Fundado na pluralidade de opinião dos nossos Convidados,
este sítio de encontro procura reunir múltiplas expressões e contrastes,
do humor à análise crítica, da poesia à ficção,
passando pela tão negligenciada cultura da memória.

Yvette Centeno

Escritora.
Professora catedrática
da Univ. Nova de Lisboa




























































































































































































A mentira mais atroz?
« —Todas as dos políticos».



Trocaria de bom grado o seu primeiro nome?
Agora já não.
Quantidade de velas no seu último aniversário?
Nenhumas, só bolo....
Tatuagens?
Nada disso.
Piercings?
Também não.
Já chorou por alguém?
Já, muitas vezes.
Praia ou campo?
Outrora mais praia.
Cerveja ou champanhe?
Cerveja.
Metade cheio ou metade vazio?
Metade cheio.
Lençóis de cama lisos ou estampados?
Lisos e frescos.
Uma obra de arte gravada na memória?
São muitas.
Música preferida?
Mozart, a Flauta Mágica.
Filme preferido?
São muitos, de vários géneros.
Flor preferida?
Rosa.
Que animal lhe merece mais simpatia?
O cão.
Melhor refrigerante para os dias de calor?
Coca-cola com gelo e limão.
Qual dos seus amigos vive mais longe?
Um poeta, no Brasil.

Quantas vezes deixa tocar o telefone antes de atender?
Duas ou três, até chegar lá....
Qual a imagem do seu telemóvel?
Não tenho telemóvel.
Pior do mundo humano?
A violência da guerra, as lágrimas das crianças.
E o melhor?
O futuro, com o progresso do conhecimento e da ciência.
Acredita na vida extraterrestre?
Veremos...
Um feito de que se orgulhe?
Ter-me esforçado por ser boa professora.
Última coisa que faz antes de dormir?
Oiço um pouco as notícias.
Qual o primeiro pensamento ao acordar?
O que fazer do meu dia.
O que tem debaixo da cama?
Uma pasta com quadros não encaixilhados ainda.
O que nunca tira?
Os óculos
Que dom da natureza desejaria possuir?
Alegria interior sempre.
Tem um lema de vida?
Respeitar os outros.
A sua filosofia de vida passa por Deus?
Pela meditação sobre o divino.

Que palavra pronuncia diariamente com maior frequência?
Falo pouco, leio e escrevo mais...
Que livro está a ler?
Heidegger, O que é Pensar.
Um herói de ficção?
Capitão Marvel.
E na vida real?
Tive Mestres, não tenho heróis.
Figura histórica preferida?
Filipe Segundo de Espanha.
Um mistério?
O da Vida.
Uma saudade?
De Ser.
Uma memória longínqua?
A França onde cresci.
Um sonho de adolescente?
Ser escritora free-lancer.
O maior deslumbramento?
Bob Wilson, em Paris.
Uma característica sua?
Sou em geral bem-disposta.
Deceções que teve na vida?
Poucas, mas não falo disso.
Qual foi o dia mais importante da sua vida?
Vários, a cada nascimento de um filho.
A paz é uma utopia?
Infelizmente é.
Um mito que gostaria se tornasse real?
A sabedoria, no mundo.
A mentira mais atroz?
Todas as dos políticos.
Qual o seu primeiro impulso perante a violência?
Repudiar e criticar vivamente.

Vota sempre por ideais ou já deu prevalência à utilidade conjuntural?
Já fiz ambas as coisas.
Lugares onde morou?
Lisboa, Tavira, Lagos, Buenos Aires, Paris.
Lugares em que esteve e voltaria?
Berlim.
Programas de TV a que assistia quando criança?
Não havia TV, ia ao teatro e ao Jardim Zoológico.
Programas a que assiste hoje?
Notícias, de cá e em canais estrangeiros, séries ou filmes, para me distrair.
Quem lhe envia emails com maior frequência?
Amigos de sempre, e estudantes nos seus percursos profissionais.
Lugar em que desejaria estar agora?
Onde estou, em casa.
Como gostaria de morrer?
Sem sofrimento.
Regressando, quem gostaria de ser?
O que fui, sou e seria...



Galopim de Carvalho

Geólogo. Antigo diretor
do Museu Nacional de História Natural
e Ciência da Universidade de Lisboa

























INCÊNDIOS FLORESTAIS:
O CLIMA NÃO EXPLICA TUDO


Eu, António Marcos Galopim de Carvalho, com 86 anos de idade, professor catedrático jubilado da Universidade de Lisboa, nas Faculdades de Ciências e de Letras, ex-director do Museu Nacional de História Natural (durante 20 anos), doutorado pelas Universidades de Paris e de Lisboa, autor de cerca de 300 títulos, entre artigos científicos, de divulgação e de opinião, de centenas de “posts” em Blogues e no Facebook, de 20 livros dirigidos aos ensinos secundário e superior e à divulgação científica e de 6 de ficção. Colaborador, sempre a título gracioso (e de borla, como diz o povo), em dezenas de escolas, autarquias (de todas as cores políticas) e universidades, de todo o país, jornais e televisões.
Isto tudo, ao estilo de quem está a “puxar pelos galões” (que todos os que me conhecem e me leem, sabem que não puxo) para conferir algum peso ao desabafo de uma convicção muito minha, muito séria, como cidadão declaradamente independente dos aparelhos partidários.
O Verão quente e extremamente seco que vivemos (as alterações climáticas estão a alertar-nos para tempos difíceis) justifica a dimensão e a intensidade dos incêndios florestais que tanta dor infligiram a tantas famílias e tantos prejuízos causaram à economia do país. Mas não explica o elevado número de focos de incêndio, nem locais diversos, detectados durante a noite, sem trovoadas secas nem fundos de garrafas de vidro ao sol. O calor e a secura propagam e alastram os fogos mas não os iniciam!
Os imensos e trágicos incêndios do passado fim-de-semana (falou-se em mais de 500), alguns iniciados de noite, afiguram-se-me como que um “aproveitar” os últimos dias deste Verão que nos entrou Outono adentro (pois sabia-se que a chuva vinha aí) para dar continuidade a uma guerra surda contra o Governo legítimo cujos sucessos são, por demais, conhecidos cá dentro e lá fora.
Basta ler e ouvir os comentadores dos jornais e das televisões ao serviço dos poderosos para perceber como esta tragédia nacional continua a ser utilizada por eles nesta guerra. E a verdade é que tem tirado algum proveito (não todo) desta estratégia. É notório que o governo está fragilizado. Também por culpa sua, diga-se, que, em minha opinião, não soube ou não quis “partir a loiça” na altura certa. Neste momento e com tamanha e bem orquestrada campanha contra a “Geringonça”, a sorte do Governo é que a mais do que fragilizada oposição não tem nada a propor aos portugueses.






Faria Artur


Jornalista




faria





































































































A PROPÓSITO DO TONY DE MATOS

tony

Aparece de costas. Ligeiramente curvado. As orelhas sobressaem do cabelo curto, com corte clássico. Vai-se virando e aí está ele de frente para o telespectador. Fato castanho claro, liso, camisa branca impecável e, naturalmente, engravatado. Soltam-se as palavras românticas, mas vibrantes, e a música melosa. É Tony de Matos. Estamos na RTP Memória.
O Tony de Matos pouco já dirá aos resistentes dos anos 60/70 e menos, ainda, aos da década de 80, que viviam o amor ou a paixão de maneira intensa e suportavam mal o ciúme, e nada mesmo aos que viajam do Sudoeste para o Ermal, ou do Rock in Rio para o passeio de Algés ou para o Super Bock/Super Rock.
Cartas de amor (1950); Vendaval (1962); Procuro e não te encontro (1962) e Só nós dois é que sabemos (1962), alguns dos grandes sucessos do Tony, são de outras vidas e tempos – boites e cabarets, onde dominavam os fatos completos com camisa branca e gravatas de nó fininho; fumo intenso; whisky (também do marado), cocktails, espumante travestido de champanhe francês e muitas damas assim e assado. Porteiros fardados, com distintos bonés, que chamavam táxis e recebiam as gorjetas de forma discreta, não esquecendo, no entanto, os encómios ao ‘sr. engenheiro’ ou ao ‘sr. doutor’… Ritz, Galo, Bolero, Cantinho dos Artistas…Porão da Nau; Cesária, Timpanas, Márcia Condessa (fados); Parque Mayer, Café Lisboa e outros como o Monte Carlo; Delta, Ribatejano, Palladium; Portugália, Carioca, Trindade, Riba D` Ouro, Tony dos Bifes, e outros sítios de comes e bebes, como a antiga Taverna Imperial ou a Alga …Brasis, digressões pelas ex-colónias, Coliseu, Ateneu, Alunos do Apólo; Cinemas Roma, Monumental, Condes, Odeon…gozos nocturnos em tempos salazarentos.
Era a rádio, o gira-discos e os primeiros passos da RTP (1957). As televisões vendiam-se a prestações e os lojistas até as colocavam à experiência em casa dos hipotéticos clientes. E muito boa gente viu televisão – dias e semanas – servindo-se de um expediente: ir experimentando aparelhos de vários estabelecimentos comerciais até descobrir o ideal.
Não era preciso congelar pão ou abrir pacotes de leite arrumados na despensa durante meses. O padeiro às seis da manhã colocava o pão quente no saco que, na véspera, era pendurado no puxador da porta da escada; a leiteira também não faltava manhã cedo com a bilha de alumínio à cabeça e as respectivas medidas de meio e um litro.
E o jornal entrava pela janela, qualquer que fosse o andar em bairro popular, graças à habilidade dos jornaleiros.
E comprava-se na taverna/carvoaria meio litro de vinho – que também podia ser concebido a partir de uvas – bem longe, pois, dos primores dos nascidos hoje das mãos de enólogos.
E da mercearia trazia-se uma posta de bacalhau demolhado ou meio quilo de atum de barrica…daí que, pelo Natal, o comerciante distinguisse os clientes de boas contas com uma garrafinha de vinho do Porto, cuja qualidade ficava assinalada pela quantidade de sarro que se acumulava no fundo da mesma!
E sonhar? O cinema nas salas de bairro – Lys, Imperial, Rex – cujas noites de sábado e matinés de domingo completavam as sessões facultadas pelo cinema Royal aos estudantes do Liceu Nacional de Gil Vicente, facultando-lhes bilhetes bem mais baratos.
E ainda não tinham surgido os ‘carros-bomba’ que diariamente despejam, deixando e recolhendo, os meninos à porta das escolas, originando no local circulação automóvel catastrófica…longe, longe, muito longe do que o salazarismo deu às famílias: pais no eléctrico-operário, de madrugada, e os filhos pendurados nos amarelos da Carris com os cobradores a fingir que corriam com eles, ameaçando-os com o alicate de marcar bilhetes.
E passeios nessa Lisboa adormecida! Idas à Baixa eram viagens de ‘chupeta’ como diria o Eça. As mães vestiam-se e calçavam-se de maneira cerimoniosa, não esquecendo os sapatos sem salto, como suplentes, metidos no saco onde, também, viajavam um copo de alumínio e uma garrafinha de vidro com água para os petizes e meias carcaças com manteiga ou marmelada, para o caso de não haver tempo de ir à Castanheira comer um bába ou um queque. Toda esta preparação e mobilização, algumas vezes, para ir ao Eduardo Martins pedir umas amostras para o novo fato do pai ou do rapaz. Aquele era um homem feliz, não necessitava de ir à Baixa vestir-se ou calçar-se. A mulher, sempre em ‘lágrimas’ e já não penso nas causadas pelas radionovelas, encarregava-se de escolher no comércio do bairro peças de roupa variadas que trazia ao lar para o marido escolher. O mesmo se passava com os sapatos, a loja mandava a casa quatro ou cinco pares para o cliente apreciar. Não havia desconfiança, logo não existia adiantamento!
Mas a paz podre era vasta…
E as iluminações de Natal! Um dos grandes espectáculos do ano. As família reuniam-se para irem ver as luzes na Baixa…lá iam elas rua acima, rua abaixo de nariz no ar e entre duas espreitadelas às montras de onde mães e filhas extraíam modelos para futuros fatos.
E no Verão as noites na Feira Popular: sardinhas (tostadas ou mal grelhadas), batatas cozidas (enresinadas) e saladas (dominadas pelo pimento) que não impediriam, ao fim de um par de horas, depois de uma passagem pelo Café dos Pretos, o assalto às farturas acompanhadas de vinho rosé, tentadoramente fresquinho; panelas (cada montão delas…); carrossel e, finalmente, os chocolates obtidos a partir dos furos realizados nas caixas da Regina…e o percurso nunca terminaria sem uma passagem pelo pavilhão internacional para uma espreitadela aos sofás, colchões, mesas, cadeiras e afins, tudo a preços fantásticos promovidos por fábricas sediadas nos arredores da capital.
E os almoços de domingo no Ginjal, em Cacilhas, que davam direito a passeata de cacilheiro no Tejo.
E sessões de solidariedade dedicadas a fadistas, a tentarem ultrapassar os azares das vidinhas, na Voz do Operário, a cargo das boas almas que também paravam nos passeios, respeitosamente, descobrindo a cabeça – ou benzendo-se – à passagem de um funeral.
E o pudim chinês ao almoço de domingo.
E o Águas, Coluna, Eusébio, José Augusto, Cavém, Germano, Simões…o estádio da Luz, onde o cu arrefecia rapidamente, se não houvesse almofada, só aquecendo com o levanta e baixa obrigatório com os golaços dos Gloriosos, ou para criticar o árbitro que era ‘ceguinho’.
E voltando ao principio, tínhamos, igualmente, a Maria José Valério, a Maria de Lurdes Resende, o Francisco José, o António Calvário, a Madalena Iglésias, a D. Simone, a sra D. Amália, o Henrique Mendes, o Artur Agostinho, o Conjunto Académico João Paulo, o Quinteto Académico+2…
E tanta coisa boa proibida, pelos antónios, daí escondida ou submetida. E gente clandestina ou forçadamente escamoteada que, só anos mais tarde, numa manhã de Abril, seria descoberta ou justiçada.




Victor Oliveira Mateus

Escritor





































































































































































APONTAMENTOS EM TORNO
D’O EVANGELHO SEGUNDO LÁZARO
DE RICHARD ZIMLER


                                             Quem não pode morrer
                                             arranque a lápide
                                             levante e ande

                                             Até quando?
                                             Até onde?

