Eternidade

O tempo é hoje matéria
com pulsações desordenadas
— por ele sigo
de alma nua
ao encontro dos teus braços
— teus abraços.
Levo-te os silêncios líquidos
dos meus olhos
que te veem em todos os lugares.
— Falo-te do último pinheiro
da nossa casa —
do coração de teus filhos
dos netos que mais bisnetos
te vão dando
e sinto-te a beijá-los
na luz mais secreta das estrelas.
Revivo no meu corpo
o teu apego à família, aos amigos, à vida
— tu, raiz dos nossos sentidos
árvore translúcida
lúcida.
Chamo-te, guardando o luto
de dois anos no amor sagrado
das rosas brancas e vermelhas.

— E a tua voz de eternidade feita
nomeia-me o caminho onde meus passos
se repensam, mãe

© MARIA AUGUSTA SILVA
(beijam-te teus filhos)
26 Julho 2015









Dádiva

  Para António Salvado

O teu verso
dá-me a temperança
e a esperança
que a própria inquietação
faz renascer
num "grito interior preso em surdina".
Lentamente
— debulhando o silêncio
do meu corpo —
escuto os rios,
os búzios, as rosas
a voz total da natureza.
Um comboio
chega entretanto ao meu lugar
com sementes e frutos
da tua poesia azul.
Descubro então
as "pupilas dos pássaros"
iluminando-me
a dádiva mais pura da viagem…

© MARIA AUGUSTA SILVA
Poema antologiado para a obra
«Um Extenso Continente»
de homenagem a António Salvado (2015).









Deuses secretos

Escrevo nos braços das árvores
o teu rosto salvando-me
do tempo escuro. Nas árvores
aparece-me um sorriso
— talvez um beijo —
explicando-me a essência
das sementes. São de ti
— são das árvores que tu és —
os deuses secretos
que modelam e cuidam
da minha desordenada oração.

E volto a escrever nas árvores
— nos seus braços —
o teu rosto de amor

© MARIA AUGUSTA SILVA
Natal, 2014








Soro da Infância

Velha prisioneira
do meu corpo
já vivi estes dias
noutros dias.
E penso:
não sei quantos soros
me levantam
— talvez o mais puro,
o da infância
correndo para as borboletas brancas
sem medo de cair
entre os arados.

© MARIA AUGUSTA SILVA
Loures, 20 Agosto 2014
Hospital Beatriz Ângelo







FOTOGRAFIA DE PEDRO FOYOS                


Margens

— Chegada aqui, as margens
do rio são pastos
de ideias atropeladas
idades desmembradas

— O repouso absoluto
é uma jaula
onde ainda invento
uma trepadeira a florir

… E uma coruja, subtilmente
afasta suas asas
da minha noite

© MARIA AUGUSTA SILVA
Loures, 19 Agosto 2014
Hospital Beatriz Ângelo






Que Somos de Nós?

Abeiro-me
do lago de nenúfares
— tu dizendo-me
histórias da casa
tão grande e tão pequena
entre o jogo de sombras
nas ausências demoradas

Que somos de nós?
— Corpos de esperas
animais despojados
ou aguarelas protegidas
pelos nenúfares
do nosso lugar

© MARIA AUGUSTA SILVA
Loures, 18 Agosto 2014
Hospital Beatriz Ângelo







FOTOGRAFIA DE PEDRO FOYOS                


Para ti, Pedro

A nossa casa
é o ventre
maior do mundo
de que nunca
poderemos cortar
os nossos cordões umbilicais

© MARIA AUGUSTA SILVA
Loures, 17 Agosto 2014
Hospital Beatriz Ângelo






Na luz das tuas mãos

De olhos voltados
para a porta fechada
a vida fugia-me
mas salvava-me
resguardando a alma
no nosso tempo de rosas
— na luz das tuas mãos
afastando o perigo
dos coágulos.

