: um código de guerra. Esta frase lacónica fez o Viana e os Delauney irem parar à enxovia. E o Eduardo ainda esteve para uns 15 dias.
A Sofia adorava as camarinhas. Dizia que nunca poderia pintar aquela cor diáfana, por isso era melhor comê-la. Talvez fosse ela quem mais se expandia numa linguagem de sabores e sons do Minho, da tactilidade dos objectos com a sua forma que vinha da tradição e se transformava em futuro.
Eu parecia apenas uma miúda quieta que bordava sentada no muro. Era um testemunho invisível a sentir com a aragem do mar o que o Modernismo prometia. Mesmo na província se não escapava a um espírito de frescura e de ousadia que atraía uns, apavorava e enervava outros. Era fácil para mim sonhar com um mundo de que entrevia apenas contornos ténues, mas que amava já de longe, num movimento que me projectaria para Paris e para Lisboa com as suas tertúlias das 6 da tarde na Brasileira.
Foi lá que conheci formalmente o José. É certo que ele já me tinha perseguido até ao São Luiz. Mas nesse tempo uma mulher não falava assim ao futuro marido, não porque o não soubesse então (que o não sabia), mas porque era assim. Tão pouco sabia ainda que havia deixar de pintar e que seria preciso a morte do Zé para voltar os meus olhos para o azul do mar de Viana, as festas e as procissões que ilustrariam tantos livros de crianças.
Quando deixei de pintar, todos estes temas das alminhas e das procissões passaram para os meus bordados. E o José disse-me que era um bom caminho. Foi daí que, naturalmente, acabou por vir a fase mais conhecida da minha pintura. E ele nunca chegou a saber, pelo menos nesta vida.
Mas eu ainda estou sentada a bordar num muro da praia Norte onde às vezes tinha a sorte de me cruzar com o Amadeo e os Delauney. Ainda em 1915, quando eles aqueciam o exílio com as cores do Minho.
Houve um dia em que pareciam graves e tristes. Começaram a subida ao Monte, como aconteceu algumas vezes. Acho que não iam por devoção ao Sagrado Coração de Jesus. O edifício no cimo de Santa Luzia ainda estava por terminar. Teria de esperar pelo fim da 1ª guerra e pelo início da pneumónica que matou milhares e não esqueceu o Amadeo, só com 30 anos de idade.
Mas segundo as vozes de Viana, nessa noite não desceram. Foi pouco depois da aurora que Sónia apareceu cá em baixo. Vinha como se não tivesse peso, com um corpo de bruma e um rosto roubado de expressões. O Amadeo e o Delauney vieram só horas depois, em silêncio.
Havia vendedeiras na praia Norte. Nesse dia eu não estava lá, mas esta subida a Santa Luzia ficou sempre no meu imaginário. Sonhava que partia em busca dos trabalhos que desenvolveram logo depois dessa data. Que vasculhei, invadi, visitei. Que não foi fácil, mas com as imagens diante dos meus olhos, pude enfim perceber. E continuei sempre a sonhar com o que poderia ter acontecido naquela subida a Santa Luzia.
Embora eu tenha sempre dito que arrumei a minha tralha da pintura em Moledo quando decidi acabar com tudo, a chorar todo o dia, inventei este episódio para escapar à verdade. Porque as pessoas sempre tentaram escavar a nossa vida. E eu adoptava a postura mais simplista que sabia para me deixarem tranquila. De resto, era o Zé o grande génio, era a ele que procuravam. Depois da sua morte não paravam de me pedir depoimentos, ou mesmo coscuvilhices da nossa intimidade. Mas há uma parte de nós que temos de salvaguardar a todo o custo, enquanto dizemos umas quantas coisas para encher os ouvidos ávidos que nos sugam.
Dessa vez em Moledo deixei vir à tona todas as contradições. Por um lado, o meu amor à pintura, aos ensinamentos do meu mestre Columbano e às esperanças que em mim depositou e, por outro, o temor do confronto com a arte do Zé e, porque não dizer, com a oscilação entre o egocentrismo dele e o remorso de saber que a sua força desmedida me despojava de uma parte imprescindível de mim, tive de acabar de vez com esta agonia continuada.
O José não se apropriava do meu espaço de forma consciente. Mas a sua força, a sua genialidade expansiva e a gente que nos rondava, iam-me sonegando a coragem de ser menor. O Zé ficou tão aliviado quando me virei para os bordados com os motivos da minha infância em Viana, impulsionou-me tanto, que era como se confessasse e exorcizasse os remorsos que sentia pelo que ele próprio era, e por aquilo em que me tornei.
Sim, nessa altura havia alguma tensão na nossa vida. No célebre dia que ficou ligado a Moledo, tínhamos saído muito cedo. Eu tinha mostrado vontade de ir a Viana e subir ao Monte com ele. Devia haver no meu rosto qualquer coisa que o José ainda não tinha visto ou pintado. A manhã era de neblina e eu própria, ao subir, tinha os pensamentos enevoados. Ao mesmo tempo que ia tomar uma decisão que abalava tudo o que eu tinha sido e queria ser, a minha imaginação convocava o Amadeo e os Delauney naquela mesma subida tantos anos atrás, mas ainda não passados, nem desvanecidos. Sentia-nos também a nós como duas figuras misteriosas em trânsito para um acontecimento decisivo. E talvez por isso, ou porque as decisões são murros no estômago, assim foi.