                                             Edmar Monteiro Filho, Lázaro


A vida e obra de Jesus Cristo não têm sido temas apelativos para o romance português contemporâneo. Se o cinema ocidental tem visto no assunto matéria inesgotável para as suas abordagens (Pasolini, Scorsese, Zeffirelli, Gibson, etc.), o mesmo acontecendo com a música dita erudita (Bach, Liszt, Messiaen, etc.), já o romance luso fica-se por duas meras incursões na história sagrada: “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”  (1991) de José Saramago e “Os Últimos Dias de Pôncio de Pilatos” (2011) de Paula de Sousa Lima. Se outros motivos não existissem, o facto de nos encontrarmos perante um território literariamente inóspito, já seria de louvar a temeridade com que Richard Zimler se lança na construção da sua narrativa. Sem nos esquecermos que a relação da História com a Cultura tem sido uma das dominantes na ficção de Zimler, urge, no entanto, acrescentar que em O Evangelho segundo Lázaro há uma vertente psicologista – fundada quer numa sistemática introspeção do narrador, quer numa análise do relacional – que, tomando igualmente a dianteira, forma com os aspetos históricos e culturais uma tríade que, não só dota a estrutura narrativa de coerência e sistematicidade, como apresenta a tese central do livro com uma razoabilidade que incita a reflexão e o questionamento.
Este romance de Zimler integra-se num estilo realista alicerçado no histórico, no cultural e no sócio-ideológico, contudo, este realismo é constantemente atravessado por momentos de intersubjetivismo e de intrasubjetivismo, que o autor assinala a itálico. Convém acrescentar que este psicologismo nada tem a ver com as exaustivas análises do mundo interior levadas a cabo por Proust no seu emblemático romance; em Zimler os excertos em itálico mantêm-se presos ao imediatismo do instante vivenciado (Cf. p 25) ou são puras conjeturas em torno do pensamento ou do monólogo interior do outro (Cf. p 52, p 70, p 332). É este aspeto estilístico, bem como a escorreita articulação da intriga e o modo de tratar o tempo narrativo, que dotam O Evangelho segundo Lázaro de uma tessitura sólida e de uma fruição agradável e enriquecedora. Relativamente à questão do tempo narrativo, Richard Zimler demarca-se do romance fragmentado e do articulado emparelhamento dos planos narrativos, optando – de modo exímio e coerente – por uma linearidade diegética constantemente transpassada por analepses (Cf. p 83), elipses (Cf. p 75), resumos (Cf. p 402), prolepses (Cf. p 17). Também no que diz respeito aos aspetos psicológicos já referidos é importante considerar a forma rigorosa como são desenhados atitudes, modelos comportamentais e, sobretudo, as personalidades das personagens como por exemplo as de Jesus, Marta e Anás, o anterior sumo sacerdote, cujas ações aparecem no livro com uma inventariação de pormenores digna de um tratado científico.
O Evangelho segundo Lázaro apresenta um prólogo, à guisa de advertência, para que o pergaminho que vai ser exposto não possa ser roubado, vendido, desfigurado ou queimado (p 9). Após este Conselho amigo, Lázaro lança-se na sua versão da vida de Jesus, tomando como início da narração a história da sua própria ressurreição (pp 13-31), mas sem esquecer de referir o recetor do pergaminho – Yaphiel, o seu neto vivendo em Alexandria -, bem como o tempo histórico e o espaço geográfico da narração. Um dos aspetos mais interessantes deste livro é a forma como se entrecruza a preocupação de rigor de Lázaro com as zonas de sombra que o autor incute no discurso do narrador – exemplo: Lázaro, durante o tempo em que esteve morto não vislumbrou quaisquer sinais de uma qualquer transcendência, o que, obviamente, o deveria direcionar para um ateísmo convicto (na página 271 fala-se mesmo da sua perda da fé!), todavia, várias são as passagens do livro em que ele invoca o Senhor (Cf. p 415); outro exemplo: Lázaro não fundamenta de forma suficientemente clara a forma como entende o regresso de Jesus – aqui e ali – após a sua crucificação, se por vezes levanta a possibilidade de o vir a reencontrar “ quer na sua própria pele, quer na pele de outro homem ou mulher” (p 439), posição esta que tangencia a teoria platónica da transmigração da alma, outras vezes  parece querer substituir o conceito de aparição pelo de visão (p 381-384, p 440), seguindo de perto a sistematização operada por Ratzinger relativamente a investigações teológicas que o precederam. A questão da ressurreição – quer a de Lázaro, quer a de Jesus – é um dos temas fundamentais deste livro, contudo, Zimler afasta-se de toda a tentativa primária de clarificar o fenómeno (uma das tais zonas de sombra já referidas!), parecendo querer deixar para o leitor a liberdade de interpretação, já que são exatamente as palavras de Jesus que irão operar a cisão entre a visão judaica da dos primeiros cristãos no que diz respeito à tríade morte/ fim dos tempos/ ressurreição (Cf. “Ce qu’ils n’ont pas dit de Pâques” de Daniel Marguerat in “Les premiers temps de l’Église”, org. Marie-Françoise Baslez, Gallimard, 2004, pp 92-100): Marta e Maria sabem que Lázaro ressuscitará no fim dos tempos, mas isso não parece consolá-las, daí reprovarem Jesus por não ter chegado a tempo ( Cf. Daniel Marguerat, op. cit. p 99), por sua vez este, apesar de saber que ainda naquele dia (e o fim dos tempos é, então, trazido para o presente!) Lázaro poderia estar diante do Senhor, mesmo assim, decide trazê-lo de novo à vida. Eis os dois pontos fundamentais deste livro: a ressurreição de Lázaro e a figura de Jesus!
A figura de Jesus não é, no entanto, nesta obra, apresentada como a do filho unigénito de Deus, como aquele que sendo Deus encarnado participa da sua substância e da sua natureza. É evidente que é um filho de Deus, mas no sentido em que todos o somos, talvez com capacidades e aptidões superiores às do vulgo para comunicar com a transcendência, mas é apenas isso e nada mais. Por conseguinte, em O Evangelho segundo Lázaro, Jesus é frequentemente apresentado (apenas) como: profeta (p 237), milagreiro (p 261), um ser extraordinário (p 214, p 265), mago (p 177, p 295), “auxiliador/ comunicador à distância” (p 338, p 356), curandeiro (p 358), feiticeiro (p 196). Ora, e aqui Richad Zimler insere exemplarmente o seu livro no ambiente teológico e filosófico não só da época por ele abordada, mas também daquelas que imediatamente se lhe seguiram – exemplos: Apolónio de Tiana (final do século I D.C.) viajou por todo o Império Romano tendo granjeado fama de mago, profeta e operador de milagres, aliás, também a tese de divindades intermédias ou de seres mediadores era bastante comum, como podemos ver em Numénio de Apameia (Síria, século I D.C.) e em Plutarco de Queroneia ( 46-120 D.C.), sendo este o mais notável representante do chamado Platonismo Médio e em Fílon de Alexandria (30 A.C. ?), convém não esquecer que é exatamente em Alexandria que reside a tia de Lázaro, Ester, e será nesta cidade que a personagem que dá título ao livro encontrará um dos seus refúgios, bem como algumas das primeiras figurações de um cristianismo emergente, deturpador e fanatizado. Será em Alexandria, já perto do final do romance, que Lázaro irá conhecer os arautos de uma nova religião alicerçada numa figura que nada tem que ver com o Jesus que ele conheceu e com quem conviveu desde a infância.
Mas O Evangelho segundo Lázaro não é apenas uma obra inserida, de modo escorreito, numa cultura a partir da qual lança a sua mensagem. Os aspetos político-ideológicos (Cf. p 333), económicos e sociais são a outra trave mestra do romance: após a sua ressurreição, Lázaro regressa a casa numa ruela onde as pessoas se começam a amontoar para, diariamente, lhe pedirem a bênção ou, até mesmo, a cura para uma ou outra maleita. Este fenómeno, bem como a cumplicidade com um Jesus, que, pelo discurso e pela ação, vai afrontando os poderosos do seu tempo, acabará trazendo enormes problemas aos dois amigos. Veja-se, por exemplo: Jesus libertando um escravo (p 212), as críticas que faz a Caifás (p 214), a sua recusa da passividade ante o poder de Roma (p 218), etc. O afrontamento de Jesus aos valores da conformidade, bem como a solidariedade – por vezes cautelosa – demonstrada por Lázaro, têm duas consequências inevitáveis: a prisão e crucificação de Jesus e a perseguição movida a Lázaro – e família - que o leva a ter de abandonar a Palestina. O conflito, inicialmente com a casta sacerdotal - sobretudo com o despótico Anás, o antigo sumo sacerdote – que teme a perda de privilégios, alastra depois ao poder temporal e, apesar de não se estar perante um modelo político teocrático, o que é facto é que a execução de Jesus enfatiza a frase de Henri Pena-Ruiz para este tipo de sociedades: “Dieu et César pour le pire” (In “Qu’est-ce que la laicité?”, Folio, 2003, pp 50-56). Lázaro tudo faz para tirar o seu amigo da prisão: pedidos a Lucius, seu patrão; tentativa de persuadir Augustus Sallustius, o áugure de Pilatos, mas nada surte efeito. Estava-se perante o inevitável (pp 354-373)! Com parte da família assassinada como represália, resta a Lázaro uma única saída: a fuga, primeiro para Jericó, depois para Rodes… No final do romance, surge a explicitação do porquê da necessidade de escrever este seu Evangelho, da necessidade que sentiu em expor a Yaphiel, seu neto, aquilo que foi a verdade factual da vida de Jesus, aquela que ele vira com os seus próprios olhos e não a propagada naquele momento pelos seus seguidores que pululavam mundo afora.
 Richard Zimler articula assim de modo inextricável três variáveis: a preocupação com a verdade objetiva de que o narrador se faz arauto; as “pausas” de cariz reflexivo (Cf. p 221, p 243), que, porque distanciadas umas das outras, poderão parecer incipientes e desnecessárias e os momentos carregados de forte poeticidade, sobretudo os que relevam da relação de Lázaro com Maria, uma das irmãs, e com Jesus, onde o corpo e os sentidos assumem sempre uma conotação positiva (Cf. p 347, p 371). É a conjugação destas últimas variáveis com o referido no segundo parágrafo deste texto, que fazem d’ O Evangelho segundo Lázaro uma obra de valor inestimável e imperdível.









Leonel Moura


Artista plástico




victor





















CARNE PODRE


No futuro seremos vistos como muito primitivos. Os nossos descentes reconhecerão a imaginação e a criatividade, capaz de inventar o computador e viajar pelo espaço, mas não deixarão de notar que ao mesmo tempo somos extremamente agressivos, passamos o tempo em violências e guerras, mas sobretudo temos um enorme desprezo pela restante vida.
Imagino que no futuro olharão para nós como hoje vemos os romanos. Notáveis na organização, na criação de leis e na arquitetura, mas divertindo-se a ver pessoas devoradas por leões ou massacradas na arena. A forma como tratamos os outros animais não será esquecida no futuro. Vistos como objetos que podemos maltratar e massacrar sem remorso, são usados para os mais abjetos fins. Desde o divertimento à romana, com as touradas, as corridas ou o circo, à caça, verdadeiro desporto de sádicos assassinos, até lhes tirarem a pele para fazer casacos para as senhoras ou os torturarem diabolicamente nos laboratórios para garantir que o champô não arde nos olhos das criancinhas. Tudo com a ajuda dos veterinários, essa profissão que existe para legitimar o mau trato dos animais e não, como certos jovens inocentes imaginam, para os defender. Os veterinários são os Dr. Mengele desta história.
Mas é certamente a indústria da carne, pelo número de animais afetados e pelo requinte de malvadez, que mais nos deve chocar. Estamos a falar de atividades de uma brutalidade e desprezo pela vida animal impressionantes. Tão impressionantes que a maioria das pessoas, na hora de comprar o seu bife, não quer ver, não quer saber. Aliás, e já que estamos nas comparações, ocorre-me o que sucedeu com os campos de concentração nazis. Muita gente tinha notícia do que se passava, mas não queria saber, não queria ver. Hoje damos conta dos campos de extermínio quando passa por nós um camião carregado de animais para abate. A vasta maioria olha para o lado.
Animais que nasceram, viveram metidos em pequenas gaiolas apertadas, foram alimentados com rações cheias de porcarias, drogas e químicos, levados para a morte em transportes abafados, mortos brutalmente, esquartejados enfim por carniceiros a lembrar filmes de terror. Depois entram na cadeia de produção e distribuição. Onde vão apodrecendo. Sim porque toda a carne que comemos está podre, já que o processo de decomposição se inicia logo após a morte. A questão é saber se está pouco ou muito podre, para o que existem fiscais. A considerada pouco podre deve ser cozinhada. Para matar as bactérias e dar gosto à podridão. Os bifes podres do Brasil não são a exceção, são a norma.
Não fomos feitos para comer carne. Não temos dentadura nem estômago apropriados. O homem da chamada Idade da Pedra era vegetariano. Depois, a ingestão de carne deu uma vantagem competitiva a alguns grupos, tornando-os mais fortes e agressivos. Hoje uma parte significativa da população come carne todos os dias. Não sem danos colaterais.
A ingestão de carne está na origem de muitos dos mais graves problemas de saúde como o cancro, a diabetes ou os ataques cardíacos. O uso excessivo de antibióticos nos animais acaba no organismo de quem os ingere, resultando na crescente resistência bacteriana. Acresce que esta é uma indústria altamente poluente. A produção de carne é responsável por uma elevada percentagem das emissões de gases nocivos ao ambiente.
Por tudo isto, desde logo por uma questão ética, o número de vegetarianos tem vindo a aumentar, sobretudo nos países mais desenvolvidos. Um dia seremos civilizados.





Leonor Xavier

Jornalista e escritora









































































































PEREGRINAÇÃO


Acordei com a palavra Peregrinação a divagar dentro de mim. Começava um dia claro de verão, e nesse mesmo dia também começou a fazer-se este livro.
Andei meses, mais de um ano, a pensar em como poderia celebrar a vinda do Papa Francisco a Portugal. Procurei formatos de escrita, imaginei temas, admiti relatos ou descrições, não me entusiasmei pelas narrativas, mais que feitas e retomadas, sobre milagre, promessa, devoção. Não trabalhei para uma biografia, não sou historiadora para assuntos temporais, não sou sabedora na interpretação de textos sagrados. Quase tinha desistido de pensar na comemoração do Centenário das Aparições, neste 2017 de tantas possíveis mudanças esperadas no cenário do mundo.
Em crónica publicada, a múltipla afirmação de Frei Bento Domingues reanimou-me para o sentido da minha própria caminhada. Tão atual nas questões que hoje nos envolvem, quando diz: “Fátima tem-se aberto pouco a pouco ao diálogo inter-religioso.” Quando desenvolve: “Para outros grupos, muçulmanos, budistas, hindus, a Cova da Iria é também um lugar privilegiado da experiência do Sagrado”. Quando afirma: “Fátima pode e deve ser o espaço espiritual onde se elabora e difunde uma cultura ativa de paz.”
Assim, entre dúvidas, muitas hesitações e algumas vigílias, quase me perdi. Arrisquei-me, como diz o verso de Manuel Antonio Pina: “Perde o viajante/ o caminho do regresso.” Mas não parei, como aquele outro viajante sem descanso, que José Tolentino de Mendonça define : “Sou eu e é o ser humano na sua condição de homo viator, de caminhante, de itinerante.”
Até que a mim, que sou mulher de fé, uma iluminação alentou, de repentemente, para esta palavra Peregrinação. E foi ela, nas suas cinco líquidas sílabas, que me foi pronunciada vezes sem conta, neste escorrer do tempo, até ao último testemunho, ponto final a fechar a minha tarefa.
Logo nas primeiras horas dessa manhã, decidi que este livro não seria de expressão religiosa, não teria intenção confessional. Pensei em pedir um testemunho sobre peregrinação a crentes e não crentes. Pessoas públicas de várias gerações, de posições e alinhamentos políticos possivelmente opostos. Eu previa atividades e profissões muito diferentes, mas quase todos são da cultura, da comunicação, da criatividade. Ao longo do trabalho, tive sempre o cuidado de manter um número igual de homens e mulheres, pedindo-lhes que me confiassem o seu testemunho. Acreditei que, nas tantas diferenças de ânimos e crenças, modos e falas, poderiam ser meus cúmplices. Desde que me conheço e creio na escrita como forma de intervenção, tenho procurado descobrir a expressão da unidade, na diversidade de todos nós, portugueses. Agora, uma vez mais acontece.
Depois de alinhados todos os nomes próprios por ordem alfabética, relendo os seus depoimentos, oiço as suas vozes e vou-lhes relembrando as reações, nas respostas ao pedido que a quase todos enviei por mensagem. Que me falassem “sobre peregrinação: a palavra ou a ideia ou a experiência, ou tudo isso”, escrevi. Raros foram os testemunhos que não recebi ou as respostas que se diluíram no desencontro da comunicação, o que muito naturalmente acontece na vertigem desta época que vivemos. Desencontro que cada vez mais corta espaços de convívio e vai desfazendo pontos de encontro. Que afasta hipóteses de conversa, de troca de ideias, de divertimento ou desabafo por casos e coisas que deixam de se comentar. A aceleração da vida real impõe hoje horários esgotantes, reuniões infindáveis de trabalho, preocupações com prazos a cumprir. E pouco permite o tempo interior, ou a pausa de reflexão para o entendimento de nós e dos outros. Talvez, por tudo isso e muito mais, muitas das pessoas a quem pedi que me falassem sobre Peregrinação foram pelo tema apanhadas de surpresa. Tão português, o tema proposto. Atrevo-me a dizer.
No segundo volume de “Peregrinação Interior” e na intimidade de quem escrevia como falava, António Alçada Baptista ajudou-me a perceber o meu sentimento, quando conheci as primeiras respostas: “Julgo que, enquanto não acertarmos com os desenhos da alma, não acertamos com os desenhos da vida”. Porque na fé dos crentes e nas convicções dos não crentes, fui surpreendida pela sinceridade, às vezes quase segredada, que senti na primeira pessoa do singular de cada um e de quase todos. Houve percursos comuns, experiências semelhantes, na linguagem tantas outras vezes discreta que, mesmo com as suas pausas ou silêncios, demonstra os traços fundos da nossa identidade.
Poucos, entre os não-crentes, omitiram ou recusaram ter passado por tempos de infância ou juventude em que uma formação cristã existisse no espaço da casa e da família. Até hoje, sabemos nós que, a celebrar os mortos, é o sinal da cruz no peito que, nos portugueses, manifesta o respeito e exprime a dor. O que me leva, neste contexto, a citar a opinião de Agustina Bessa-Luís, em uma das suas muitas máximas sobre o que somos: “O português é oficialmente católico por educação, por cultura, mas deixa uma certa margem de heresia que é essencialmente para um estado criador, no fim de contas.” E ainda, em proposta para o futuro que já agora começou, ela se pronunciou: “Diz-se que o séc. XXI será o século místico, porque volta a necessidade de pôr Deus no seu lugar. Deus humanizou-se demasiado e o ser humano quer um Deus à distância porque a perfeição tem de estar na distância.”
Neste livro “Peregrinação”, eu queria ter e manter os modos, as formas, nas maneiras de dizer. A minha intenção era de que as pessoas me dessem o seu testemunho de viva voz. Algumas disseram-me de imediato o seu significado para Peregrinação. Algumas outras quiseram umas horas ou uns dias para pensar. Outras preferiram escrever, em vez de falar. No conjunto, descobri e posso garantir que também a palavra escrita tem som de voz. A quase todas essas pessoas eu devo gratidão imensa. Porque interromperam trabalhos e compromissos, para me darem a sua resposta. Porque foram generosas, na espontaneidade ou na emoção, sem duvidar.
Além de todos os entendimentos, interpretações, opiniões, dá-se neste livro a presença insistente do número 7, nos vários planos de significado, de espaço, de tempo. Perfeição decorrente de outra maior, que é o 28, os gregos chamaram-lhe número perfeito, associado ao ciclo de fertilidade da mulher e à própria condição humana. No Génesis, o 7 é número de vingança, no Evangelho é número de milagre. Multiplicado, transforma-se em 70, número do infinito, número sagrado perdão, sem limite e até ao fim dos tempos.
Setenta são os trinta e cinco homens e as trinta e cinco mulheres que me falaram. Já que não foi por intenção, terá sido por acaso? Nem eu própria sei.
A rematar, em memória de Fernão Mendes Pinto desafio os leitores à aventura da viagem que aos portugueses pode sempre acontecer : “E tomãdo por principio desta minha peregrinação o ~q  passei neste Reyno, digo ~q (…)Reyno, digo ~q (…)Nesta carauella me embarquei eu, & ella se partio logo”

Lisboa, 9 de Janeiro de 2017

(PRÉ-PUBLICAÇÃO DA INTRODUÇÃO AO LIVRO PEREGRINAÇÃO, COM LANÇAMENTO NO DIA 27 DE MARÇO, ÀS 18h30, EM LISBOA (EL CORTE INGLÊS) E APRESENTAÇÃO POR JOSÉ TOLENTINO DE MENDONÇA.






Teresa Rita Lopes


Escritora e investigadora



victor











ANO BOM

Nasceste com cara de mau, no Dia de Ano Bom como te
chamam ou chamavam no meu Sul natal e ainda te
chamam no Brasil.
E assim permaneces, de cara fechada.
Foste avisando: “ Ponham-se a pau
Que vou ser um ano mau!
Comigo não brincam!”
E eu que gosto tanto de brincar, meu marau!
Mas podes franzir o sobrolho à vontade
que não te acredito:
Todos os seres são bons ao nascer!
É a ânsia de poder que os torna maus.
Serás o que fizermos de ti.
Serás mau se assim te tornarem os homens que nasceram bons e a ambição enlouqueceu.
Desfranze a cara, meu recém-nascido Ano Bom!
Chora chuva ou sorri Sol mas olha-me nos olhos!
De braços abertos te espero
para lutar ou dançar!



Maria do Sameiro Barroso

Médica e escritora









Viagem de Inverno

Escuto Schubert
​na lareira acesa dos pianos 
abandonados,
e aguardo a estrela, o lume, 
um punhado de versos,
uma harpa celeste 
sublevando a neve, o silêncio,
uma lâmpada colorida,
um dia de Natal, quem sabe,
subvertendo o corpo,
a memória, 
a matéria desfeita,
a cadência suave tecendo 
a recatada solidão
da noite
de anjos, quimeras 
e música.