Só tu poderias
escutar-me
as palavras longas
movendo-se no lugar secreto
da nossa plenitude

© MARIA AUGUSTA SILVA
Loures, 15 Agosto 2014
Hospital Beatriz Ângelo








FOTOGRAFIA DE PEDRO FOYOS                


Esquinas do Mundo

Talvez seja luz
o que vejo
nas esquinas do mundo
onde o poeta
canta as palavras de braços
abraçados
na multiplicação do amor.

Talvez sejam acordes
de luas encantadas
os que me chegam
do poeta
criando paisagens de celeiros
sobre o pó das lâminas.

— Talvez o poeta
ainda tenha
no silêncio das mãos
o poema definitivo
da paz

© MARIA AUGUSTA SILVA








Mãe

Ensina-me de novo
a plantar uma roseira

MARIA AUGUSTA SILVA
4 Maio 2014



Mãe

Ando pela casa
como sonâmbula
à procura do teu ventre
— regressar ao teu ventre, quero —
mas um silêncio
indefinível
nega-me as manhãs
dos teus olhos.
Dobrada sobre o coração, digo:
nunca mais, nunca mais
poderei dar-te o soro e o mel,
aliviar-te do cancro
que atraiçoou
a luta das tuas pulsações.
No entanto, mãe
ainda são as tuas mãos
que fundam nas minhas
o lugar do tempo
e procuram outra moldura
para a minha dor
— talvez de rosas, talvez de estrelas.
És tu, mãe
quem vive nas memórias do quarto
no antigo espelho do corredor
e me vigias a sede
das orquídeas
os lençóis mal estendidos
as folhas caídas
junto à porta da rua.
És tu
quem entre as solidões
dos ciprestes
ilumina este poema
no dia do teus anos, mãe

MARIA AUGUSTA SILVA
8 Agosto 2013



No Interior de Ti

Um dia, devagar, subiremos
ao ponto
mais alto da nossa profundidade.
Tu, chave
longa, macia, abrindo janelas
orvalhadas.
Eu no interior de ti, guardada
entre
paredes de água, a soletrar: mãe

(Lido em público pela autora na Igreja Matriz de Loures, no dia 27 de julho de 2013).


Mãe, mãe, mãe.
Dorme, mãe.
Dorme o grande sono, minha mãe.
(26 Julho 2013)







FOTOGRAFIA DE ARMANDO CARDOSO                       


Nós

A mesa está posta. Toalha branca
amores-perfeitos junto ao pão
a cadeira do pai prolongando
silêncios. As nossas mãos vão
tocar-se daqui a pouco arrumando
melhor as chávenas de café para o final
da taça com frutos tropicais. Talvez
desenhes no centro da mesa
a palavra secreta: nós. Dela farei
o açúcar da noite, aconchegando-o
na ternura da boca. Tu contarás
entretanto a história do homem
desaparecido no mar
ou a história que supões ser.
É o sétimo dia da morte do pai
— a cadeira maciça, lugar
de um discreto sossego, permanece.
A mesa assemelha-se a um anjo
imenso e bom. Depois do café
nos amparar a voz amarrotada
escreverei a luz dos amores-perfeitos
Nas tuas mãos