Nunca contei a ninguém o que aconteceu lá em cima. Nunca contarei.
Mas como em todas as belas histórias, também Sarah Affonso não resistiu a deixar ao menos uma pista: uma pista bem protegida. Confesso hoje que há um lenço bordado, só um lenço em Viana que também sabe o que eu já não sei.






GALOPIM DE CARVALHO


A CONDIÇÃO INEXORÁVEL DE ENVELHECER 


FOTOGRAFIA DE JOSÉ ANTUNES                                                                   


Se, como se ouve dizer, a terceira idade começa aos 60 anos, tenho de admitir que, embora sem me ter dado conta disso, entrei na classe etária dos chamados idosos, corria o ano de 1991. Há, pois, pouco mais de vinte anos que sou um idoso na condição inexorável de envelhecer. Mas ser idoso aos 60 anos, profissionalmente realizado, com saúde, e ter sido alvo das atenções e da respeitabilidade que, infelizmente, nem toda a gente tem, mas que eu, muito felizmente, pude desfrutar, foi bom. Foi, mesmo, muito bom. Só que o tempo não pára e as artérias envelhecem mesmo. Com elas envelheceu o corpo mas não a mente, para meu bem e dos que ainda beneficiam do meu trabalho.
Dei-me conta dessa minha nova condição em Drumheller, uma cidadezinha no despovoado território a norte do estado de Alberta, no Canadá, que vive, em parte, do suporte que presta às importantes escavações ali levadas a efeito por paleontólogos de todo o mundo, interessados em dinossáurios - e aos cerca de 250 000 visitantes/ano do mundialmente conhecido "Royal Tyrrel Museum", detentor de uma das mais numerosas e variadas colecções de fósseis completos destes belos animais do nosso passado geológico. Foi aqui, numa loja como aquelas que sempre aparecem nos filmes do Far West americano, que vende de tudo, dos alfinetes aos electrodomésticos, que a senhora que me atendeu e, ao fazer a conta, me perguntou a idade. Dada a resposta, abateu 10% no preço a pagar e, simpaticamente, acrescentou: "it's an old people privilege".
"Velhos são os trapos" diz muito boa gente, preferindo usar o termo idoso que, assim, se generalizou. Mas pior do que ser velho ou idoso é ser pensionista contra-vontade, como no meu caso, estupidamente afastado do serviço activo e colocado na "prateleira" por imposição do "limite de idade". Jubilara-me aos 70 anos, como determina a lei, em 2001, e já levava nessa altura 17 anos na direcção do Museu Nacional de História Natural. Ainda consegui autorização do Conselho de Ministros para continuar ao serviço por mais dois anos, mas a administração não perdoa e, assim, tem sido como voluntário que tenho continuado a prestar a minha colaboração a esta instituição da Universidade de Lisboa, nomeadamente, no apoio às autarquias com vista à defesa e valorização do património geológico existente nos respectivos concelhos.
Estar na "prateleira" proporcionou-me, porém, alguns aspectos positivos e um deles foi ter disponibilidade para, com grande assiduidade, proferir palestras e participar em debates em escolas, sociedades recreativas, centros culturais e bibliotecas municipais por todo país. Outro, foi a possibilidade de me envolver em domínios das humanidades, como a história do homem e das ideias, temas que a exclusividade profissional pouco tempo deu para os abordar convenientemente. Ainda um outro aspecto muito positivo foi vencer a rejeição ao computador, uma atitude que caracteriza muita gente da minha geração. Sempre tive, tanto na Faculdade de Ciências, onde fui professor durante quatro décadas, como no Museu, quem me dactilografasse (primeiro) ou processasse no computador (depois) o muito que escrevi, entre artigos, memórias, relatórios e livros de ensino.
A aposentação retirou-me, de forma abrupta, um importante complemento de trabalho numa fase em que a minha capacidade de produção era cada vez mais evidente. E a solução foi pedir à minha mulher que me ensinasse as bases mínimas de informática que me permitiram e continuam a permitir escrever muitas horas por dia, indiferente a sábados, domingos ou dias feriados. Pude, assim, por ter mais tempo, produzir mais do que quando estava no activo.
A verdade é que, quando estou frente ao monitor, seguindo as palavras que, letra a letra, os dois indicadores vão dedilhando, num esforço de acompanhar e não deixar perder as ideias que fluem, tantas vezes velozes, a verdade é que, dizia eu, não tenho idade, não tenho corpo nem coronárias entupidas e consigo esquecer os problemas que a todos afligem, em particular os que estamos a viver graças a um punhado de espertalhões que ingenuamente temos vindo a consentir que conduzam o nosso destino. E, assim, o tempo rende.
— Estás óptimo, pá!
— É o que, geralmente, oiço, sempre que dou de caras com um parente ou amigo que não via há tempo.
— Estás na mesma!
Esta apreciação, sem dúvida, cordial e simpática, verifica-se, praticamente, em todas as situações, em moldes menos ou mais cerimoniosos, com mudanças apenas na forma verbal do tratamento, que vai do tu e do você ao deferente senhor professor. Reflectindo acerca destas expressões, estereotipadas e muito comuns entre a nossa sociedade, não posso deixar de concluir que, no subconsciente das pessoas que as formulam, ainda que em jeito de cumprimento amistoso, era suposto estar-se mais envelhecido, debilitado ou, mesmo, decrépito. Ditas com a melhor das intenções, estas frases têm o condão de nos confrontar com uma realidade incontornável, a todo o momento lembrada, com a qual não podemos deixar de aprender a conviver. De qualquer maneira, é bom sinal continuar a ouvi-las. Continuar a ouvi-las também porque, no meu caso, isso implica não ter perdido, de todo, a capacidade de ouvir. Deficiente auditivo em agravamento progressivo fui aprendendo a conviver pacificamente e, por vezes, humoradamente com esta limitação.
Devo acentuar que esta condição me potenciou as capacidades de observação, de interiorização, de reflexão, de apelo à memória e, ainda, me ensinou a viver comigo próprio. Sendo a escrita um acto solitário, julgo ter encontrado, nesta minha dureza de ouvido, total disponibilidade para a exercitar.