Victor Sousa Lopes

Historiador de arte
e escritor



victor



















































































































































"CONVERSAS NO CAFÉ GELO"

Conheci o Alberto Matias nos anos 70 no Café Gelo, no Rossio, poiso de muitas tertúlias e debates, secretos alguns, ao longo do período que assombrou a nossa História mais recente e em que o cinzentismo salazarista transformou Portugal numa plataforma amorfa, sem direito a expressar por qualquer forma a sua opinião, as suas preocupações e as suas ambições mais comezinhas.
Ele andava então na casa dos 70 e tinha uma memória viva, altamente observadora e sábia, própria de quem havia passado décadas pelas redacções dos jornais (afrontadas permanentemente pelo lápis azul da censura), por salas de livrarias (um outro local de encontros privilegiado desse tempo entre intelectuais com ideias e ideais próprios), e por mesas de cafés em tertúlias que se arrastavam noite dentro, além de salas de conferências, onde tentava expor e explorar, ainda que de forma subtil, as suas verdades sobre o que se passava.
Fiquei, desde logo, deslumbrado com as suas histórias verdadeiras, contadas entre copos e muita conversa vária e dispersa. Fora-me apresentado por um amigo comum, seu colega num jornal de Lisboa. O Café Gelo foi o nosso primeiro ponto de encontro, passando depois, ora pelo Nicola, ora pela Pastelaria Suíça. Todos ali mesmo no centro da capital, em pleno Rossio, sala de visitas da nossa cidade. Fervilhavam as mesas de ditos e de sussurros, de gargalhadas e de observações conspirativas em grupos mais ou menos alargados. Não nos podemos esquecer que, nesse tempo em que o conheci – princípio dos anos 70 –, já o marcelismo abria algumas portas à fala e a esperança de um país livre começava a tornar-se cada vez mais forte...
A nossa amizade consolidou-se e, após o 25 de Abril, tornámo-nos companheiros francos e directos de jornadas longas, conversando sem pejo de tudo e de todos. Eu sempre a ouvi-lo atento. As suas histórias cada dia com mais pormenores acrescentados. A sua perspicácia e crítica certeiras, e a sua lógica e sensibilidade a esmiuçar os factos de meia dúzia de décadas de “estrada jornalística” cheia de escolhos e de obrigatórias “cambalhotas” para poder passar as suas crónicas sem serem cruzadas pelos censores (era um cronista exímio!) acabaram por me transmitir a energia necessária para pôr em prática um plano que, há muito, embrionava na minha mente: transcrever para a posteridade a experiência vivida por todos aqueles que habitavam ou passavam pela então “paradisíaca” Lisboa, em especial na década decisiva da II Grande Mundial, a de 40, período que motivou deveras a minha atenção, dada a imposição de Salazar de os portugueses nada poderem ver, nem ouvir e nem sentir, ou mesmo falar. Numa altura em que o mundo brandia armas e os poderes disputavam etnias, o Governo salazarista optava por uma neutralidade camuflada, servindo astutamente ora um lado, ora outro, conforme os interesses em jogo... Em vez de entrar na guerra, cinicamente e esquecendo alianças, Portugal pretendia mostrar ao mundo inteiro que, afinal, era ele quem detinha o verdadeiro poder com as suas colónias e o seu império além-mar.
Foi então que, decidido, numa tarde soalheira de Junho de 1986, convidei o meu amigo Matias – era assim, simplesmente, que ele gostava de ser chamado – para lhe expor o meu projecto. Marcámos encontro, não no Café Gelo, que já não fazia parte nessa altura do roteiro de Lisboa, mas no sombreado Castelo de São Jorge, baluarte da nossa capital e local donde podíamos avistar o casario multicolor, o Tejo e o seu estuário grandioso, a outra banda do rio efervescente e o horizonte por onde se deixavam de avistar as caravelas no tempo dos Descobrimentos e por onde passaria também decerto o nosso futuro feito de mar.
Retomámos histórias dessa época de guerra mundial, para que ele mas pudesse rememoriar em minúcia (tinha, aos 86 anos, o que se chama de “memória de elefante” e uns cabelos prateados que não condiziam com a sua lucidez e jovialidade), mas não só, já que o passado estaria sempre presente e de mistura com ele, para o justificar e contextualizar. Assim, ali ficámos três horas “perdidos” nessa Lisboa de outrora...
Em 1942, numa sua crónica, já escrevera: “Nasci e vivi num quarto andar em Alcântara, do qual tinha vista sobre o porto. Na altura, havia um movimento enorme naquele porto, onde o cais acolhia navios de todos os portos e gente de todos os credos. Os barcos entravam e saíam e era por ali  que numa dessas ‘barcas de salvação’ os emigrantes ansiosos partiam rumo às Américas. Lisboa, nessa época, fervilhava de vida”.
Ali, virados para o rio, marca indelével desta magnífica cidade em que me revejo e que, hoje, me habituei a calcorrear com os olhos do passado colados aos do presente, numa simbiose que me enriquece os sentidos e a alma, e que preciso ansiosamente de partilhar com os outros, ouvi-lhe, uma vez mais, agora com o registo de quase nove décadas de vivências, as memórias que tanto me impressionaram nos idos anos do Café Gelo.
Os acontecimentos sucederam-se e Matias tenta ordenar cronologicamente  os factos de que me dá conta: os horrores da II Grande Guerra, os anos de fome do Estado Novo, as senhas de racionamento, os refugiados que mudaram vários hábitos de Lisboa, as misérias e grandezas por que passou a população lisboeta - incerteza, medo, desconforto, penúria -, a ameaça de invasão de Portugal pelos alemães, o envio de tropas para os Açores, as manifestações de alegria pelo fim da guerra...
Matias era lisboeta dos pés à cabeça. Um perfil de homem raro, daqueles que andam pelo mundo narrando histórias já esquecidas. Era o guia perfeito nesta visita que eu visualizava a uma parte da história da cidade, que ele conhecia como ninguém, transportando-nos a um universo de costumes e acontecimentos que marcaram essa época e que fazem parte da nossa memória colectiva.
“Quais as principais memórias que guardas da cidade de Lisboa?”, atrevo-me a perguntar-lhe, para encetar o nosso périplo. E a magia desfila sem obstruções, como se estivéssemos a ver cada cena num ciclorama gigante azul claro, ali defronte, no céu límpido. Como que por magia, as suas recordações organizam-se, apesar de afirmar, de início, que são tantas que nem sabe por onde começar. Começa, afinal, sem hesitar, pegando no seu bloco invisível, onde toda a vida tirou notas como repórter.
Desfolhando-o, enumera acontecimentos que constituíram notícia:
“Lembro-me de imediato do aparecimento dos primeiros autocarros adquiridos pela Carris para reforçar o transporte de visitantes para a Exposição do Mundo Português. Entretanto, não me esqueço do dia em que Lisboa foi fustigada por um grande ciclone que causou prejuízos enormes de todos os géneros. Recordo aqui o trânsito de hidro-aviões na Doca de Cabo Ruivo. Para além dessas, também não esqueço a abertura da primeira Feira Popular, em Palhavã (onde mais tarde veio a instalar-se a Gulbenkian), um momento bem gravado na memória. Estas são algumas das grandes recordações dos tempos de guerra que guardo comigo. Mas das memórias mais vivas que guardo relacionadas com a década de 40 (do século passado) também existem os conflitos, as rupturas, as ironias, as modas, ângulo na nossa cultura, no nosso convívio, no nosso imaginário, a escassez de alimentos, gasolina e bens essenciais. Vivia-se um período de grande crise a lutar com falta de géneros e de dinheiro, entalados num vespeiro chamado Guerra Mundial, a defender-se com o refúgio do sonho de uma vida melhor. Outras memórias que ajudam a refazer a História era a da censura imposta pelo regime de Salazar aos jornais, onde havia ordens expressas para que as notícias ou comentários fossem obrigatoriamente submetidos a ‘censura prévia’. Quando recordo o passado, dou-me conta que partilhei situações onde toda uma atmosfera que se esfumou no tempo ainda cheira, em certos casos, à vida actual. A coisa que, no entanto, mais gostei de fazer em toda a minha vida foram crónicas. Escrevi centenas e centenas...”
A estas reminiscências, não resisto a acrescentar as minhas próprias lembranças. Porque Lisboa é também a minha cidade. Foi ela que me viu nascer e aqui volto neste transitar de século para, ao olhá-la em contemplação, me recordar das suas colinas, do chiar dos eléctricos, dos refugiados que por cá passaram fugidos da guerra, do movimento de homens com ar de espiões que se passeavam pelas ruas, bares e hotéis, do transitar de aristocratas célebres, estrelas de cinema míticas e figuras ambíguas da espionagem internacional, dos exercícios ensaiados contra pretensos ataques aéreos, dos pregões das varinas e dos ardinas que já não se ouvem, da Praça da Figueira com o seu mercado que, na altura dos santos populares, se engalanava para essa grande festa e está hoje transformada numa rotunda árida com uma estátua ao meio, onde largam em saltos e correria os jovens de skate, e onde se concentra uma miscelânea de imigrantes afro-asiáticos e de Leste.





O livro “Conversas no Café Gelo”, de Victor Sousa Lopes, é lançado no dia
11 de Outubro, às 18h30, na Livraria Bertrand no
Centro Comercial Picoas Plaza, em Lisboa.

NOTICIÁRIO SOBRE O LIVRO NO ESPAÇO “BLOCO ABERTO”




Edite Esteves

Jornalista e escritora
























































"VER COM OLHOS DE VER"
E "NÃO COM OLHOS DE OLHAR"


Já não é a primeira, nem a segunda ou terceira vez que, na precipitação do acto, ao fechar uma porta qualquer, de casa ou do carro, por exemplo, deixo lá ficar esquecida a mão ou simplesmente um dedo. O resultado é óbvio: após um grito inevitável, uma nódoa negra, acompanhada de inchaço e da consequente dor que persiste durante dias e dias, fazem-me pensar nesta estupidez que se repete.

Diz-se que devemos estar sempre atentos aos sinais, aos do nosso corpo em particular, e a tudo aquilo que nos rodeia no dia-a-dia. Será este um sinal?! — pergunto-me, ainda incrédula com este pensamento que, de súbito, me atrai.

E dou comigo a filosofar, na apertada casa de banho onde, há dias, ao fechar a porta atrás de mim, sem sequer olhar para trás, fiquei com um dedo esmagado entre a porta e o lavatório. A distância é ínfima, sem dúvida, para que tudo caiba lá ao milímetro, mas tal não teria acontecido se eu tomasse atenção. Ou seja, se eu tivesse visto o que estava a fazer no momento. Aprendi ainda no liceu — e estou sempre a repetir isso, sobretudo aos meus netos — que a diferença entre “olhar” e “ver” é que “ver é olhar com atenção”. E eu nem sequer tinha olhado para o que fazia, quanto mais visto.

Sei perfeitamente que o que me aconteceu pode acontecer facilmente naquela divisão do meu T2… Onde estava a minha cabeça?! Sempre que besunto várias vezes ao dia a raiz do meu dedo com uma pomada para desfazer o inchaço e a dor, que perduram, dá-me vontade de me esbofetear com tanta distracção.

Mas hoje foi diferente: logo pela manhã, quando saí da casa de banho, fechei a porta com todo o cuidado, vendo o que estava a fazer, e pronunciei um prolongado suspiro de alívio. Estás a ver, Edite, se estiveres com a cabeça liberta dos teus constantes afazeres, nada acontece de mal, pelo menos, não esmagas a mão ou os dedos.

Qual quê?! E deixei-me levar pela lógica… Por fim, concluí que, ao deixar parte do meu corpo para trás, quando costumo fechar uma porta displicentemente — e não são poucas as vezes que o faço — estou apenas a emitir um aviso à minha própria pessoa de que, quando uma porta se fecha atrás de mim, apesar da dor sofrida, tenho ainda possibilidade de “salvar” parte de mim para encetar outro percurso e abrir outra porta. O pior é quando a porta se fechar de vez e o meu corpo ficar esmagado, antes de conseguir empurrar outra porta…

Então, a falta de atenção nesta actividade corriqueira por ter o espírito imbuído de projectos muito mais elaborados será mesmo um bom sinal?! Um sinal de que ainda tenho tempo para entalar muitas vezes as mãos, que, apesar de tudo, outras portas se irão abrir diante de mim?!

Na verdade, todas as minudências da vida têm uma razão de ser. A lei causa-efeito e a lei acção-reacção de Newton definem-na. Por isso se diz que não existem coincidências. O aristotélico “porquê” desempenha nesta equação a variável que induz a resposta à acção.

E lá vamos nós para o passado para explicar o futuro. Mas não é assim que os seres do nosso planeta funcionam? O infinito poderá ser, pois, a reacção lógica a uma acção presente, que tem raízes muito lá atrás no tempo. Temos de “ver com olhos de ver” e não “com olhos de olhar” para as acções que praticamos. Só assim poderemos vislumbrar um futuro sem dor.

Setúbal, 16h30 de 23 de Agosto de 2016, uma terça-feira



Rui Beja

Mestre em Estudos Editoriais
pela Universidade de Aveiro
Antigo presidente da Associação Portuguesa
de Editores e Livreiros
e do Círculo dos Leitores



















NO MEU TEMPO
... ou essa espécie de «bexiga incómoda»
que é a curiosidade

Dizer que se vivem tempos conturbados e de mudança acelerada, é um lugar comum de aceitação universal. Mas... e cada um de nós? Em que tempo vive? No “seu” tempo, certamente. E aqui começa a colocar-se uma das questões cuja resposta mais divide quantos vivem nos dias de hoje.
Porque a realidade dos factos assim o dita, ou porque a visão pessoal e o artificialismo sociopolítico tal pretendem fazer crer, vivem-se tempos de perturbadora clivagem intergeracional. No meu tempo, no vosso tempo, no nosso tempo, no tempo futuro, parado no tempo, avançado no tempo, desfasado do tempo ou, talvez mais propriamente, no tempo que não dá tempo ao tempo. Porque tudo na vida tem o seu tempo, chega a seu tempo e apenas acaba quando termina o tempo.
No meu tempo não existe data marcada para o presente, nem para o futuro. Vivo no meu tempo desde que nasci até que me situe neste mundo com consciência do que sou, capacidade de me interessar e lucidez para avaliar a minha circunstância nos tempos de mudança acelerada que vivemos.
Como disse José Saramago em Outubro de 1995, numa alocução sobre a importância do livro em tempo de mudança:

... A partir do momento em que o ser humano perde a curiosidade começa a não estar neste mundo, começa a ensimesmar-se, a tornar-se praticamente um autista porque perdeu a curiosidade; não quer saber mais o que está ao seu redor e, talvez seja o maior dos desastres que possa vir a acontecer, o facto de que cada um de nós possa dispor de toda a informação do mundo, ou qualquer coisa que se pareça com isso, e não ter a curiosidade para chegar a essa informação. Esse é o drama.
... Alguém que perca a curiosidade começou desde esse momento a morrer.
... Só há crise da leitura se houver crise de curiosidade, se o ser humano se transformar num ser sem essa espécie de «bexiga incómoda» que é a curiosidade que nos vai levar a saber um pouco mais do que aquilo que sabíamos.


Galopim de Carvalho

Geólogo. Antigo diretor
do Museu Nacional de História Natural
e Ciência da Universidade de Lisboa


































































































































































"Ó MINHA TERRA NA PLANÍCIE RASA…"
(Florbela Espanca, no poema ‘Minha Terra’, in “Charneca em Flor”)

Há uma trintena de anos, transportei comigo, vinda do Alentejo interior, uma comadre de visita a uma filha residente em Almada. Viemos por Setúbal e, durante a subida da serra da Arrábida, esta minha amiga, que pela primeira vez saía do campo a perder de vista onde nascera e vivera, dava mostras de um certo mal-estar.
— Não sei o que tenho, sinto-me apertada. Falta-me a lonjura do nosso Alentejo. Isto aqui é só cabeços. E que cabeços.
E foi assim até ao alto da capelinha de Nossa Senhora das Necessidades. A partir daí, na descida para Azeitão, foi-se-lhe diluindo a aflição e, quando passámos à planura, que nos conduziu ao nosso destino, ouvi-a exclamar
— Aqui, sim, já se pode ver ao longe! Já a gente respira!
Nunca mais esqueci esta visão da nossa paisagem interiorizada na mente desta minha comadre e foi a pensar nela que procurei reunir, em palavras simples, o que me foi dado aprender sobre a “planície alentejana”.
Sempre que me afasto da ficção em torno da cultura alentejana, em que o “ver ao longe” facultado pela planura das suas paisagens é um dos temas mais apetecidos e exaltados, e me concentro nos ensinamentos que a geografia ou a geomorfologia colocaram à minha disposição, interrogo-me sobre a longa e complexa história geológica da vasta superfície levemente ondulada por suaves outeiros (colinas) e abertos valados que inspirou Antunes da Silva, Florbela Espanca, José Saramago, Manuel da Fonseca, Urbano Tavares Rodrigues, Vergílio Ferreira e tantos outros.
“Planície” aparece aqui entre comas porque, se bem que a palavra tenha perfeito cabimento como figura de estilo no discurso literário, não o tem na abordagem geográfica ou geomorfológica. Na origem, o termo planície, que nos chegou vindo do latim planitie, significa simplesmente superfície plana. E, em rigor, plana é a superfície da água em repouso. Como vocábulo do léxico geográfico, esta mesma palavra passou a referir uma extensão maior ou menor de terreno aplanado, de notada horizontalidade e, na maioria dos casos, a muito baixa altitude, onde a sedimentação supera largamente a erosão. Planícies são, por exemplo, a lezíria do Tejo, os campos do Mondego ou os do Sado. Ora, no âmbito desta disciplina, a chamada “planície alentejana” não corresponde minimamente a este conceito.
Para podermos abordar o conhecimento da “planície alentejana", temos necessariamente de começar por saber o que é e como se formou a mais extensa das unidades fundamentais do relevo da Península Ibérica, citada em todos os manuais de geografia por Meseta Ibérica.
Em 1825, na sequência de uma visita que fez à Península Ibérica, o geógrafo e naturalista alemão Alexander von Humbolt (1769-1859) definiu aqui uma extensa superfície planáltica, ocupando a maior parte do território, conhecida, desde então, por Meseta Ibérica. Levemente basculada de NNE para SSW, esta superfície, fundamental para a definição do relevo da maior parte de Espanha e de Portugal, resultou do arrasamento do troço ibérico da grande cadeia de montanhas elevada durante a orogenia hercínica ou varisca, entre finais do Devónico e meados do Pérmico, ou seja, entre há 380 e 280 milhões de anos (Ma).
Uma primeira evidência do começo desta aplanação, fruto de cerca de 90 milhões de anos (Ma) de erosão (durante os quais terão desaparecido quatro ou mais quilómetros de altura da montanha), já estava esboçada no Triásico superior (há 210 Ma), tendo ficado conhecida por superfície pós-hercínica ou pré-triásica.
Observável em alguns locais de Espanha, temos espectacular testemunho desta superfície de erosão na discordância angular observável na Praia do Telheiro (Vila do Bispo), onde camadas sub-horizontais do Triásico superior continental, de característica coloração vermelha (Grés de Silves, com arenitos, siltitos e, por vezes, leitos conglomeráticos) assentam sobre xistos e grauvaques do Carbónico superior marinho (Vestefaliano, com 300 Ma) pregueados e truncados pela dita superfície pós-hercínica.
Se tivermos em conta que, no Triásico superior, o território hoje ocupado pela Península Ibérica se encontrava numa latitude tropical, no interior da Pangea, a cor vermelha dos sedimentos dessa idade, bem representados em Silves, Praia do Telheiro, Santiago do Cacém, Coimbra, Águeda e Eirol (Aveiro), aponta para uma situação climática quente de tendência semiárida, susceptível de mobilizar o ferro (durante a estação húmida) e de o fixar sob a forma de óxido (na estação seca). Neste quadro climático, a superfície pré-triásica terá tido, pelo menos em parte, uma evolução próxima da da pediplanície tal com a definiu, em 1962, o geomorfólogo sul-africano Lester King (1907-1989).