© MARIA AUGUSTA SILVA






Claridade


Solitário mas destemido aproximava-se do casarão arborizado e ficava à espera dos restos. Um homem alto, imenso, de suspensórios cinzentos, abeirava-se com as sobras e uma palavra.
— Come.
À mulher grisalha, baixa e redonda não lhe agradava aquele estranho cada vez mais próximo da velha porta da cozinha. Resmungava
— Faltava-me este malandraço a levar todos os dias o que não lhe pertence. Ainda por cima mal-encarado e coxo!
Resmungava. Resmungava enquanto punha a salvo outros consolos para os fidalgos a que estava afeiçoada. No quarto à direita do corredor, a filha Laura não se apercebia de nada. Tudo era escuro no tamanho da janela e na tinta branca das paredes, no quarto todo, na cama de ferro herdada da avó paterna. Mas um dia a resmunguice e as esconjuras da mulher criaram exaltações, os pardais largaram do caramanchão junto ao lago das carpideiras e o homem dos suspensórios cinzentos não disse
— Come.
Não disse. Inclinou-se para o coxo. O coxo procurou as sobras e não estavam. Sobressaltou-se quando as mãos do homem imenso se lhe ofereceram e o levaram pelos quatro degraus cheios de sol.
— Não entra aqui! Longe da vista, longe da vista, nem sequer sabes o nome dele...
— Coxo, mulher, Coxo.
— Quem te disse, homem de Deus? Põe-me a léguas esse coxo, a léguas.
— Entra, entra e entra. Anda, Coxo.
Laura entristecia-se com as teimosias dos pais. Agitava-se nas suas trevas, no quarto iluminado da infância. O braço esquerdo doeu-lhe uma dor de alfinete ao aconchegar o lençol sobre o outro lado quieto a que os doutores chamavam a metade paralisada. Lembrou-se dos fidalgos ao fundo da quinta, fiéis à missão de guarda. Apurou o ouvido (um dos bens que a neurocirurgia lhe salvara).
—Minha mãe!, quem está a chegar?
— Sossega, é um coxo, caprichos do teu pai, que já lhe digo: ou o Coxo ou eu nesta casa.
— Deve ser um pobre diabo com fome, mãe...
— E a minha canseira, Laura, a minha canseira?, tu há tanto tempo nessa cama, tu...
— Cega, minha mãe, sem caminhar, minha mãe – diga se lhe fizer bem dizer, se lhe aliviar a tristeza e os dias iguais, diga.
— Não é nada, Laura. Sou eu à procura de um anjo qualquer, nem sei se existem anjos, filha. Deve ficar linda a cozinha. O casmurro do teu pai a dar banho ao coxo no alguidar das barrelas. Dar banho ao coxo, só me faltava...
Laura fechou-se no silêncio que aprendera na solidão das veias. Os olhos andavam-lhe à roda das lembranças. Em criança também brincava com os olhos à roda dos balões vermelhos e amarelos, alguns azuis, que o pai sempre lhe dava na festa de aniversário.
Quando fez vinte anos ainda lhe ofereceu balões de muitas cores e foram lançá-los ao vento, deixando o olhar atravessar as cerejeiras até se perder no infinito. Quem será o coxo? – interrogava-se Laura no mais fundo de si. Sentiu os passos do pai aproximarem-se, pesados, vagarosos.
— Apresento-te o novo inquilino: Coxo.
O Coxo abeirou-se da cama de Laura, bem cheiroso, com um perfume que Laura já não distinguia bem, só de memória o sabia. O homem imenso ergueu a dianteira esquerda do malfadado, encostando-o um pouco às suas pernas para o compensar da amputação de uma das patas. Laura perguntou
— És coxo?
Sem glória nem raiva, o Coxo sentou-se no chão encerado. Ladrava – era das poucas vezes que ladrava – à mulher baixa e redonda ao vê-la entrar no quarto de Laura. Nunca iriam entender-se. Laura acostumara-se àqueles desaguisados. A cumplicidade entre si e o Coxo bastava-lhe. O homem de suspensórios cinzentos arranjara entretanto um banco de pinho, aplainou-o e colocou-o ao comprimento e à altura da cama da filha, do lado do braço que Laura mexia, sentia. Junto à almofada, o rádio antigo.
— Gostas dos Beatles, gostas Coxo?