EDITE ESTEVES


A LUZ – ESSA IMPRESSÃO DIGITAL DE LISBOA  


A luz! É a luz que emana de todos os sentidos da nossa querida Lisboa que constitui a sua impressão digital. Inconfundível. Única. "Visível" em qualquer parte do planeta. Como só uma impressão digital pode ser. Mesmo com as mais sofisticadas tecnologias do presente e as mais avançadas máquinas do futuro.
A luz de Lisboa não é um mito, não. Nem um slogan turístico. Também é, claro. É a característica que faz da capital de Portugal, aquela cidade a que qualquer pessoa não pode resistir, nem negar verdadeiros momentos de magnitude interior.
Porque a luz que trespassa o ar envolvente; a luz que se reflecte e se cruza em cada rua, em cada largo e em cada esquina; a luz que as águas do Tejo nos trazem de volta à alma como um lago transbordante de prazer e agradecimento diante da Natureza imensa e colossal; essa luz de Lisboa, cristalina e límpida, produz no ser humano — por mais comum que seja — um "choque" inexplicável de sensações amenas de bem-estar e tranquilidade, de um tom puríssimo e quase transparente a entrar pelos nossos olhos ávidos.
Sensações que, em mais nenhuma cidade do planeta, eu e muitos dos que comigo caminham por esses países fora, conseguem arrancar às raízes do nosso sentimento.
E se possuímos esse abençoado dom da luz, porque não aproveitá-lo de modo mais prático, pondo-o ao serviço de todos os que necessitam dessa "ferramenta" tão importante, quer para o seu trabalho, quer para a sua cura interior e exterior?
Porque não partilhar essa faceta tão própria da nossa cidade, colocando-a no pódio dos nossos investimentos nacionais e internacionais? Sim, transformá-la em grande vencedora do concurso das mais-valias de Portugal e divulgá-la intensamente, de forma a transformá-la num poderoso "produto" económico a exportar em grande escala?
Não estamos nós em crise? Não precisamos nós de aumentar a produtividade? Não estamos nós em tempo de reinventar e criar novos chamarizes para atrair interesses vários, de forma clara e transparente?
Pois aí temos uma matéria-prima natural de grande quilate para se reproduzir por esse mundo fora, seguindo a gesta imparável dos nossos antepassados. E com a vantagem de não se gastar dinheiro em fabricá-la, nem em aperfeiçoá-la. É só esperar que as nuvens passem… e a luz irrompa na cidade do rio azul, do céu quase branco, do casario rosa e ocre e das gentes de sorriso aberto e quente como o ar que se respira.
É só esperar por aquele momento de êxtase, quando o sol desfaz as gotículas de água suspensas e abraça numa explosão de raios certeiros esta Lisboa sem igual.
É nessa altura que a luz sulca em cada um de nós a sua impressão digital e nos marca para sempre! Ninguém o pode esquecer. Fica-nos desenhada nos olhos e, muito especialmente, no nosso ser mais íntimo. É uma sensação incrível de pertença.


FOTOGRAFIA DE JOSÉ ANTUNES                                                               


O BEIJO DO TEJO
"Ah, Tejo dos meus encantos! Como desejo as tuas carícias mansas nas margens do meu corpo feito cidade! Eu, Lisboa altaneira, esculpida em sete colinas, não dispenso o teu abraço. Terno, às vezes impulsivo. Mas sempre porto seguro do meu enlevo e imaginação. Tejo, ó Tejo cantado por tantos escultores da palavra, da música e das telas, afaga este meu desejo perene de afecto. Abraça-me, beija-me, junta o teu corpo ao meu... Somos um só fado tu e eu. Somos a capital, a cidade das cidades"