Um barco sobrecarregado
emerge à medida que se lhe alivia a carga


Em 1889, o geofísico americano Clarence Edward Dutton (1841-1918) pôs em evidência o fenómeno natural a que deu o nome de isóstase (ou isostasia), que definiu como o equilíbrio gravítico que se estabelece entre a litosfera e a astenosfera, ou seja, camada externa do manto superior terrestre, sobre a qual assenta, mais densa e caracterizada por alguma plasticidade. À semelhança de um barco sobrecarregado cujo casco vai emergindo à medida que se lhe alivia a carga, também grande parte do bloco litosférico peninsular, aligeirado da carga correspondente à montanha desaparecida por erosão, se foi soerguendo (elevando).
É curioso assinalar que uma primeira abordagem ao citado equilíbrio consta do livro “Tratado dos Meteoros”, da autoria do filósofo francês Jean Bouridan (circa 1300-1360), reitor da Universidade de Paris. Este clérigo não irmanado com qualquer ordem religiosa, escreveu “A erosão torna mais leves os continentes que, aplanados, tendem a erguer-se…” o que representa uma notável antecipação ao conceito de isóstase.
Assinale-se que, enquanto o interior da península se ia elevando, as suas bordaduras (as hoje Orlas Meso-cenozóicas Ocidental e Meridional) iam-se afundando, em relação com o estiramento (adelgaçamento) e fracturação da faixa da Pangeia precursora da abertura do Oceano Atlântico. É nessas bordaduras afundadas que se irão instalar as Bacias Lusitana e Algarvia e nelas acumular milhares de metros de sedimentos resultantes da erosão da parte mais soerguida do referido bloco.
Ao longo do Jurássico e do Cretácico inferior, esta superfície em elevação isostática continuou a ser alvo de erosão mas, pelo menos numa grande parte deste intervalo, de cerca de 100 Ma, sob condições de clima quente e húmido indutoras de intensa alteração das rochas. A natureza essencialmente quártzica e caulinítica dos sedimentos terrígenos (conglomerados, arenitos e argilitos) de fácies deltaica do Cretácico inferior da Orla Meso-cenozóica aponta nesse sentido, pelo que o modelo de erosão poderá ser explicado com base no concebido e divulgado, em 1957, pelo alemão Julius Büdel (1903-1983), segundo o qual terão existido duas superfícies de aplanação, uma exposta, ou seja, a “superfície topográfica” que suportava a paisagem, sujeita a erosão pelas águas de escorrência e fluviais, e outra no subsolo, entre a capa de alteração (rególito) e a rocha sã, referida por “superfície basal”, tanto mais profunda, quanto maior tiver sido a espessura do rególito. Büdel defendia que, quando a humidade prevalece relativamente à secura, a meteorização é mais veloz do que a erosão e, assim, a espessura do rególito aumenta. Se, segundo ele, o clima evoluir no sentido da aridez, a erosão superficial torna-se mais veloz do que a meteorização das rochas, podendo, no limite, pôr a descoberto a dita superfície basal que, assim, se transforma numa superfície de aplanação. O arenito do Buçaco, que eu tive oportunidade de estudar, em 1960, em conjunto com o de Coja (o Supra-Buçaco de Orlando Ribeiro), conservados no fundo da Bacia da Lousã, discordantes sobre esta superfície, são ainda, à semelhança dos do Cretácico inferior, quartzo-cauliníticos, corroborando esta visão do geomorfólogo alemão.
Entre a idade cretácica inferior (Albiano, com base no conteúdo polínico) deste arenito e os primeiros depósitos que, por falta de elementos seguros de datação, têm sido atribuídos, de forma abrangente, ao Paleogénico (65 a 23 Ma), decorreu um grande intervalo de tempo, na ordem de três a sete dezenas de milhões de anos, durante o qual o bloco crustal correspondente à Península não parou de subir, rejuvenescendo o relevo, não só em virtude da procura do citado equilíbrio isostático, mas também como consequência do começo da colisão das placas africana e ibérica.
Os referidos sedimentos, atribuídos “grosso modo” ao Paleogénico, são correlativos deste rejuvenescimento do relevo, depositados nas planuras vizinhas. Na maioria detríticos, com destaque para as arcoses, podem ser observados de norte a sul do país, em Vale Álvaro e Vilariça (Bragança), Longroiva e Nave de Haver (Guarda), Coja (Coimbra), Cabeço do Infante (Castelo Branco), sendo de destacar, no que se refere ao Alentejo, os de Tramaga (Ponte de Sor) e Vale do Guizo (Alcácer do Sal), na base da cobertura cenozóica da grande Bacia do Tejo-Sado, e Marmelar (Vidigueira). Discordantes sobre a superfície afeiçoada no final deste grande intervalo de tempo, apontam uma evolução climática no sentido da secura, pelo que é de admitir que este afeiçoamento se tenha verificado em regime de pediaplanação.
Não estando condicionada ao nível de base geral (como acontece na chamada erosão normal de Davis), este retoque na planura da Meseta, segundo o modelo preconizado por Lester King, pode perfeitamente ter tido lugar em situação planáltica.
É, pois, a partir desta superfície paleogénica, tida, no seu compartimento a norte da Codilheira Central, como uma das superfícies de erosão mais perfeitas do mundo, consentânea com o processo de pediaplanação, que podemos definir o relevo do maciço antigo ibérico.
A compressão da Placa Africana sobre a Península Ibérica (compressão Bética do ciclo orogénico Alpino), em especial durante o Miocénico superior, conduziu a deslocamentos verticais de blocos do soco, em alguns casos na ordem das centenas de metros, através de falhas tardi-hercínicas. Deslocados entre si, como teclas de piano desniveladas, estes blocos deram origem, por exemplo, às Serras da Estrela e do Caramulo, aos planaltos transmontanos e da Guarda, às superfícies de Castelo Branco, de Évora e de Beja, e a depressões, como a de Celorico, a Cova da Beira ou a que faz de substrato da grande Bacia Cenozóica do Tejo-Sado, cujo enchimento completa a parte restante desta planura que caracteriza a maior parte da paisagem alentejana.
Persistem nesta aplanação ou nos troços dela desnivelados pela referida movimentação vertical de blocos alguns relevos residuais ou de dureza, constituídos por quartzitos, sob a forma de cristas alongadas, como são, em Portugal, entre outras, as referidas como serras da Marofa, do Buçaco, de Penha Garcia, de Moradal, de Marvão e de Alcaria a Ruiva. A par destes relevos há, ainda, os “Inselberge” ou montes-ilhas graníticos, como o de Monsanto, na Beira Baixa que, embora raros, parecem testemunhar um retoque tardio nesta superfície, muito provavelmente no Vilafranquiano, de novo em regime semelhante ao que conduz à pediplanície, consentâneo com a semiaridez geralmente atribuída a este intervalo de tempo.

Nota. Agradeço ao Nuno Pimentel a leitura crítica do texto.



Miguel Real

Escritor











































































































































































































































MEU PRIMEIRO PENSAMENTO AO ACORDAR
É O QUE VOU ESCREVER NESSE DIA



Trocaria de bom grado o seu primeiro nome?
Já o fiz, troquei Luís por Miguel. Tinha-me zangado comigo próprio e decidi mudar de nome. Fiz bem.
Quantidade de velas no seu último aniversário?
63, muito recentemente.
Tatuagens?
Não, só mentais, que não são visíveis.
Piercings?
Não, só mentais, que não são visíveis.
Já foi a África?
Muitas vezes, um continente apodrecido que teima em não se levantar, países conduzidos por falsas elites.
Já chorou por alguém?
Muitas vezes, ainda hoje chorei pela morte do Jorge Sequerra, actor amigo.
Praia ou campo?
Campo e mar.Vivo permanentemente entre a praia e o campo, ora em Fontanelas, ora nas Azenhas do mar, ora em Colares.
Peixe ou carne?
Peixe, sem dúvida.
Cerveja ou champanhe?
Água. Se está muito calor, Coca Zero.
Metade cheio ou metade vazio?
Metade cheio – sempre.
Lençóis de cama lisos ou estampados?
Lisos.
Uma obra de arte gravada na memória?
A estátua de David, de Miguel Ângelo, em Florença, a foto de uma índia nua na Amazónia feita a preto e branco por Sebastião Salgado, a Sagrada Família de Gaudi, em Barcelona, Guernica de Picasso, tantas, tantas mais.
Música preferida?
As mais ouvidas na Antena 2, de Bach, Mozart e Beethoven.
Filme preferido?
Não tenho.
Flor preferida?
Camélia, sobretudo se nascida em terra sintrense.
Qual o animal que lhe merece mais simpatia?
Hipopótamo.
Melhor refrigerante para os dias de calor?
Coca Zero.
Qual dos seus amigos vive mais longe?
A Ana Paula e o Rui Rocha: vivem em Macau.

Quantas vezes deixa tocar o telefone antes de atender?

Se estiver a ler, a escrever ou na biblioteca, o que constitui a maior parte do dia, tenho o telefone no silêncio. Quando acabo, ligo a alguns dos números, mas nunca a todos.
Qual a imagem do seu telemóvel?
O meu telemóvel não tem imagem. Lamento.
Pior do mundo humano?
O homem, ele próprio, um autêntico vírus maligno.
E o melhor?
O homem, ele próprio, um autêntico anjo benigno.
Acredita na vida extraterrestre?
Sim, existe de certeza vida fora do nosso sistema solar.
Mas desconheço que forma de vida.
Um feito de que se orgulhe?
Ter casado com a Filomena e gerado dois belos filhos, o David e a Inês.
Última coisa que faz antes de dormir?
Ler.
Qual o primeiro pensamento ao acordar?
O que vou escrever nesse dia.
O que tem debaixo da cama?
Roupa por passar a ferro.
O que nunca tira?
Uma pulseira de sisal no pulso esquerdo dada pelo meu filho na Guiné. Segundo ele, tinha sido abençoada por um Irã.
Que dom da natureza desejaria possuir?
Saber escrever ainda melhor.
Tem um lema de vida?
Escrever – sempre.
A sua filosofia de vida passa por Deus?
Não, passa por uma transcendência que designo por Presença, porventura sem existência real, apenas criada na minha mente. Mas, quem sabe…

Que palavra pronuncia diariamente com maior frequência?

“Preciso de escrever”.
Que livro está a ler?
Estou a ler dez livros ao mesmo tempo sobre a teoria do Pecado com vista a um novo ensaio. No romance, estou a ler Os Navios da Noite, de João de Melo, para recensão no Jornal de Letras.
Um herói de ficção?
Todos os heróis são de ficção, isto é, possuem componentes românticas.
E na vida real?
Talvez Snu Abecassis por motivos que explicitei no meu romance “O Último Minuto na Vida de S.”
Figura histórica preferida?
Luís de Camões, Padre António Vieira, Eça de Queirós e Fernando Pessoa — porque morreram atormentados presumindo terem falhado a vida e, pela morte, ganharam a eternidade.
Um mistério?
Por que Sintra é tão bela todos os dias?
Uma saudade?
Amigos e familiares que morreram.
Uma memória longínqua?
A Filomena com 23 anos.
Um sonho de adolescente?
Ir para Paris viver. Não fui e não estou arrependido.
O maior deslumbramento?
A vida, a maravilha da vida todos os dias – o esforço de fazer o bem quando o ambiente é maligno, homens e mulheres felizes no Brasil, na Índia, em África em situações infelizes…
Uma característica sua?
Ter dificuldade em dizer que Não e andar continuamente mergulhado em trabalho.
Deceções que teve na vida?
Algumas, mas nenhuma que não tivesse ultrapassado. Presumo que sem traumas, pelo menos durmo bem à noite, sem insónias nem pesadelos.
Qual foi o dia mais importante da sua vida?
O dia em que conheci a Filomena no cinema Monumental na projeção do filme “Trás-os-Montes” de António Reis.
A paz é uma utopia?
Não, um desafio permanente dos homens justos de todos os países.
Um mito que gostaria se tornasse real?
Respondo com uma frase de Saramago: que “todos os homens fossem reis e todas as mulheres rainhas”.
A mentira mais atroz?
A que humilha ou mata. Humilhar é matar mentalmente.
Qual o seu primeiro impulso perante a violência?
Afastar-me.

Vota sempre por ideais ou já deu prevalência à utilidade conjuntural?

Umas vezes por ideias, outras pela conjuntura, dependendo do tipo de votação.
Lugares onde morou?
Lisboa e Sintra.
Lugares em que esteve e voltaria?
Florença, Buenos Aires e Salvador. Iria de novo, mas voltaria para Sintra. É aqui que quero morrer..
Programas de TV a que assistia quando criança?
Em criança não vi televisão, primeiro por não haver, depois, quando foi criada, por o meu pai não ter dinheiro para comprar um aparelho.
Programas a que assiste hoje?
Policiais entre as nove e as onze da noite. De quando em vez, o telejornal, mas já muito raramente
Quem lhe envia emails com maior frequência?
O CLEPUL – Centro de Estudos de Literatura e Cultura Europeias e Lusófonas da Faculdade de Letras de Lisboa e o grupo de investigação e amizade “António Telmo. Vida e Obra”.
Lugar em que desejaria estar agora?
Só há dois lugares onde desejo estar, em minha casa e na Biblioteca Nacional, lugares de fácil acesso.
Como gostaria de morrer?
A dormir.
Regressando, quem gostaria de ser?
Eu próprio.



José Alberto Braga

Jornalista e escritor.
Antigo presidente
da Associação de Imprensa Estrangeira
em Portugal




































































































































AS MEMÓRIAS DA NOSSA GENTE

Quando resolvi escrever o livro Memórias Dessa Gente, a primeira pergunta que fiz a mim próprio foi a seguinte: justifica-se este livro? As reflexões em casos tais acabam por colocar na penumbra ou névoa os factos vividos e, além do perigo de não ser fiel aos mesmos, cai-se no risco de escrever muito e não dizer nada. Devo ao meu amigo Manuel Monteiro esta empreitada: ele não sossegou enquanto eu não disse sim e, praticamente, obrigou-me a escrever este livro. Hoje posso dizer-lhe: bem-haja!
Resolvi então fazer um livro "híbrido", ou seja, que falasse das minhas vivências mas também esmiuçasse factos pitorescos, e até humorísticos, no lidar com políticos, empresários, figuras da cultura, jornalistas, enfim, todo o manancial de personalidades com quem lidei ao longo de... umas 300 entrevistas e um sem-fim de matérias. Tudo isto condensado, como é evidente.
Posto isto, e já que o livro borbulhava na minha cabeça, faltava ainda dar um sentido, ou melhor, uma sequência ao que adviria nele.
Encontrei o começo na viagem da emigração que fiz para o Brasil. Eu, que nasci em Braga (lugar que de certo modo nunca saí, ou melhor, Braga é que nunca saiu dentro de mim), fiz uma viagem marítima tipicamente neorrealista, e que nada se compara aos percursos aéreos de hoje, vencidos em poucas horas para lugares longínquos. No porto de Leixões, para chegar até ao paquete inglês, tive que ir numa pequena embarcação, e aí já me situava numa história, que era a minha sim, mas também de tantos outros emigrantes que comigo viajaram. Fui de terceira classe, num “camarote” para doze pessoas e banho coletivo de mangueira, "refrescado" com água do mar.
Só então é que o livro "viaja" para Braga e retrata os meus primeiros anos de vida. Eu, que não fui criado pelos meus pais e que tive de decidir aos cinco se devia morar com os pais ou três senhoras (fiquei com elas) e, mais tarde, apontar para o Brasil aos quinze anos, sem que ninguém me orientasse. Acertei nas duas primeiras grandes decisões da minha vida e, quem tiver alguma dúvida a respeito, é só ler o livro...
Trabalhei numa farmácia de meus tios (de domingo a domingo), servi café num banco que me promoveu a bancário, e depois fui trabalhar no Gabinete Português de Leitura, onde registava os livros oriundos de Lisboa, depois de lê-los de fio a pavio, claro está. Isso ajudou nas provas que prestei para a Universidade. Sem quaisquer estudos sequenciais — e naquela época o Ministério da Educação brasileiro permitia isso — num só ano comprovei os meus conhecimentos para me tornar um estudante universitário de jornalismo. A partir daí, o comboio entrou nos trilhos...
A minha vida tem sido um andar constante entre Portugal e o Brasil. Quiseram os fados da História que o Jornal do Commercio do Rio de Janeiro me convidasse para ser o seu correspondente em Lisboa. Isto em 1982. Fui para ficar dois anos, fiquei 22 em Lisboa! E foram os anos mais produtivos da minha vida, já que tinha uma coluna diária no jornal brasileiro e, a par disso, colaborava intensamente com o Diário de Notícias e Jornal de Letras, entre outras publicações, além da TV.
Na qualidade de jornalista "estrangeiro" entrevistei boa parte das principais figuras políticas da época: Mário Soares, com quem viajei por duas vezes ao Brasil, Ramalho Eanes (tive a sorte de ser o primeiro jornalista a entrevistá-lo logo após ele ter sido eleito), Sá Carneiro, Jorge Sampaio, Cavaco Silva, Álvaro Cunhal, Otelo, Saramago, Agustina de Bessa-Luís e Marcelo Caetano (fui o último jornalista a quem ele concordou em falar). A lista é extensa e está no livro, o que não justifica a repetição.
A publicação destaca casos pitorescos, curiosos ou engraçados acontecidos e registados pessoalmente pelo autor. Lembro-me de ter entrevistado Mota Amaral nos Açores, uma figura delicada e simpática mas que, infelizmente, nada de especial ficou para registar. Dentro desta perspectiva, dei sempre mais ênfase à faceta curiosa, do que sublinhar o adjetivo a propósito da pessoa ouvida. É natural que um livro destes, editado em Portugal, tenha se debruçado mais sobre as figuras portuguesas, ficando poucas páginas para mencionar os brasileiros. Diria que tinha de fazer um segundo livro para colocar as ideias e palavras em ordem para falar do outro lado do Atlântico.
Dou exemplo de um caso vivido: na qualidade de presidente da Associação de Imprensa Estrangeira em Portugal participei num dos jantares habituais com jornalistas dessa instituição, estando presente Mário Soares. A certa altura falou-se da crise económica portuguesa (mas já, naquele tempo?), e veio à baila uma frase do presidente que criou impacto: … enquanto estivermos em crise o socialismo será posto na gaveta.
A crise continuava e, na verdade, acabou por ser debelada por Ernâni Lopes, ministro da Economia, o que aconteceu bem mais adiante. Mas naquele momento a crise estava no auge e... o socialismo continuava "na gaveta...".
Foi então que eu disse a Mário Soares:
— Presidente, o problema não está em ter colocado o socialismo na gaveta. O pior é que o Senhor não sabe onde pôs a chave.
Mário Soares olhou muito sério para mim e logo caiu em sonora gargalhada. Eis um exemplo típico de como a democracia pode e deve conviver com o humor de apontamento crítico. Aliás, o livro contém uma série de situações como esta.
Deixei-me, sempre, navegar ao sabor da corrente informativa, já que eram e são muitos os temas que me interessam. No Jornal do Brasil escrevia sobre literatura portuguesa. No Jornal do Commercio, durante 15 anos, de Lisboa, enviava para o Rio de Janeiro uma crónica diária sobre economia. No Diário de Notícias escrevia semanalmente sobre o meio artístico, brasileiro e internacional. E no Jornal de Letras sublinhava, numa página, a atualidade literária brasileira. Entretanto escrevia livros de humor e publicava crónicas sobre a "arte risonha e franca" em diversas publicações. Não preciso dizer que o humor era e é o meu assunto preferido.
Ainda no livro, destaquei duas incontornáveis personalidades do Brasil: Millôr Fernandes e José Aparecido de Oliveira. Graças ao primeiro tornei-me humorista (a seu convite fui trabalhar no semanário O Pasquim, verdadeiro bastião contra a ditadura militar brasileira e, com o segundo, trabalhei intensamente na criação da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa).  Com Aparecido a identidade foi tal que ele incumbiu-me de escrever a sua biografia, dando-me apenas sessenta dias para o efeito, já que ele completou setenta anos naquela época. Para total surpresa, inclusivamente a minha, na data aprazada a biografia estava pronta, lançada no Padrão dos Descobrimentos, com apresentação do meu amigo e colega José Carlos de Vasconcelos.
Há ainda algumas entrevistas, naturalmente condensadas, crónicas, apontamentos críticos sobre autores e o que mais se verá. Ou lerá, é mais adequado.
O livro não acaba sem a inserção de textos de humor que publiquei ao longo do tempo, bem como um índice onomástico, para aqueles que desejem saber um pouco mais das figuras citadas.
Bem, termino esta escrita de forma redundante, já que praticamente vou repetir o que disse no começo. Este é um livro que fala das minhas memórias, porém, mais importante do que as mesmas, é falar sobre as pessoas com quem convivi. Ou como diz o título, Memórias Dessa Gente.