O malhado ajeitou a pata esquerda, tocou no braço de Laura, deslizou até se encontrar com a mão dela, serenou a respiração. Dançaram assim "Love, love me do. / You know I love you". Laura acabou por adormecer.
— Só me faltava... Despacha-te, Coxo, come! – refilou na cozinha a mulher grisalha.
Coxo não dava mais importância aos azedumes. Que se danasse a maldormida! Ele já tivera afectos, conhecia o frio das perdas e dos abandonos. Que se danasse...
Numa manhã de Julho, manhã de luz nascida cedo, Laura esperou pelo arranjo do seu corpo, pelo arranjo da cama. Tomou a refeição liquefeita, demorada na boca, na lentidão dos nervos. Apesar de tudo, era diferente aquela manhã. Arrumou, quanto pôde, o tempo na cabeça. Arrumou-o e desarrumou-o, acudindo-lhe uma sensação de festa.
— Parabéns, filha. Trinta balões, hoje, trinta balões!
Laura procurou a pata do seu cão bonito. Coxo celebrou, nesse dia, um pacto de paz e não ladrou à mulher baixa e redonda. Ajudou Laura a ligar o rádio.
— Música, a nossa música, Claridade!
— Claridade?
Perplexo, o pai de Laura: Teria Laura voltado a ver os balões vermelhos, amarelos, alguns azuis? Trinta balões, trinta anos, cega há que tempos!
Bateu-lhe o pulso depressa, olhou os olhos de Laura a medo, arrepiado. Andavam à roda como em criança atrás das cores.
— Voltou a ver, voltou...
Levou as mãos ao peito, apertou o peito, o coração ia saltar-lhe.
— Claridade, abre as cortinas – pediu Laura.
No seu andar obediente, Coxo puxou o longo tecido para os cantos.
— Tem paciência, filha. Claridade, não, não, não. Coxo, Coxo é o nome que lhe dei desde o primeiro dia que se tornou nosso. Coxo, macho, Coxo. Sou tradicionalista nessas coisas, valham-me os anjos todos da tua mãe!
A mulher grisalha meteu mais falas na perplexidade do homem.
— Só me faltava, passa dos limites.
— Claridade, Claridade é lá nome de cão, nunca se viu, nem de cadela, credo!
Laura e Claridade reforçaram a cumplicidade. Os balões flutuavam rente aos vidros da janela, o Coxo ajeitou-se no banco de pinho. Recordava-se de outro nome seu na casa do antigamente: Passarinho. Meditava: Passarinho devia ser pela ligeireza das minhas patas antes do acidente.
— Estás a dormir, Claridade? Laura mimou-o com a mão esquerda.
— Acorda, Claridade.
— Paciente, de instinto hábil, Coxo assumira os dois tratos: Coxo para os outros, Claridade para Laura.
— Olá, Laura, olá Coxo! – chegara a voz das tardes de domingo, a da prima das leituras.
Uma lágrima enrolou-se nos lábios pálidos de Laura. E Coxo abriu as cortinas.
— Gostaste do poema, Claridade? – perguntou Laura em murmúrio.
A prima das leituras estranhou o nome, interiorizou a estranheza: Claridade... Claridade, o Coxo? Admitiu que Laura estivesse confusa, necessitada de um sono. Despediu-se baixinho.
O tempo mudara de repente. Uma trovoada sufocante, uma chuva agreste a picar a terra. Coxo sentia as andanças das nuvens. Doíam-lhe as cicatrizes como as de Laura deveriam doer. Não gemia, temendo incomodá-la. Coxeou mais do que o costume ao fechar os cortinados por causa dos relâmpagos.
Depois, Laura não jantou. Disse
— Claridade, abre as cortinas, vai comer.
Coxo bebeu água, mais nada. O corredor pareceu-lhe longo, muito longo. A mulher baixa e redonda não resmungou. O homem dos suspensórios cinzentos falou apenas
— Até amanhã.
Ninguém nesse amanhã ligou o rádio. Os soluços confundiam-se com a chuva da noite inteira. Coxo lambeu o braço esquerdo de Laura e saltou do banco de pinho enquanto a mulher grisalha cobria os olhos da filha com um fino lenço.
— Coxo! – chamou a mulher por toda a casa.
— Coxo! – chamou o homem por toda a quinta.
— Claridade! – chamou a mulher por toda a casa.
— Claridade! – chamou o homem por toda a quinta.
Nenhum regresso. Só uma palavra no luto, só um nome no quarto de Laura: Claridade.


© MARIA AUGUSTA SILVA





FOTOGRAFIA DE PEDRO FOYOS                


No enredo dos braços

Antes da sombra — a vontade
de fazer nascer uma outra fonte
descobrir uma camélia
entre palavras não ditas.
Perseguir o sonho até ao fim
dos frutos.

Antes da sombra — o chamamento
do amor e de tudo o que o amor
procura no fermento da pele
na junção dos nervos, no enredo
dos braços, nunca esgotado
nunca prescrito.

Antes da sombra — o princípio
do beijo, o rumo do beijo
nas cheias do corpo. E a boca
fundando a alegria de sermos
um secreto vinho derramado
em nós


© MARIA AUGUSTA SILVA





O lugar do segredo


Aqui me tens, António, remoendo memórias. A professora Fátima, morena, bonita, pescoço esguio, a pedir-nos os rios na ponta da língua. Logo a cantilena empinada a encher a velha sala granítica (uma seca, diríamos hoje). Logo ambos, gargantas esticadas de vaidade e urgência, a elevarmos o Dão aos píncaros. Tu, matreiro, a beliscares-me o cotovelo.
— Albino, Binito, outra vez: Dão, sôra professora, Dão!
O nosso rio, Toninho (pois, claro, Toninho, que a tua mãe enguiçava com Tónio, Toneca ou Tonito). O rio da infância, das férias da adolescência. Depois, alguns amuos, uma ou outra zanga dolorosa. A minha busca, a minha raiva, as minhas fugas, a minha dor, as lágrimas caindo-me no fundo dos nervos, a vontade de caminhar mais para descobrir a essência das coisas. Os afetos vencendo encontrões e espinhos.
Lancei-te há pouco um punhado de terra para dentro da terra que recebeu o teu corpo de sessenta anos, a nossa idade igual em desiguais demandas, meu amigo. Um punhado de terra fria, terra sobre terra, terra de ninguém. Ou terra de nós, pensei. Terra em que nos derramamos até os olhos serem a arca fechada de uma vida. Para trás deixei o padre Rosas com a costumada benzedura...«este nosso irmão viverá no reino da eternidade...»
Que eternidade, Toninho? Nunca entendi o que te levou a largar a paixão pelas ciências para te dares ao seminário. O teu pai a querer-te médico, honrando a herança e a fama da família Calado, a sonhar-te à sua imagem, auscultando pulmões resfriados, a tratares sangues anémicos, tremuras, pernas tolhidas, cabeças esquecidas de tudo, esquecidas de si, esquecidas. A tua mãe, do alto do seu olhar de cinza (seria bem cinza?, tão indefinido, tão cru), a ensinar-te padre-nossos e salve-rainhas. Tu, por fim, a mandares as ciências às urtigas, jovem decidido pela oração, eu a abandonar as lições seminaristas, cansado de mandamentos, de não ser capaz de os aceitar. A minha salvação, o meu apoio, a minha única salvação: o abraço da tia Linda e do tio Henrique amenizando a morte da minha mãe. A morte da minha mãe, os meus 12 anos sem entenderem por que ma levara o rio, o nosso rio, num domingo de morno e terno entardecer, sem ventos apocalípticos nem lamas a matar os pequenos cultivos.
Recordo o teu pai a dar-me falas de vizinho:
— Foi um minuto de loucura que se atravessou na cabeça da tua mãe. Encheu-se de tristezas nos últimos meses, os doentes do hospital realmente comentavam «a enfermeira Saudade anda caída», não me tinha apercebido, confesso. A minha mãe aos vómitos, doutor Calado, levantava-se aos vómitos, a passar a mão pela barriga, dava-me a impressão que chegava a acariciar a barriga da mesma forma que me pegava ao colo quando a noite me assustava. «Não tenhas medo», voltava a dizer-me, «não tenhas medo». Era forte, 33 anos, a minha mãe era forte, doutor Calado. Fez-se muito, muito forte quando o meu pai (nem me lembro do nome dele, ou não quero lembrar-me) partiu para África e a deixou grávida de mim, prometendo-lhe que se casariam assim que arranjasse melhor trabalho por lá.