O livro de José Alberto Braga, editado pela Soregra, estará proximamente nas livrarias. O prefácio é de Fernando Pinto Monteiro, e o jornalista e escritor Fernando Dacosta assina na contracapa uma apresentação.



José António Santos

Jornalista



























































































































































































































































OSCAR MASCARENHAS

A MORTE DE UM JORNALISTA MAIOR

A notícia chegou, inesperada, pelo telefone. Do outro lado da linha, disse a voz: «Fala da Agência Lusa, morreu Oscar Mascarenhas, queríamos pedir-lhe um comentário.» Atónito, declinei o convite funesto com a justificação do estado de choque que a notícia em mim provocara. E, naquela manhã de 6 de Maio de 2015, dei comigo a olhar mais de três décadas da minha vida, tantos foram os anos de caminho vivido e construído com o Oscar.
Já ouvira falar dele mas só o conheci pessoalmente quando, em 1982, se transferiu da redação de A Capital para a do Diário de Notícias onde eu já estava há alguns anos.
Nessa altura, sob a direção de Mário Mesquita e da sua síntese luminosa — o Diário de Notícias é do Estado, não é dos governos —, o jornal praticava um jornalismo explicativo e até personalizado, com uma redação comprometida com as regras do jogo e códigos de comportamento assumidos. Viviam-se no jornal tempos novos e exaltantes por padrões de qualidade e de referência internacional, nunca antes alcançados. As épocas do jornalismo de combate de 1975, ou a fase da informação de agência, sem cor, entre 1976 e 1980, pertenciam ao passado.
Oscar Mascarenhas chega, pois, ao Diário de Notícias a meio de um percurso de profundas alterações do jornal, com o desenvolvimento de secções inovadoras, criação de suplementos, novos espaços e entradas com abordagens mais dinâmicas, a abolição do formato broadsheet para passagem ao formato tabloide, em 21 de Maio de 1984, e sente-se como peixe na água. Integra-se facilmente na equipa, questiona tudo, participa proativamente nos desígnios do jornal e chega mesmo a ter a veleidade de influenciar a introdução de procedimentos inovadores no quotidiano do jornal centenário.
Ele trazia a cultura de A Capital e a prática em jornalismo desportivo. Quando se deu conta de que, na casa, os jornalistas saíam em reportagem para o estrangeiro e na redação não ficava nenhum camarada previamente escalado para lhe receber o serviço, editá-lo, e prestar o apoio necessário, Oscar Mascarenhas não descansou enquanto não viu instituído o preceito do «ficado especial», isto é, o jornalista que na redação fazia equipa com o «enviado especial».
O repórter de grande talento, senhor de prosa espessa a espelhar o elevado nível cultural do autor, ficava irreconhecível nos momentos que antecediam os trabalhos de agenda no estrangeiro. Nessas ocasiões, apoderava-se dele tamanho nervosismo que o deixava sob enorme pressão. Então, só aos mais próximos consentia espaço para pequenas falas, invariavelmente sobre a circunstância do serviço para que fora escalado. Dir-se-ia ser esta reação mais condizente com a natureza própria de um estagiário, e, portanto, incompreensível no jornalista experimentado. Mas, não. A fraqueza era, afinal, sintoma da dimensão de jornalista maior que ele era. Oscar Mascarenhas sabia bem que o êxito da missão dependia da preparação e do estudo prévio. Analisava ao pormenor as situações que pudessem deparar-se-lhe, imprevistos com que eventualmente viesse a confrontar-se, os detalhes do programa, o terreno onde iria trabalhar, os perfis das personalidades a contatar. Quando saía em serviço levava tudo estudado. Assim sendo, as suas reportagens só podiam correr bem.
Sem esforço, naturalmente, com o seu modo de ser e estar muito interventivo, rapidamente marcou espaço e se afirmou como jornalista influente e respeitado. Na redação e fora dela, ao serviço do DN, fez tudo o que um jornalista pode fazer: notícias, crónicas, entrevistas, reportagens, opinião. Editou e foi editado. Cobriu acontecimentos de Política Nacional e Internacional, nomeadamente visitas de Estado, as primeiras eleições livres na RDA, em 1990, após a queda do Muro de Berlim, e a Guerra no Golfo em 1991; fez Cultura, Sociedade, Desporto (Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 1984) e emitiu opinião («Manifestos e Exageros»). Os jornalistas estagiários que acompanhou perceberam nele o mestre tão exigente como estimulante para a compreensão de valores essenciais ao exercício da profissão.
A autoridade de Oscar Mascarenhas no exercício do jornalismo extravasou, em muito, a redação do DN. No Sindicato dos Jornalistas, no Conselho Técnico e Deontológico, na Comissão da Carteira Profissional de Jornalista, no espaço público, Oscar Mascarenhas foi incansável arauto dos princípios éticos e da deontologia profissionais.
Determinado, controverso, lutador, coerente, generoso, defendia até à exaustão os valores em que acreditava, por um jornalismo livre e independente. Por vezes, chegava a ser impiedoso com os interlocutores encurralados pela sua retórica. Quando se tratava de pugnar pela ética e pela liberdade cortava a direito, para ele não havia meio-termo. Dele alguém disse que tinha «a volúpia da polémica». Perante ele ninguém ficava indiferente: uns gostavam, outros menos.
A contestação e a verve eram nele ditados por um ímpeto interior que só os mais próximos lhe conheciam: o rigor e a exigência que a si próprio impusera.
Em escrutínios no DN e no Sindicato estivemos algumas vezes em lados opostos. Em todas as pelejas nunca quebrámos a ponte da amizade. No conhecimento que tínhamos um do outro fundava-se o respeito mútuo suficiente para entre nós valorizarmos o lado bom da coisa sem ligar aos pecadilhos de ambos. E esse lado bom talvez fosse o caso de ambos desejarmos alcançar os mesmos objetivos, mas por trilhos diferentes. Assim fizemos caminho no DN, durante mais de duas décadas.
Encontrámo-nos, a seguir, na Agência Lusa e aí, em dez anos, sonhámos por uma agência de informação mais dinâmica e mais capaz de dar cumprimento ao desígnio do serviço público que lhe é pedido.
Oscar José Mascarenhas nasceu a 9 de Dezembro de 1949, em Ribandar (Goa). A família veio para Portugal em 1957 e fixou-se em Almada, onde o pai, que era médico, exerceu a profissão. Oscar estudou no Externato Frei Luís de Sousa (Almada) e no Liceu Gil Vicente (Lisboa), aí concluiu o ensino secundário e conheceu Carlos Cáceres Monteiro, Luís Almeida Martins e João Vaz que se tornariam jornalistas com quem, anos depois, viria a trabalhar em A Capital. Antes, porém, frequentou a Faculdade de Direito de Lisboa tendo feito parte de um curso que, entre outros, reuniu Leonor Beleza, Marcelo Rebelo de Sousa, Jorge Braga de Macedo, Alexandre do Nascimento, Vítor Milícias, Carlos Veiga, João Soares, Carlos Cáceres Monteiro, Luís Pinheiro de Almeida, Carlos Fino, António Mega Ferreira e Vítor Dias. Na faculdade fez parte da lista candidata à Associação Académica, sob o lema «Ousar lutar, ousar vencer», liderada por Arnaldo Matos. Não chegou a concluir o curso de Direito porque, entretanto, alistara-se como voluntário na Força Aérea Portuguesa, que serviu nos Açores. Cumprido o serviço militar, Oscar Mascarenhas iniciou a carreira de jornalista no vespertino A Capital, a 2 de Janeiro de 1975, onde se manteve até 1982, transferindo-se então para o Diário de Notícias. Aqui trabalhou durante mais de vinte anos e construiu a carreira profissional com o reconhecimento em 1992 de ter sido nomeado redator-principal. Passou ainda pelo Jornal do Fundão, correspondendo a um desafio que a administração do DN lhe fizera para dinamizar aquele prestigiado semanário regional. Desgostoso por considerar não ter sido bem tratado por quem o convidara a exercer aquelas funções, abandona o grupo editorial e muda-se para a Agência Lusa (2003-2009). Antes, porém, a convite da União Europeia, esteve na Eslováquia como consultor para a reformulação das leis de imprensa, no quadro da pré-adesão daquele país. Regressaria ao DN para ser Provedor dos Leitores (2012-2014). Considerava o jornalismo como «a profissão mais bela e apaixonante do mundo» e na última crónica de Provedor dos Leitores do DN deixou escrito o seu entendimento sobre o jornalismo, não um poder mas um serviço.
Oscar Mascarenhas era um cidadão empenhado. Por uma vez na vida militou num partido político, o Movimento de Esquerda Socialista (MES), colaborou no jornal Poder Popular e pertenceu à redação do Página Um, apoiante da candidatura presidencial de Otelo Saraiva de Carvalho. Depois, o empenhamento cívico exercê-lo-ia, sempre, na órbita da atividade jornalística militando ativamente nas tarefas do Sindicato dos Jornalistas de que foi dirigente durante várias décadas, além de, em oito anos, ter assumido a presidência do Conselho Deontológico e de integrar a Comissão da Carteira Profissional.
Enfileirou o grupo de jornalistas que frequentaram o curso de pós-graduação Extensão Universitária em Jornalismo, no ISCTE -  Instituto Universitário de Lisboa (1999-2000), proposto por Diana Andriga, então presidente do Sindicato dos Jornalistas, para possibilitar aos profissionais de comunicação social, com mais de dez anos de exercício e tendo frequentado a Universidade, que tivessem acesso a mestrado académico. Em Julho de 2000, Oscar Mascarenhas apresentou o trabalho final «O Poder Corporativo contra a Informação», que mereceu uma das melhores notas do curso. Nove anos depois (Julho de 2009) concluiu o mestrado com a tese «O Detetive Historiador, o Jornalismo de Investigação e a sua Ética», avaliada pela Universidade com distinção e louvor.
De caminho foi formador no Centro Protocolar de Formação Profissional de Jornalistas (CENJOR); docente da Escola Superior de Comunicação Social, em Lisboa, onde lecionou as cadeiras de Ética e de Metodologias de Investigação Aplicadas à Comunicação; tradutor de vasta bibliografia editada, publicou dois livros: O Poder Corporativo Contra a Informação (2001, Minerva Coimbra) e Nuvem de Chumbo – O Processo Casa Pia na Imprensa (com Nuno Ivo, 2003, Dom Quixote). Deixou finalizados para serem publicados a dissertação de mestrado O Detetive Historiador, O Jornalismo de Investigação e a sua Ética (Editora Âncora) e Como diz Fulano, um livro de citações (Editora Marcador).
O Clube Português de Imprensa distinguiu-o com o Prémio Reportagem (1985) e o Prémio Viagem (1986).
O manto da altivez que fazia gala em exibir e revelava um ego sem limites, escondia uma enorme generosidade conjugada no culto da amizade. Arrisco mesmo a dizer que os mais próximos, aqueles a quem abriu a sua intimidade, só esses e apenas esses puderem conhecer realmente Oscar Mascarenhas.
Tive o privilégio de o descobrir levado por sua mão a frequentar uma tertúlia que ele prezava como família. Tratava-se de um grupo de operários de Almada, trabalhadores da Lisnave e do Porto de Lisboa que conhecera nos tempos da adolescência e juventude em ações do reviralho. Calejados pela luta da clandestinidade, alguns deles, já então com longos anos de militância no Partido Comunista Português, achavam graça ao miúdo pequeno-burguês que não se importava de enturmar com o operariado e via nessa relação boas razões de «afirmação contra o fascismo». Desse tempo, independentemente das posições político-ideológicas de cada um, ficou uma amizade para a vida. Com regularidade reuniam-se numa casa pegada com o Monumento de Cristo Rei e ali confraternizavam em refeições confecionadas por mãos calejadas pela indústria naval e pela estiva. Entre outros, pontificavam o José Gonçalves (o patriarca) e seus irmãos Viriato e Agostinho; o Orlando, o Laranjeira, o José Júlio e o João Paiva. Mesmo em ocasiões excecionais quando às respetivas mulheres era concedido o privilégio de admissão ao convívio, apenas os homens cozinhavam e faziam tudo, como se tratasse de uma liturgia de louvor a velhas cumplicidades e a uma solidariedade indizível que, periodicamente, se renovavam e atualizavam na conjugação da fraternidade. Eram esses momentos aproveitados para discussão política, jogo de cartas, e pelas picardias de Oscar que não se coibia de mandar vir contra o «revisionismo» dos amigos que tudo aceitavam e perdoavam ao «seu menino» pequeno-burguês. Oscar Mascarenhas retribuiu sempre, até ao fim da vida, com a amizade genuína por amigos tão queridos a quem tudo oferecia e chamava «Fidalgos de Almada». O culto da amizade era para Oscar Mascarenhas um gesto permanente de grande despojamento e fidalguia.
Pensava reformar-se quando completasse 66 anos, e nessa altura cessar a situação de pré-reforma da Agência Lusa.
Casado com a jornalista Natal Vaz com quem teve uma filha, Carolina, foi com estas duas mulheres da sua vida que Oscar Mascarenhas viveu os instantes derradeiros.
Levantara-se cedo, porque ficara de enviar uma proposta de nomes para figurarem na galeria de jornalistas imortais a criar no futuro Museu das Notícias, em Sintra, por iniciativa de Luís Paixão Martins e que iria discutir, no almoço desse dia, com o promotor e Adelino Gomes e Alexandre Manuel. O almoço ficaria adiado eternamente. Mas o e-mail seguiu, às 07H44, com os nomes: Adolfo Simões Müller – jornalismo didático; António Paulouro – jornalismo regional; Artur Agostinho; Augusto de Castro – direção e editorialismo; Camilo Castelo Branco – folhetinismo; Cândido de Oliveira – jornalismo desportivo; Carlos Pinhão; Carlos Pinto Coelho – jornalismo cultural televisivo; Eça de Queiroz – crónica de viagem; Eduardo Coelho – pioneiro do noticiarismo e novas tecnologias; Fernando Assis Pacheco; Fernando Pessa – jornalismo radiofónico e televisivo; Fialho de Almeida – jornalismo de crítica de costumes; Joshua Benoliel – fotografia; Leitão de Barros – jornalismo da nota do dia, Os Corvos; Manuel António Pina; Maria Lamas – jornalismo no feminino; Mário Castrim – jornalismo para jovens e pioneiro da crítica de televisão; Norberto de Araújo – olisipógrafo; Norberto Lopes – repórter de guerra e entrevistador; Rafael Bordalo Pinheiro – caricaturista; Ramalho Ortigão – polemista; Raul Proença – fundador da Seara Nova e criador do Guia de Portugal; Raul Rego – jornalismo oposicionista; Reinaldo Ferreira – “Repórter X”; Roby Amorim – jornalismo enciclopédico; Rodrigues Sampaio – jornalismo político; Sousa Veloso – jornalismo televisivo de divulgação da agricultura; Stuart Carvalhais – cartoon; Vera Lagoa, Vítor Direito – jornalismo popular.
Cumprido o expediente matinal, Oscar Mascarenhas sentiu-se indisposto, foi chamado o INEM e assistido em casa. Como persistissem os sintomas decidiram conduzi-lo ao hospital para exames complementares. Pelo seu pé desceu até à ambulância. Já no interior da viatura sofreu um ataque cardíaco fulminante que lhe provocou uma paragem cardiorrespiratória e morreu.
A Assembleia da República aprovou por unanimidade um voto de pesar pela morte de Oscar Mascarenhas, apresentado pelas bancadas parlamentares do PS, PCP e PEV.
Oscar José Mascarenhas era associado da A25A desde 2001, com o número 3120.
Agnóstico confesso tinha-se como respeitador da crença alheia (que recusava discutir). Considerava a amizade como «coisa que é santa», e a liberdade «por essoutra que é divina». Termino, pois, com a afirmação que o Oscar gostava muito e não se cansava de proclamar: Viva a liberdade!