— Conheceu o meu pai, doutor Calado?
— Não me recordo, morava noutros sítios, longe daqui. Não penses mais nisso.
— Às vezes penso. Nunca se casou com a minha mãe, um mentiroso, nem sobrenome me deu, mentiroso, mentiroso. A mãe contou-me que ele morrera em Angola com febres más, não sei se morreu, se calhar morreu. Mas a minha mãe não, eu e o rio temos juras feitas um ao outro, juras grandes de amor, o rio vai trazê-la para casa.
— Talvez, Binito, talvez. Não chores.
Ainda sinto, Toninho, as mãos do teu pai a consolarem-me sofrimento e receios, a darem-me coragem, seria também alguma ternura. Parecia-me o avesso do homem que me tratou achaques do sarampo, cheio do seu ar médico, empertigado, «rapazinho, põe-te fino». E a tua beatíssima mãe a fingir gentil vizinhança, nem sei como reprimia a vontade de lhe deitar a língua de fora. Devia ter deitado.
Aqui me tens remoendo memórias. Duvidando de haver dado à enfermagem o espírito missionário da minha mãe. A idade da reforma leva-nos a balanços que não sabem respostas absolutas, paciência. Esse tempo já foi. Há, no entanto, tempos que passaram e regressam de repente para não nos deixarem morrer antes da hora.
Há pouco, ao despedir-me de ti, ao despedir-me do coração que num segundo te atraiçoou, fixei a pequena cicatriz dos nossos dez anos na tua cara de sossego. Desculpa, não tive grande arrependimento desse fim de aulas a jogarmos a bola no largo da escola, eu a fintar-te à maneira dos cinco violinos e tu:
— Filho da puta.
E a minha fúria sobre ti, os meus dez anos maiores do que se fossem vinte:
Zás, zás.
O sangue a soltar-se do teu fino nariz, misturando-se com as folhas caídas dos carvalhos, os pássaros em alvoroço, a minha indignação em voo:
— Zás, faço-te em merda, pá.
Mas à beira do rio o saldo da nossa amizade é, apesar de tudo, bom. A tua eternidade não será a da minha mãe. A eternidade da minha mãe funde-se no nosso rio, mais meu do que teu. Porque o rio é a mãe numa viagem, desbravando o ciclo do retorno. O rio, meu deus maior, agora diferente daquele Dão da cantilena na ponta da língua para a professora Fátima.
A minha mãe, numa tarde de domingo, a passar de fugida pela casa da tia Linda para ir ao Lugar do Segredo escutar em silêncio o concerto das águas. Junto ao canavial, no ponto onde as margens se alargam, ficaram a saia, a blusa, o casaco de suave agasalho, as roupas íntimas, as sandálias brancas, o relógio oferecido pelo doutor Calado em sinal de gratidão por lhe ter curado as feridas da queda sofrida precisamente no Lugar do Segredo (diz-se: «o senhor doutor escorregou ao atravessar as pedras para alcançar outra pequena aldeia onde ia medicar um miúdo tísico; escorregou, tantos caem ali, tantos»).
O rio, a nudez humana, a minha mãe, a nudez com que nascemos semelhantes, o grito da morte em carne viva. Enigmática a carta que deixou entre as páginas d'A Sibila, livro marcante de Agustina. Carta que a tia Linda me deu, chegado à maioridade: A tia Linda: «Estás um homem, Binito, esta carta pertence-te».