(in “O Referencial” n.º 117 Abr/Jun 2015)


Joaquim Vieira

Jornalista, escritor
e documentarista.
Presidente
do Observatório de Imprensa









































































A ILHA DA AREIA


É natural, estimado leitor, que nunca tenhas ouvido falar da Ilha da Areia, perdida no Índico, meio milhar de quilómetros a leste de Madagáscar, tão minúscula que um ser humano não precisa de mais de uma hora para a contornar a pé. Eu próprio só soube da sua existência quando, há dias, deparei com esta história. Sim, a Ilha da Areia, apesar de igual a milhares de outras ilhas minúsculas e desertas por esses oceanos fora, guarda uma história.
Ponta de um vulcão adormecido e submerso, hospedeira de uma rala vegetação rasteira e fustigada todo o ano por ondas e ventos vindos da Antártida, a Ilha da Areia, fazendo jus ao nome, consistia apenas de um afloramento arenoso longe de tudo. Tão fugaz era a sua existência que, na noite de 31 de julho de 1761, o navio francês L’Utile, oriundo de Madagáscar e carregado de mercadorias, não a tendo assinalada nas cartas de navegação levadas a bordo, embateu na sua barreira de coral e desfez-se.
Salvaram-se 123 tripulantes, mas também lograram atingir a praia 88 escravos, de um lote de 160 embarcado em Madagáscar e composto por homens, mulheres e crianças que se acumulavam no porão, apesar de o tráfico de cativos estar proibido pelas autoridades francesas nas suas possessões do Índico.
Naquele momento, perante a adversidade que todos enfrentavam, os escravos sobreviventes passaram a homens e mulheres livres. Contudo, a ordem social antes existente a bordo não sofreu modificações de monta: os brancos estabeleceram-se a oeste da ilha, junto aos escolhos da embarcação, enquanto os negros acamparam na ponta norte.
Foram retirados dos destroços mantimentos suficientes para sustentar durante algum tempo as duas centenas de habitantes temporários da Ilha da Areia, mas, até se conseguir descobrir água doce numa escavação efetuada no subsolo vulcânico, morreram, em pleno racionamento do líquido vital, 28 pessoas à sede: todas eram escravos.
O objetivo passou a ser a construção de uma jangada, ou pouco mais do que isso, a partir dos restos de L’Utile, capaz de levar o máximo de gente até Madagáscar, de onde seria enviada uma expedição para recolher os náufragos remanescentes.
Quando, ao fim de dois meses, a embarcação ficou pronta, devido ao esforço conjunto de brancos e negros, nela só embarcaram os tripulantes de L’Utile (incluindo uma centena que não tinham participado nos trabalhos). No entanto, o homem que havia assumido o comando das operações, o imediato do navio naufragado, Barthelemy Castellan du Vernet, prometeu aos ex-escravos que, no máximo de quatro a seis semanas, dependendo do tempo e das correntes marítimas, ele regressaria com uma embarcação de resgate. Os víveres que lhes deixou seriam mais do que suficientes – calculou – para aguentarem até essa ocasião.
Não foi um mês e meio, foi uma década e meia. Uma vez em Madagáscar, e depois em Paris e noutros pontos da Europa, du Vernet viu-se impotente, ao longo desse tempo, para convencer a sua companhia de navegação, as autoridades francesas ou quem quer que fosse para a necessidade de salvar os africanos que tinham ficado na Ilha da Areia. Não que não se pensasse no assunto – por insistência, honra lhe seja feita, do imediato –, mas havia sempre outras prioridades, adiamentos, falta de oportunidades. Em suma, os que estavam na ilha, vivendo à base de uma dieta de peixe, tartarugas, pássaros e ovos, não sendo brancos, dispensavam preocupações de maior. Sem o saberem, tinham regressado à condição de escravos a partir do momento em que os seus ex-companheiros de infortúnio haviam posto os pés em terra civilizada.
Em novembro de 1776, uma corveta francesa, beneficiando de ventos favoráveis, rumou por fim à Ilha da Areia, onde ainda encontrou sete sobreviventes, apenas mulheres, uma delas com um bebé de oito meses – quadro insólito num cenário de onde os homens tinham já desaparecido.
História do passado, dirás tu, leitor. A humanidade evoluiu muito nestes dois séculos e meio, e hoje seria impossível abandonar assim à deriva, sem nunca saírem do mesmo sítio, um grupo de homens e mulheres só porque são diferentes, de outra etnia, de outra cor de pele, de outra cultura, de outra religião.
Mas há quanto tempo anda a Europa a discutir o drama dos refugiados sem chegar a uma solução, ou, escrevendo-a no papel, sem a aplicar? Não estarão também todos esses infelizes, por não serem considerados gente nossa, deixados à sorte nas suas Ilhas da Areia?
É a realidade que muitos se recusam ainda a admitir: que estamos todos no mesmo barco.



Yvette Centeno

Escritora





































































































































































































































































NOS 80 ANOS DA MORTE DO POETA

PESSOA E MAIS PESSOA…

A pergunta mais difícil é essa de quem foi, é, (visto que a sua actualidade não parece perder-se), Fernando Pessoa.
Os estudiosos que querem investigar a sua personalidade, carácter, comportamento face à realidade da vida e do seu quotidiano banal, tentando distinguir a vida da obra, têm dificuldades várias a ultrapassar. A mais importante é a de que Pessoa não queria separar vida e obra, fazendo da obra a sua verdadeira vida.
Foi biografado por João Gaspar Simões : Vida e Obra de Fernando Pessoa, História de uma Geração.
Trata-se de uma obra indispensável para qualquer estudioso, pois nela se retrata uma infância (mais tarde sonhada e perdida, que podemos ir acompanhando pelos diversos poemas dos diversos heterónimos), uma adolescência e uma vida madura, esta já plenamente integrada nas correntes (nos ismos) da época com os projectos que despontavam e regularmente se iam abandonando porque  tudo era difícil num país que vivia ainda de um Messianismo mais do que ultrapassado, mas em que Pessoa, com alguns outros, teimava em acreditar.
Portugal não chegou a ter esse destino de eleição, mas Pessoa acabou por tê-lo, ainda que tardiamente, com a riqueza e complexidade da sua obra.

Omitindo agora a produção poética, é sobretudo nas suas leituras que descobrimos um espírito ávido de saber: dos clássicos aos modernos, há de tudo na sua biblioteca pessoal. E quando digo modernos digo Joyce, na literatura, Freud, na psicanálise ou Einstein na teoria da relatividade.

Não se pode esquecer a paixão pelo esoterismo que até na poesia veio a ter marca especial.
Começou pelas Histórias da Religião, depois passou aos Gnósticos, à Mística judaica, com a Kabala em pano de fundo, seguiu pelos caminhos que Goethe já seguira (e Pessoa tinha o Fausto na sua biblioteca) dos Rosa-Cruz e da Maçonaria.
Fosse ou não iniciado, —­ ora dizia que não, ora deixava entender que sim, mas em quê? Na dormente Ordem do Templo, sobre a qual escreveu? Na Sociedade de Teosofia, que nega haver nos arquivos algum documento que se lhe refira? Certo é que conhecia a doutrina, pois traduziu Helena Blavatsky, A Voz do Silêncio.
Pouco importa.
Se querer conhecer é já ser iniciado, Pessoa foi, por tal desejo, que o acompanhou toda a vida, um iniciado na Espiritualidade.

É extensa a bibliografia disponibilizada ao longo dos anos pelos estudiosos da obra pessoana, e encontra-se publicada por José Blanco: Fernando Pessoa, Esboço de Uma Bibliografia.
Junto com esta, mas sem a substituir, a edição de João Rui de Sousa, Fernando Pessoa, FOTOBIBLIOGRAFIA, 1902-1935.
Para além destas obras, de vasta informação, haverá outra obra indispensável, de Maria José de Lancastre:Fernando Pessoa, Uma Fotobiografia. Foi pioneira, com muito material inédito e pleno de informação sobre um quotidiano inscrito em cartas e fotografias e outros documentos que ajudam a ver o Pessoa-pessoa por trás do grande poeta.

Numa fotografia de 1907 vemos o Jovem Fernando ao lado da tia Anica, que será, até certo ponto sua confidente no tocante às materias mais herméticas, como as do espiritismo.
Mas o que escreve o jovem, nos seus apontamentos, só depois da sua morte conhecidos, mais concretamente quase cinquenta anos mais tarde, quando o espólio começou a ser estudado, acerca de si mesmo?

"Não tenho ninguém em quem confiar. A minha família não entende nada.Não posso incomodar os meus amigos com estas cousas. Não tenho realmente verdadeiros amigos íntimos, e mesmo aqueles a quem posso dar esse nome, no sentido em que geralmente se emprega essa palavra, não são íntimos no sentido em que eu entendo a intimidade. Sou tímido, e tenho repugnância em dar a conhecer as minhas angústias. Um amigo íntimo é um dos meus ideais, um dos meus sonhos quotidianos, embora esteja certo de que nunca chegarei a ter um verdadeiro amigo íntimo. Nenhum temperamento se adapta ao meu.(…)Acabemos com isto. Amantes ou namoradas é coisa que não tenho; e é outro dos meus ideais, embora só encontre, por mais que procure no íntimo desse ideal, vacuidade e nada mais. Impossível, como eu o sonho! Ai de mim! Pobre Alastor! Oh Shelley, como eu te compreendo!"

É bom saber que Alastor é o título de um poema épico de Shelley, e que representa o espírito da solidão: Alastor or the Spirit of Solitude, publicado em 1917, ajuda a datar a partir desse ano o pequeno fragmento de Pessoa,no seu desabafo.
Mas há mais.
O nome Alastor deriva da mitologia romana, significando "espírito do mal", que podemos modernamente entender como um daimon, uma energia negativa da alma mas que, como em Platão, conduz o imaginário do poeta, é como que a fonte da sua inspiração.
O que nos conta o poema? A vida de um poeta que busca intensamente a esfera mais oculta da natureza, a mais obscura, as "estranhas verdades das terras desconhecidas", situadas no oriente.Vê em sonhos uma jovem coberta por um véu e isso representará para ele a visão da transcendência para além do mundo natural. Algo como que o espírito e a matéria tal como deviam existir em união no amor humano.
Mas a visão perde-se, esfumada no sonho, e a busca do poeta, interminável, irá levá-lo por muitas aventuras, das quais a mais interessante é, ao quase morrer afogado, descobrir a mutável natureza do homem, na sua humanidade, que a transcendencia envolve, como que no berço da sua infância.
É então que o poeta aceita que só a morte o pode libertar das contigências do mundo natural.

Pessoa, na sua solidão, que vive e que descreve como o poeta de Alastor, é já por estes anos uma figura pública das letras da época, com os amigos de Orpheu.
Sendo um poeta que se diz sensacionista não deixa de cultivar os mais extremos autores do romantismo inglês, como neste caso, identificando-se com os seus heróis, com as suas ânsias de espiritualidade mais secretas.
É visível em muitos outros casos como este, a complexidade da natureza psíquica e artística de Pessoa. Tudo viver, para tudo dizer, com a  consciência de que tudo viver é impossível.

Ficam então, para o mundo, as experiências e publicações dos heterónimos. E um namoro meio-sério, meio-brincalhão, meio- sofrido, com uma Ophélia  "pequenina".
Ocultas ficarão outras preocupações, as insólitas buscas de outra coisa, noutras esferas que se sabe de antemão serem inacessíveis.
Fernando Pessoa situa o início da sua produção juvenil "por volta de 1904". De facto são dessa data os primeiros poemas ingleses de Alexander Search e já neles se definem, até 1910, os grandes temas em que parte das suas características se manifestam: reserva e mesmo repugnância física em relação ao corpo, à aproximação de outrém que pudesse existir; o gosto decadentista do macabro, como na novela A Very Original Dinner (1907) ou o gosto pela obra de Poe, de quem traduziu O Corvo e à sua maneira imitou o conto policial, e uma permanente e quase dolorosa interrogação sobre o sentido da vida, o mistério do universo – mistério àcerca do qual o heterónimo mais tarde assinando pelo nome de Alberto Caeiro dirá que pouco ou nada lhe interessa, fingindo, em fingimento puramente poético, que só interessa o que o olhar abarca, o que os sentidos sentem ou pressentem.
Este Alberto Caeiro, apontado por vezes como Mestre, é um mistificador do verdadeiro Pessoa: o poeta esconde-se por trás dessa máscara, cuja beleza e inspiração panteísta (algumas  vezes descrita como de inspiração Zen) é impossível de negar, mas que não deixa por isso de ser máscara.
O que esconde? Esconde o que revela: uma constante preocupação com o sentido da vida, do espaço que na vida é concedido ao homem (ao homem, não ao poeta, esse inventa  através dos heterónimos todos os espaços de que precisa), ao homem centro do mundo e do universo, tal como o entendem os filósofos herméticos.
O homem-Pessoa é, desde que começa a pensar e a escrever, meditando na sua solidão, um paradigma do filósofo hermético.

Na sua biblioteca encontraremos as leituras marcantes, dos clássicos gregos a Shakespeare e Milton, continuando pelos românticos, pelos simbolistas franceses, sobretudo Baudelaire, não esquecendo Mallarmé, a sua musicalidade, Maeterlinck e o exercício  do silêncio, continuando com os Futuristas (que lhe inspiraram a ele e a Almada Negreiros e Mário de Sá-Carneiro os vários "ismos" com que entre nós se apresentaram).
Mas recordo que Pessoa  citará em especial Cesário Verde (esse de verdade o Mestre, diz Pessoa, sem que ele próprio o soubesse). E Antero de Quental, cuja obra teria agora de ser novamente lida, com outros olhos, os do nosso poeta, que o admirava tanto.

A curiosidade pelo Oculto e as práticas do Ocultismo, datam de longe.
Numa carta à sua tia Anica, de 1916, escreve como sente que está a desenvolver qualidades "não só de medium escrevente mas também de medium vidente. Começo a ter aquilo a que os ocultistas chamam ‘a visão astral’ e também a chamada ‘visão etérica’.Tudo isto está muito em princípio, mas não admite dúvidas".
Podemos afirmar, pela quantidade de livros relativos ao Ocultismo em geral, guardados na sua biblioteca, que o interesse nunca se perdeu, fosse qual fosse o bom ou mau ou nulo resultado de tais investigaçõess ou práticas.
Há um pequeno documento encontrado no espólio em que afirma que a mediumnidade diminui as capacidades intelectuais e por essa razão não deve ser praticada.
Mas noutros textos explicará como a bebida funciona como dispositivo de “abertura”, mágico ou mesmo místico, pelo menos surreal, para a criação literária, no seu caso.
Não desconhecia a chamada escrita automática, que também praticou, e é talvez mais explícita nos arroubos de Álvaro de Campos. Como não desconhecia a meditação dos exercícios de Yoga – há os livros que comprovam ao menos a leitura, já que da prática não nos chega a falar.
Ao seu espírito de curiosidade insaciável tudo interessava, da cultura oriental como da ocidental.

Tentando compreender o homem, pela evolução do poeta e da sua poesia, a imagem que fica é a de um adolescente tímido, mas curioso, impetuoso na sua ânsia de criar em liberdade – sair era o seu desejo máximo - sair do seio de uma família burguesa que não o compreendia, sair do seio de um meio cultural, politico, artístico, igualmente limitado, sair para marcar a sua diferença nunca aceite.
Que eu tenha usado aqui, sem pensar nisso, a palavra seio – não será um acaso, mas quem sabe uma indicação já do poeta: renascer era o que ele profundamente desejava; ser outro, um outro reconhecido e aceite como se reconhece e aceita o filho que se tem.
Não foi o caso, pois as incógnitas permanecem, e os poemas da maturidade o proclamam: o Pai Rosa-Cruz conhece e cala…

Ficamos então com um adulto prematuramente envelhecido – mas ele já era velho em criança, quando jovem e torturado adolescente… (de Jean Seul a Alexander Search a escolha  dos nomes são forte indicação) - poeta para quem as imagens da infância se vão tornando recorrentes, repetidas em todos os heterónimos.
Podemos acrescentar, pelas cartas a Armando Côrtes-Rodrigues, que sempre foi, tal como o amigo, um espírito fundamentalmente religioso, consciente "da terrível importância da Vida" o que o impossibilitava de “fazer arte meramente pela arte, e sem a consciência de um dever a cumprir para com nós próprios e para com a humanidade" (carta a A.C.R., de 19 de Janeiro, 1915).

Essa consciência de um dever outro, para além da arte, embora a arte fosse a aventura que lhe consumiu a vida, é o que o torna mais uma vez diferente e o afasta dos seus contemporâneos.
Os excessos dos futuristas tiveram o seu tempo, e esgotaram-se nele. As fantasias de um novo movimento, o Sensacionismo, de que Sá-Carneiro seria expoente máximo, — esgotaram-se também, com o seu suicídio em Paris.
O que fica de Pessoa? A própria obra, a própria interrogação, a ânsia das respostas que não chegam.

Em Acrónios, livro de poemas do seu amigo Luís Pedro Moitinho, em cujo escritório Pessoa trabalhou, e para o qual escreveu um prefácio discreto, de parcos ou nenhuns elogios (pois lhe faltava a modernidade de linguagem desejada pelos de Orpheu), podemos ler um poema dedicado a Mário de Sá Carneiro (já falecido a esta data de publicação do livro, 1932) e a Fernando Pessoa:

A Tristeza de Nunca Sermos Dois

Eu sou o reflexo do alem
sôbre mim.
Distante e perto de ninguém,
assim,
eu sou sombra e realidade,
penumbra e espectro.Sou tudo
fóra da homogeneidade.
Porque canto, mudo,
o que há-de
mostrar
àquilo que só eu sou,
sinto-me afastar
para um logar
que ninguém
alcançou
aquem.
Outro de mim permaneço
no logar inicial.
Com sono, não adormeço
porque, outro, faço ruídos.
Embebedo-me de ideias
para conseguir um fim.
Com os sentidos
adormecidos,
assim,
fico mais perto de Mim.
(pp.37-38)

Eis como foi visto por este amigo, na sua relação com Mário – quem sabe se a única que de verdade teve e prezou como nenhuma outra.

Vingou-se, deixando para a posteridade uma arca com mais de vinte e sete mil documentos de que se ocupam agora os estudiosos, os curiosos, toda a sorte de gente.
O importante é que o leiam sempre.



Rui Beja

Mestre em Estudos Editoriais
pela Universidade de Aveiro

Antigo presidente da Associação Portuguesa
de Editores e Livreiros
e do Círculo de Leitores



















































































ENCRUZILHADAS DA COMUNICAÇÃO SOCIAL

Informação • Opinião • Manipulação





Foto: newsrondonia.com.br – o lado do jornalismo

Por razões profissionais, tive a oportunidade e o grato prazer de participar, ao longo da última década do século XX e no dealbar do século XXI, em tertúlia trimestral com jornalistas dos mais diversos meios de comunicação social. Um encontro que os participantes consideravam ser o grande momento de convívio que lhes proporcionava reunirem-se com regularidade e, de forma aberta, debaterem ideias e conversarem sobre a profissão, a sociedade, a política, enfim, sobre todo e qualquer tema do passado, do presente, ou do futuro, que lhes despertasse interesse.
Tratava-se de um grupo alargado de mais de três dezenas de mulheres e homens de consagrado valor intelectual, exercendo a sua profissão nos jornais, nas revistas, nas rádios ou nas televisões, fosse a nível de direcção, de redacção, de reportagem, de investigação jornalística, de crítica cultural ou de reportagem fotográfica. Muitos, senão a maioria, acumulavam a sua profissão com as mais variadas formas de escrita literária, da ficção à poesia, da história à grande reportagem. A maior parte continua felizmente entre nós, ainda no activo ou já retirados do exercício corrente do jornalismo. Outros partiram, deixando saudade, recordações inolvidáveis e um vazio por preencher. Da tertúlia ficaram relações amigas e uma memória de ética jornalística que me prevalece como modelo exemplar. Um modelo que, desafortunadamente, vejo cada dia ser mais e mais pervertido, ou deliberadamente ofendido, por múltiplos profissionais do mesmo ofício.
Viviam-se então outros tempos e outras realidades. Falava-se de informação e de opinião e havia a preocupação de distinguir os dois conceitos nos escritos publicados. Não fora ainda inventada a dicotomia entre opinião pública e opinião publicada e, muito menos, se assistia à falta de pudor que ora grassa em certos jornalistas, alguns deles com elevadas responsabilidades, que "embrulham" a sua opinião em textos pretensamente eruditos para, manipulando a opinião pública, se afirmarem arautos da verdade e assim fazerem passar, subliminarmente, a opinião que pretendem ver tomada como informação. Na tertúlia não faltavam os  opinion makers, mas também não faltava a transparência, frontalidade e critério ético que caracterizava o sentido das suas responsabilidades e a sensibilidade aos ganhos de causa que a democracia política lhes permitia usar com a liberdade que tinha como limite o devido respeito pela opinião e pela liberdade alheia. Entre jornalistas jovens e menos jovens que foram alargando o âmbito do convívio, não havia lugar para convencidos que há pouco deixaram de usar cueiros e já se dão ao luxo de ofenderem, de forma espúria e insolente, aqueles a quem devem a liberdade que lhes permite escrever o que escrevem.
A comunicação social vivia então anos empolgantes. Os seus "patrões" tinham nome e davam a cara; não se escondiam na dependência de interesses maioritariamente financeiros que não servem a comunicação social, antes dela se servem para atingir os seus mais obscuros interesses. Os jornalistas vestiam a camisola da sua profissão e não tinham de dobrar a espinha por força da precariedade que hoje se instalou nas redacções e nas próprias chefias e direcções. Havia investigação jornalística de qualidade que utilizava criteriosamente as suas fontes, contrariamente às fugas de informação indecorosamente selecionadas que polvilham alguns meios de propaganda que abusivamente se intitulam de comunicação social.
Vivem-se tempos difíceis para os jornalistas e para os utilizadores dos meios de comunicação social. Os conteúdos privilegiados usam e abusam do  debate político artificial, da superficialidade telenovesca e do inconsequente comentário futebolístico.  O elevado potencial informativo e formativo das redes sociais é utilizado, mais ou menos anonimamente, para fins inconfessos e incontroláveis que a comunicação social não tem cuidado ou interesse em escrutinar, e aos quais dá visibilidade e credibilidade sem cuidar da sua origem e fiabilidade. Jornais electrónicos de encapotado cariz político-partidário oficioso "observam" as realidades de acordo com as suas motivações e, inexplicavelmente ou talvez não, constituem fontes de referência para certa comunicação social que, além de lhes dar crédito, vai ao ponto de envolver os seus fautores como se de comentadores isentos se tratasse.
Não vivo do passado, nem tenho a pretensão de alinhar o presente pelos meus conceitos e convicções. Mas também não me conformo com a inevitabilidade de assistir impávido e sereno à deterioração, desprestígio e usurpação vil de uma das maiores conquistas da democracia: a valorização do jornalismo e da liberdade de expressão veiculada pela comunicação social. A ética tem de se impor nesta encruzilhada que, se não for vencida,  conduz ao indesejável, mas também inevitável, descrédito e desqualificação do jornalismo.



Paulo Borges

Professor de Filosofia da Faculdade de Letras
da Universidade de Lisboa.
Cofundador e antigo presidente do PAN
(Pessoas – Animais – Natureza)

http://www.outroportugalexiste.pt










CASTELOS DE AREIA, NATUREZA E CIVILIZAÇÃO

O espectáculo do mundo é o melhor livro e o maior ensinamento. Há pouco na praia observei um grupo de miúdos e graúdos que laboriosamente, durante horas, construiu um belo e imponente castelo de areia encostado a um fragmento de rocha. Subitamente, a maré começou a encher e duas vagas maiores destruíram em poucos minutos o castelo que levou horas a construir. Só ficou a rocha.
Uma cena vulgar de praia que todos os Verões se repete. Mas não é uma imagem da ilusão da nossa civilização que tanto trabalho e sacrifício das nossas vidas (e das vidas de todos os viventes) nos custa todos os dias para se construir e reproduzir? Não é uma imagem da sua frágil efemeridade? Com a diferença de que os construtores do castelo de areia sabiam que ele tinha uma vida curta e construíram-no por puro divertimento, enquanto nós alimentamos a ilusão de que o castelo de areia das nossas cidades, tecnociência, economia e sistemas políticos vai durar para sempre e não estamos preparados para sobreviver ao seu colapso. Mesmo quando a história nos ensina que todas as grandes civilizações ruíram e algumas sem deixar rasto. E mesmo quando a nossa civilização é um castelo de areia que se constrói destruindo as condições de sustentabilidade de toda a praia.
É belo ver seres humanos a construir castelos de areia na praia, mas é terrível ver homens de ciência, tecnocratas, economistas e políticos a pretenderem e prometerem construir uma civilização duradoura contrária às leis da própria Terra. O nosso problema é querermos uma natureza conforme aos desejos da civilização e não uma civilização conforme às leis da natureza, a começar pelas da interdependência e impermanência de tudo.


Manuel Monteiro

Autor, formador profissional de Revisões de Textos.
Jornalista, revisor
































































































































































DEZ ERROS FREQUENTÍSSIMOS DA LÍNGUA


O título do novo livro de Manuel Monteiro começa com o vocábulo «Dicionário» e é de facto um dicionário, porém único no género: pretende-se que o leitor o utilize não como obra de consulta, antes o leia do início ao fim, ou seja, cumprindo de enfiada o clássico padrão «de A a Z». A vantagem deste método, segundo o autor, é permitir «ao leitor conhecer aquilo que, de outro modo, não conheceria — há erros frequentes que não suscitam sequer a dúvida que origina a consulta.»
O «Dicionário de Erros Frequentes da Língua», chegado recentemente às livrarias, resulta de dez anos de um trabalho investigativo que permitiu validar todos os erros apontados, recorrendo-se amiúde a trechos de sábios académicos, para além de vultos da literatura portuguesa.
(O leitor ouviu um besoiro quando leu para além? Claro: é redundante, o para é uma absoluta excrescência).

Convidámos Manuel Monteiro a selecionar, de entre as largas dezenas de erros mencionados neste dicionário, apenas dez que possamos qualificar de frequentíssimos e também menos desculpáveis a partir do momento da leitura integral deste livro…  

Binóculos

No singular, o termo é «binóculo». O elemento «bi-» (do latim bin) está ali para assegurar a duplicidade. Como, por exemplo, em bimotor, bicéfalo, bipirâmide, bipolaridade, bissexual.
Camilo Castelo Branco, em Memórias do Cárcere:
«O cavalheiro, marido da dama que expulsou Paula, é um moço feliz, que estava ontem no teatro lírico de binóculo posto para um camarote, em que sua mulher lhe mostrava um vestido de senhora muito mais rico e adornado que o seu.»

Cores

Um casaco castanho. Dois casacos castanhos. Um olho azul. Dois olhos azuis. Uma mala rosa. Duas malas rosas? Não. Duas malas rosa. Como vestidos creme, águas turquesa, paredes violeta, camisolas laranja. Quando a cor que está a qualificar algo é de proveniência substantiva (laranja é fruto, violeta é planta, turquesa é mineral), não pluralizamos.
Nas cores compostas, que são sempre hifenizadas, pluralizamos (flexionando em género e número) apenas o último elemento e só quando este é de natureza adjectival. Olhos azul-escuros, casacos castanho-claros, camisa verde-clara, paredes branco-sujas. Quando o último elemento é substantivo, fica invariável. Olhos azul-mar, casacos azul-bebé, gravatas amarelo-canário, cintos amarelo-pastel, capas verde-garrafa. Não devemos cingir-nos a uma qualquer «lista» de cores. Somos livres de criar cores. Veja-se um verso de Manoel de Barros, do poema Difícil Fotografar o Silêncio: «Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo. Fotografei o perdão.»
Quando a cor não está a qualificar determinado objecto, passa a ter a função de substantivo. Deste modo, dizemos bem «os azuis e brancos» ou «os laranjinhas».

Correr atrás do prejuízo

Quando uma equipa está a perder, os comentadores dizem que vai ter de «correr atrás do prejuízo». Da linguagem futebolística transitou para a linguagem geral. Sherlock Holmes aconselhava a procurar-se primeiramente o cadáver na sala de entrada da casa, dada a dificuldade de reparar no óbvio. George Orwell afiançou que ver o que está em frente do nariz requer uma luta constante. É apenas disso que se trata – se corremos atrás do prejuízo, cada passo que «ele» dá para a frente, aí vamos nós…

Esclavagismo, esclavagista

Os termos correctos são «escravismo» e «escravista». Da palavra «escravo». Como «escravidão», «escravatura», «escravizar», «escravizado», «escravização», «escravizante», «escravizador». O resto é uma salgalhada de francês (esclavagisme, esclavagiste, de esclave) e português.

Iludir/eludir

A linguagem política e jornalística contribui de forma sistemática para esta trapalhada verbal. Tropeçamos constantemente no verbo iludir e poucos reconhecem a armadilha. O primeiro-ministro não iludiu as suas responsabilidades, quando mais não seja porque as responsabilidades não são passíveis de ter ilusões. O líder da oposição não iludiu qualquer proposta sólida. «Eludir» é o verbo. Significa evitar com astúcia, destreza, artifícios.

Iludiu Eludiu as perguntas mais incómodas com anedotas, alegadas falhas de memória, contra-ataques e vitimização.

Releva-se progressivamente mais penoso iludir eludir a necessidade de encarar o problema da dívida.

O primeiro-ministro vem iludindo eludindo o essencial da questão.

Insonsa

A palavra é «insossa(o)». Insosso, do latim insulsu-, «sem sal», e, por extensão de sentido, «sem sabor», «sem interesse», «insípido». O ene (n) é uma corruptela fácil de entender, uma vez que se profere com mais facilidade «insonsa», com o «son» lido como «som», além da intromissão da conhecida palavra «sonsa(o)». Corrija-se a grafia e a pronúncia. Saiba o leitor que tem «insulso(a)», a palavra decalcada do latim, de feição regular e erudita, menos usada porque menos conhecida.

Por portas e travessas

A expressão idiomática é «por portas travessas». «Travessas» está na expressão enquanto adjectivo. Por portas travessas, isto é, por portas oblíquas, postas de través, de viés, de esguelha.
Camilo Castelo Branco, no Amor de Perdição:
«Domingos Botelho bramia contra o filho e ordenava ao meirinho-geral que o prendesse, à sua ordem. D. Rita, não menos irritada, mas irritada como mãe, mandou, por portas travessas, dinheiro ao filho para que, sem detença, fugisse para Coimbra e esperasse lá o perdão do pai.»

Possíveis e imaginários

Há coisas que são reais e coisas há que são imaginárias. Há coisas possíveis, susceptíveis de ser reais, e há coisas imagináveis, susceptíveis de ser imaginadas.
O crudelíssimo ditador mandou matar todos os inimigos possíveis e imagináveis.

Racionalizar/racionar

Uma coisa é a comunicação, outra é a propaganda. Sejamos claros  — «racionalizar» é tornar racional; «racionar» é «impor ração» e «limitar quantidade». A linguagem pública usa e abusa de «racionalizar» para referir despedimentos e redução dos serviços públicos. Podemos até concordar com tais medidas, mas, independentemente disso, não podemos perder a noção de que «racionalizar» e «racionalização» são conceitos insidiosos – só um irracional pode ser contra algo que se torne racional, que se submeteu ao domínio da razão. Nas opções políticas e empresariais, falar-se de «racionalização» presume uma grande máquina perfeita que, desconhecendo valores e emoções, gera a única escolha que deriva da plena razão.

Rapto/sequestro

É frequente a linguagem jornalística, e não só, usar as palavras «rapto» e «sequestro» como se tivessem igual significado, quando se trata de crimes diferentes, embora entre eles existam grandes afinidades. Ambos têm como elemento essencial a privação da liberdade de movimento.
No sequestro, definido no artigo 158.° do Código Penal, a conduta consiste em privar outra pessoa da liberdade de se deslocar, de mudar de lugar. Exemplo: «Duarte fechou a porta da loja, impedindo Maria de sair, mantendo-a sequestrada durante três dias.»
No rapto, definido nos artigos 161.° e 162.° do Código Penal, a conduta pressupõe e exige, diferentemente do sequestro, a transferência da vítima de um lugar para outro. Outra diferença é que no rapto os meios passam necessariamente pela «violência, ameaça ou astúcia», o que não acontece obrigatoriamente no sequestro. Exemplo: «Adolfo encostou uma faca ao pescoço de António, obrigou-o a entrar no carro e foi para lugar ainda desconhecido. Não se sabe qual a finalidade do rapto.»


Em capa dura e apresentando um esmerado grafismo, o «Dicionário de Erros
Frequentes da Língua», de Manuel Monteiro, abrange centenas de entradas
distribuídas por 200 páginas. (Soregra Editores, 2015).



José Viale Moutinho

Jornalista e escritor






















































ANA HATHERLY E O PORTO

UM EPISÓDIO EM 1968

Corria 1968 e eram os tempos da Poesia Experimental. Ana Hatherly e E.M. de Melo e Castro eram os líderes do grupo. Os outros eram o António Aragão, o José Alberto Marques, a Salette Tavares, o Herberto Helder, alguns mais; no Porto, o Abílio-José Santos e eu aderimos um tanto tardiamente, mas enquanto ele ainda ficou por lá, ainda que desorganizado, eu afastei-me, logo a seguir a ter participado na exposição luso-britânica em Arlington Quadro, em Inglaterra. Na Galeria Alvarez, ainda na Rua da Alegria, no Porto, produzi umas sessões com o grupo, que tiveram alguma repercussão. Porém o que quero contar-vos é que nesse ano, tendo assente a minha amizade com o pintor Marco, que acabava de fazer a sua primeira exposição na Galeria Divulgação, por meu intermédio ele aproxima-se dos poetas e começa a editar uns postais de poesia experimental ilustrada por ele, em que figuraram mesmo poetas brasileiros. A Ana Hatherly achava graça à barba loura do Marco e dizia que ele parecia o figurão dos maços de cigarros Players, e brincava dizendo a frase publicitária: Players please!
Ora a Ana, o Marco e eu, em 1968, decidimos avançar com uma colecção de livros, cujo design gráfico foi cometido ao Marco. O primeiro livro era o meu primeiro texto, Natureza Morta Iluminada, uma narrativa, com uma ilustração do Fernando de Oliveira, outro excelente pintor que já lá está no Oriente Eterno. E o meu retrato também é da autoria de um camarada morto, o Américo Diégues, repórter-fotográfico do Jornal de Noticias, diário em que eu então trabalhava havia dois anos. Na contracapa do livro figura um texto da Ana Hatherly que passo a reproduzir:

«Neste lugar está uma porta visível que eu abro para dar passagem a uma luz que incidirá sobre uma natureza a que singularmente se chama morta e iluminada. Não vereis tal morte. Não vereis tal luz. Sombra. Vereis, certamente. Melhor: vereis sombras. Sombras móveis. Sombras que desejareis perseguir e vos conduzirão a novas sombras numa sucessão de penumbras e meios tons de luz ausente, mas luz ainda. Perseguindo as sombras vereis como elas a si próprias se perseguem e nessa perseguição se esclarecem. Mas não desejo esclarecer-vos. Suficiente luz encontrareis em vós para vos iluminardes. Se não tiverdes, renunciai. E as sombras virão ter convosco.»

 Quer a Ana quer eu somos do signo de Gémeos, pelo que esse foi o nome que demos à colecção cuja regra era que todos os autores incluídos teriam de ser geminianos. E a seguir ao meu livro, logo saiu o 39 Tisanas, da Ana Hatherly, protagonizado pelo porco Rosalina, iniciando a longa série, que se prolongaria por outros volumes de tisanas. O problema é que o nº 3 seria um livro de outro do nosso signo, o António Santiago Areal, que avançou com o original para a tipografia, mas teve um desentendimento com a Ana e desistiu do livro, que era um ensaio. Acabou por publicá-lo sem chancela. Assim, entrou para a Colecção Gémeos — eram edições de autor, naturalmente — o Diogo Alcoforado, pintor pela ESBAP e que depois entraria para a Faculdade de Filosofia, onde ficaria como docente. O livro era um ensaio sobre o movimento dos objectos. E acabou a colecção.

A amizade com Ana Hatherly manteve-se através de alguns encontros e abundante e interessante correspondência, mas pareceu-me bem que a nota histórica deste episódio ficasse por aqui, tanto mais que a Ana nasceu no Porto e esta foi, que eu saiba, a sua única «aventura portuense», salvo um livro que lhe editou o Egito Gonçalves na sua colecção de poesia, a Limiar.


TAMBÉM NESTE SÍTIO
A ÚLTIMA MENSAGEM DE ANA HATHERLY AO CASAL DAS LETRAS
E OUTROS TEXTOS EVOCATIVOS





Rui Beja

Mestre em Estudos Editoriais
pela Universidade de Aveiro

Antigo presidente da Associação Portuguesa
de Editores e Livreiros
e do Círculo de Leitores

























































PALAVRAS TRAIÇOEIRAS

ALÍVIO
Sensação agradável que se tem quando o que oprime ou molesta cessa de todo ou em grande parte.

EGO
Consideração ou apreço exagerado que alguém tem por si mesmo.
= EGOTISMO (Sentimento exagerado da própria personalidade, seu valor e seus direitos).




O português é uma língua muito traiçoeira! Frase feita, de efeito malicioso garantido, tem, no entanto, muito mais que se lhe acrescente para além da brejeirice que se lhe atribui. Ou, visto por outro prisma, não será que a nossa língua tem mais de reveladora do que de traiçoeira?
Dizê-lo não constitui inovação, mas por vezes somos surpreendidos pelas circunstâncias em que esta realidade se nos coloca. E, sim, vale a pena pensarmos alto sobre o assunto e partilhá-lo com os nossos concidadãos. Vale a pena tomarmos consciência de realidades que acontecem muito para além do que seria imaginável e admissível. Tomemos como exemplo temas actuais, de conhecimento comum, que espalham perplexidade quanto à capacidade reveladora da nossa língua para fazer cair máscaras a quem as usa, estejamos nós perante o mais simples ou o mais convencido dos portugueses.

Quem ousaria, por exemplo, declarar-se "aliviado" com a perca de um bem nacional que considerasse de grande valor estratégico para o país, mesmo que, atribua-se o benefício da dúvida, pudesse estar convencido que se tratava de uma daquelas situações em que nada há fazer, que se está perante uma morte certa com sofrimento anunciado? É difícil imaginar que, por exemplo, alguém se sinta aliviado com a perca de um ente querido. Conformado, resignado perante circunstâncias adversas e inultrapassáveis, faz parte da vida. Mas aliviado? Não, isto não é culpa de uma palavra traiçoeira porque ninguém a usa distraidamente em tais circunstâncias. O aliviado só nos sai da boca com normalidade se corresponder a um forte sentimento positivo. Em situações de perca revela um fraco carácter.

Tomemos agora como tema o ego, um conceito que segundo nos diz a Psicologia significa "Na teoria freudiana, a personalidade psíquica do indivíduo, de que este está consciente e que exerce a função de controlo sobre o seu comportamento". Mas até por esse lado a língua portuguesa é reveladora. Haverá alguém com controlo sobre o seu comportamento, a dizer alto e bom som que o seu ego está mais do que satisfeito quando é público e notório que a sua imagem rasteja pelas ruas da amargura? Só mesmo se estivermos perante o caso patológico de quem se recuse viver com a realidade. De alguém com espírito arrogantemente vingativo e o ego cheio de infundadas convicções de que nunca se engana e raramente tem dúvidas, ou que algum dia tenha afirmado que para ser mais honesto do que o próprio se tem de nascer duas vezes.

A língua portuguesa é mesmo do contra, não cede a pressões e não entra em compromissos. Safa!

Lisboa, 16 de Junho de 2015


Armando Cardoso

Fotógrafo
Web designer do "Casal das Letras"












































































" MYANMAR - O MILAGRE DE VIVER SORRINDO"



myanmar SINOPSE DO LIVRO :

Este não é um livro de viagens. Tão pouco será um álbum de fotografias, pese embora o facto de o seu autor ser fotógrafo.
É sobretudo uma mistura de conceitos, dedicado a um povo extraordinário que conheceu décadas de tiranias e sofre ainda as suas consequências; que nos recebe com um sorriso nos lábios; que se veste de panos coloridos enrolados ao corpo; um povo de etnias variadas e de uma forte religiosidade (deveremos antes chamar forte sentido filosófico?).
Um país em mudança, que começa a ser cobiçado pelo investimento estrangeiro, pejado de "stupas" milenares, com telhados cobertos a folhas de ouro. Um país onde as mulheres cobrem a cara com "thanaka" e os homens mastigam sementes da palmeira de areca embrulhadas em folhas de bétel e "cospem vermelho".
Uma terra onde os meninos são homens antes de terem sido meninos e fazem o milagre de viver sorrindo.

TRECHOS DA OBRA

Chei-zu tin-bar-te

Para contrariar o calor abrasador que se faz sentir na cidade, Grace sugere uma visita ao Karaweik Oo Yin Kabar ( Parque Real de Karaweik ). Ao passear sob as árvores frondosas do parque temos a sensação de recuar no tempo: os adultos convivem e fazem picnics na relva, enquanto as crianças brincam e correm…vestidas com volumosos fatos de organza e meias grossas, apesar do calor abrasador. De vez em quando os pais interrompem as folias das crianças, obrigando-as a assumir poses fotogénicas que ficarão registadas em máquinas digitais primárias para mais tarde recordar.
A caminho do Hotel Savoy, onde a comitiva irá finalmente repousar após mais de trinta horas de vigília, Carlos tem ainda ensejo de questionar Grace sobre alguns vocábulos em birmanês:
«Como se diz "obrigado"?»
«chei-zu tin-bar-te», responde Grace, «mas não se preocupe; para nós um sorriso chega e já diz tudo».
A resposta, tão inesperada quanto sincera, introduz o grupo numa nova realidade: a partir de agora irá conviver com um povo pobre mas afável; humilde mas orgulhoso das suas tradições.

•••

Carlos e os amigos deambulam por entre as bancas do mercado de rua, absorvendo o cheiro do peixe seco e das especiarias, convivendo com as crianças e observando as mulheres que exibem orgulhosamente as pinturas faciais com thanaka (uma pasta de cor amarelada obtida pela mistura de água com um pó resultante da fricção de um tronco de árvore. É utilizada pelas mulheres e crianças como produto de beleza e serve igualmente como protetor solar).

Sentados sobre as próprias pernas, os homens (e algumas mulheres) mastigam sementes da palmeira de areca, a noz de areca, embrulhadas em folhas de bétel com cal e especiarias. A mistura, dizem, tem um sabor fresco e apimentado. Além do efeito estimulante do sistema nervoso central, causando um relaxamento alegre ou sensação de euforia e uma agradável sensação na boca, alguns afirmam que possui propriedades afrodisíacas.
O "mascador" é facilmente reconhecido pela saliva vermelha, que mancha os lábios e os dentes (os poucos que possuem), saliva que ele cospe sem parar. Daí o epiteto algo depreciativo de "cuspidores de sangue".


Mingalaba

Cansados, mas profundamente enriquecidos com as experiências maravilhosas que acabam de viver, os visitantes vão agora para Ngapali, um destino turístico de eleição, porém igual a tantos outros espalhados pelo mundo.
Mergulharão nas águas cálidas da Baía de Bengal, em praias idílicas de palmeiras e areia cor de ouro; não esquecerão nunca o povo de tez escura, de mil e uma etnias, vestindo "longy" e "sari".

Mingalaba. Chei-zu tin-bar-te

Edição: JM.GRADI Lda. PRELO
Maio 2015

Esta obra de Armando Cardoso estará disponível nas principais livrarias do País a partir do mês de Julho de 2015 e, antes disso, na Feira do Livro de Lisboa (pavilhão C24 -zona Nascente 3 ).



Galopim de Carvalho

Geólogo. Antigo diretor
do Museu Nacional de História Natural
e Ciência da Universidade de Lisboa












































EVOCAÇÃO DO GEÓLOGO ORLANDO RIBEIRO


NO RIGOR E NA BELEZA DAS PALAVRAS


Ilustre professor de Geografia, Orlando Ribeiro foi senhor de
muitos saberes que expunha numa linguagem falada e escrita
de invulgar correcção, não raras vezes poética.


Geógrafo tradicional, de elevada craveira nos domínios das geografias física e humana, com uma notável preparação geológica, Orlando Ribeiro (1911-1997) foi um humanista igualmente reconhecido a nível nacional e internacional. Renovador da Geografia em Portugal, o Professor Orlando (era assim que o tratávamos), foi senhor de muitos saberes em diversas áreas, como as da História, da Antropologia, da Etnografia e outras, saberes que expunha numa linguagem falada e escrita de invulgar correcção, não raras vezes poética.
De parceria com o seu colega e amigo Pierre Birot, do Institut de Geographie de Paris, foi pioneiro numa metodologia de investigação geomorfológica, substancialmente assente no cabal conhecimento dos sedimentos resultantes da erosão do relevo. E foi nesta linha frutuosa, inovada pelo geógrafo alemão Walter Penk (1888-1923) que me concedeu o privilégio de aceitar ser meu orientador nas dissertações de doutoramento que apresentei e defendi nas Universidades de Paris e de Lisboa, factos decisivos na escolha da via de investigação que caracterizou o essencial da minha actividade como geólogo e como docente. Nesta linha, solicitou-me que montasse no seu Centro de Estudos Geográficos um laboratório de sedimentologia de apoio à geomorfologia que dirigi entre 1965 e 1981.
Como era hábito deste ilustre Mestre, para além das pedagógicas discussões que travava com os seus orientandos, nas visitas que com eles fazia ao terreno, lia com eles o manuscrito em fase final das respectivas dissertações e aí, uma vez mais, voltava a discutir, dava sugestões, fazia correcções de forma e de conteúdo, e ensinava a escrever em bom português. E foi isso que ele fez comigo, o único geólogo entre os muitos geógrafos que orientou.
Este meu relacionamento com o Professor Orlando aconteceu porque eu era colega do seu filho António (hoje, o igualmente ilustre Professor António Ribeiro), na licenciatura em Ciências Geológicas, e ambos fizéramos, com ele, proveitosas saídas de campo, onde a geomorfologia, a geologia, geografia humana e a história de Portugal se harmonizavam no rigor e na beleza das palavras. Aconteceu, ainda, porque éramos vizinhos. Das traseiras da sua casa falava-se para as traseiras da minha. Assim, para além da relação mestre/discípulo, fomos amigos chegados ao longo de quarenta anos.

     

          Tanto na sala de aulas como no campo, ouvi-lo era um encantamento



Edite Esteves

Jornalista e escritora













































































HOMENAGEM PÓSTUMA AO JORNALISTA DANIEL RICARDO

O RIGOR AO SERVIÇO DA EFICÁCIA E DA VERDADE     




Um choque! Foi um choque brutal a morte de Daniel Ricardo, um acontecimento "súbito" para quem desconhecia o padecimento de que sofria e de que dera informação oportuna aos colegas da revista Visão onde era há anos editor executivo, mas que não saíra quase do foro íntimo da publicação.
Estava, naturalmente, na lista dos contactáveis para o convívio habitual dos aniversários do nosso querido jornal A Capital, de que foi um dos fundadores, em 1968. Apesar do ex-vespertino ter "falecido" em 2005, a data da sua primeira saída para a rua continua a ser motivo para reunir, anualmente, gente de muitas gerações e cada vez mais e com mais saudades da "família" que sempre constituímos.
O 47.º aniversário de A Capital, programado para sexta-feira, dia 20 de Fevereiro de 2015, por motivos de trabalho de muitos dos presentes, foi celebrado por todos logo que "bateram" as 12 badaladas dos muitos telemóveis que se espalhavam pela sala do restaurante. Mas o nosso Daniel Ricardo não estava lá para brindar. Tivemos de riscar o seu nome da lista dos presentes. A sua morte a 15 de Fevereiro último anulou todas as hipóteses de partilharmos com ele tantas e tantas histórias que vivemos em conjunto. Para quem conviveu de perto com este mestre da palavra jornalística — o seu currículo fala por si — sabe que ele pôs sempre o rigor ao serviço da eficácia e da verdade. Muito discretamente, sem nunca fazer alarde das suas imensas qualidades, Daniel Ricardo foi um professor imparável e perseverante, quase até à hora do seu adeus à vida. E, sobretudo, um editor de excelência, com uma coordenação e uma organização de trabalho indescritíveis.
Por trás de cada reportagem, de cada notícia mais pormenorizada, de cada entrevista, lá estava o trabalho moroso, detalhado e fundamental do nosso chefe. De manhã, quando chegávamos à redacção — e eu estive lá sempre desde 1972 até ao final — antes mesmo de consultarmos a agenda do dia, já tínhamos os magníficos suportes de informação dos trabalhos para os quais éramos destacados, entre as teclas das então máquinas de escrever. Tudo ordenado e escrito à mão: o que era essencial na prosa que iríamos escrever; as fontes mais importantes e próximas do acontecimento para uma rápida tomada de notas ou contacto mais profundo, se tal fosse o caso; as pessoas envolvidas; os contactos mais previsíveis para obtermos o ético contraditório; o tamanho do trabalho, na altura em que ele lá esteve, medido em páginas de papel A4 amareladas, com x linhas e espaçado a 2,5, ainda me lembro; a página que deveria ocupar; e, se caso fosse, a chamada à capa. E depois a decisiva abordagem do tema, a novidade, as consequências, o background, a possibilidade de se fazer um perfil, "bater" chapas, fazer infografias, estabelecer as leis da proximidade e da comparação e ainda a procura de um ou mais comentadores especializados para complementar a informação.
Então, um bom banco de fontes sempre foi e é primordial para se conseguir a informação certa e credível no mínimo tempo possível. Essa a eficácia. Ainda possuo uma enorme caixa de arquivo com fichas em papel, organizadas por temas e dentro deles por sub-temas com os nomes dos visados e dos amigos mais próximos, com os respectivos contactos sempre em evolução por causa da imprescindível actualização dos mesmos e, actualmente, ainda acrescentados com telemóveis e telefones fixos pessoais e dos locais de trabalho, do importantíssimo correio electrónico, do nome do facebook, etc. etc. etc..
Não sei quantos jornalistas éramos, mas éramos muitos. Fazer tal trabalho de investigação e de organização, todos os dias, era tarefa ciclópica. E o Daniel Ricardo era "doutorado" nesta questão, o que mostra o seu incomensurável poder coordenador, de extrema eficácia e, consequentemente, de profunda inovação que o jornal sempre procurava apresentar. Formas de abordagem novas — muitas "cachas" eram obtidas a partir deste trabalho atrás do papel impresso.
E depois havia o feliz hábito de o chefe de cada secção (agora os ditos editores) chamar os jornalistas para junto dele para ler e, eventualmente, emendar a prosa na sua presença e com a possibilidade de lhe explicar o porquê da emenda… Também havia tempo para isso, agora o tempo escoa-se e tudo já era passado quando os jornais saem para a rua. Aquilo que era novidade já não é. A internet, a rádio e a televisão juntas mataram o presente. Agora, é imperioso que os jornais e as revistas sejam cada vez mais criativos e vivam as notícias com os olhos do futuro. E cada vez mais longínquo, de preferência. Ao nível não só global da Terra, mas também do Espaço, que se julga infinito, pelo menos até ao presente.

Palmela, 19 Fevereiro 2015


Victor Oliveira Mateus

Escritor










































NEGRO MARFIM


I – Atingiu o vale numa época em que o desacerto era coisa diária e corriqueira. Alastrou depois por entre as ervas e os animais. Apoderou-se também dos homens sentados à porta das tabernas, das mulheres que se agitavam – exaustas - em torno das selhas e de mim que te desenhava já num zelo de caçador derrotado, num torpor de animal a ver-se em toda a inutilidade que antecipadamente sabia. Atingiu o vale nas noites de inquietude com os relâmpagos a desenhar fins nesses horríficos monstros que eu fantasiava algures entre o fraquejar das lâmpadas e a tinta carcomida das paredes. Atingiu tudo, até os caminhos incontaminados e nítidos, até os umbrosos enigmas que sempre se haviam julgado protegidos. Nada escapava à sofreguidão com que devorava casas e terras. Apenas a mim resolveu deixar incólume, talvez para que assim houvesse, nesse seu meticuloso exercício de vingança, uma trémula sombra que tudo pudesse beber até aos ossos.  

II - Os dias de festa eram o ludíbrio com que me acenava, as gargalhadas estrídulas da multidão na máscara que me tentava sem que eu me apercebesse. Tudo, nesses dias, era grandeza, um enorme vitral flamejante para me convencer de seus valores e intentos, um oval carrocel de muitas cores onde a felicidade fazia a ponte — só que a outra margem era eu e nada mais. Os dias de festa eram a alegria de todos: os meninos a comerem algodão doce, os roncos alarves dos homens, as ciganas seduzindo singelas sinas, menos a minha que a sabia de cor e a encarava de frente com esse orgulho de animal bravio que nenhuma farpa consente, nem a ditames frouxos autoriza quaisquer cimos nesse movediço quotidiano que avidamente sorvem num misto de plenitude barata e tédio encenado. Os dias de festa eram a imponência nua e crua, mas eu, à disputa com todas as formas do negro, apenas conseguia ver os tímidos reflexos que sempre me haviam acenado ao longe, bem ao longe, nesse fundo de todos os fundos, onde poços ressonantes ainda insistem em acamar seus mortos e uma voz de contralto não deixa de me chamar.

III - Atingiu o vale com o furor das catástrofes irrecusáveis, com o sufoco de uma noite imensa cujas batidas surdas se infiltravam, aos poucos, na flacidez dos corpos desistentes. Era uma campânula sobre a vida dos homens. Um toldo grosseiro onde eu inventava rasgões para construir terraços e janelas e onde, às arrecuas, jamais cederia os sinais dessa Palavra que me não largava nem os de um Princípio que só esta cegueira conseguia distinguir. Atingiu o vale e o meu desamparo com ele. Desamparo de quem vê mas não consegue, de quem insiste e de novo soçobra, de quem se ergue por entre o ciclo das derrotas e de quem fraqueja nas trincheiras das vitórias acidentais. Um desamparo a vir de longe. Uma ferida nesse sopro a que chamam alma. Uma cratera. Uma cratera como uma enorme e cínica boca à espera de todas as vítimas que a História nunca lhe recusara e que agora, uma vez mais, acabariam por vir. Atingiu o vale com o furor das catástrofes irrecusáveis, enquanto eu, de ardósia em punho, eu, metade revolta metade angústia, eu, leitor de presságios, inventava nessa mesma ardósia o corpo que desde sempre soubera que nunca me darias.

(Do livro em preparação «Negro Marfim»)

TAMBÉM NESTE SÍTIO
Entrevista a Victor Oliveira Mateus
na ocasião da entrega do Prémio Eugénio de Andrade
da União Brasileira de Escritores





José Viale Moutinho

Jornalista e escritor


















MENSAGEM DE ANO NOVO
DO SENHOR CIDADÃO QUE EU SOU



Venha o copo, venha a pinga,
Venha mais meia canada,
Eu sem o copo não bebo,
Sem a pinga não sou nada.

Vila Verde de Ficalho (Serpa)

A lata de desejar boas-festas neste templo de crise latente!
O conformismo dos votos! A paz podre da bênção civil
e o apoio cristão dos antipapas e a desfaçatez dos cristianos com os rolnaldos olhos postos no dubai, fingindo pensar nas questões da justiça!

Sursum corda! Corações ao alto!
O bacalhau é a droga do esquecimento
e a couve tronchuda a paz da alma!

Presentinhos para as crianças,
mantinhas para a terceira idade
e detergência sazonal
para as nossas almas!
É natal, é natal, já nasceu o alô génio salvador deste Portugal
Recortado à espadeirada pelo Afonso,
povoado pelo Sancho
e deixado estar pelo Gordo, que tinha umas manas freiras.
Gaudeamus Igitur! Alegremo-nos, portanto.
Vem aí janeiro, estás bem aviado.
Venha o copo!

Dezembro 2014



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