Os meus dedos abertos como se desejassem tocar o rosto da minha mãe, um rosto iluminado ao levar-me à escola, um rosto de beijo macio ao aconchegar-me os lençóis para dormir. A carta aberta, colando-se-me às mãos: «Querida Linda e meu adorado filho, amei sempre o homem errado. Não suporto outro desdém, outro abandono. Arreliei-me com o doutor Calado. Desesperada, arreliei-me. Protagoniza bem o nome — calado, sem me olhar, calado. E eu já não sou forte, Linda. Já não sou forte, Binito. Não sou capaz de voltar a ser forte.
Perdoem-me».
Uma assinatura trémula: Maria da Saudade. Que belo o nome da minha mãe!, tão autêntico no meu pensamento.
Nunca te falei desta carta, Toninho, nem ao teu pai. Ao visitá-lo anos mais tarde na fase irreversível da doença, tive a noção de querer revelar-me qualquer coisa que não decifrei. Senti-me num jogo de espelhos com reflexos cruzados de cobardia e pudor — um confronto de máscaras sonâmbulas, porventura somando e partilhando as muitas idades das nossas emoções.
A minha mãe amando o homem errado. Onde terá parado o seu corpo? No rio ou no mar? Vejo-a no rio, soltando-se de uma moldura de cristal, de novo capaz de amar a luz e a sombra das almas. Certa ocasião, ao tentar abordar o assunto no meio familiar, a minha filha devolveu-me a suprema fórmula de Heraclito: «Tudo flui... ninguém se banha duas vezes nas águas do mesmo rio.» A neta admito que nem sequer irá conhecer o rio. A cada geração sua mentalidade, bem sei, assim me ensinaram a tia Linda e o tio Henrique com a mestria de professores atentos às dinâmicas da mudança. Talvez um dia, porém, filha e neta descubram por si os universos da memória.
Aqui me tens, Toninho, no Lugar do Segredo, lugar de lendas e lendas sem criatura que lhe adivinhe o mistério. Alguém em confissão te falou deste lugar?
Eu, remoendo memórias. Tu, descansa em paz.
Do rio chega-me a voz límpida da minha mãe: «Já não sou forte, Binito».
Não hesito: «Mãe, o rio é a nossa eternidade, a natureza da nossa eternidade, a água da nossa eternidade».
Um inesperado atrevimento rodopia nos canaviais: «O dono do rio sou eu, idiota... idiota lamecha...»
Volto a ter dez anos, os meus dez anos maiores do que se fossem vinte, maiores do que os sessenta: «Pardal, pardaleco do diabo, cala o bico ou deixo-te com uma cicatriz igual à do Toninho».
Aqui me tens, António, feito guardião de todas as lembranças. Guardião do rio. Porque o rio é a minha mãe.
É tudo.


© MARIA AUGUSTA SILVA






FOTOGRAFIA DE PEDRO SOARES                   


Canta  canta   canta

Canta as origens
do futuro e o futuro   Canta
a dúvida   a utopia
os choupos   a lira
a viagem
mais que imperfeita
Canta as estátuas   o delírio
da nudez
os sonhos   incuráveis
Canta as beiras
da cama em que se
amam os corpos
insaciáveis
contra a morte
Canta canta canta
Não descubras
as trevas dos murmúrios

Já choraste?
Canta


© MARIA AUGUSTA SILVA





Aldeia do Rio


O sítio é o mesmo. Estou a escrever o último conto, Manuel Pedro.
Continuo a usar uma saia azul presa por um botão na cintura. Amei-te nua, aqui, na Aldeia do Rio, no rio. Ando à roda do silêncio que nos enche e nos separa. Há poucos dias, o teu aniversário, lembrei-me. Que idade temos? Que idade tínhamos?, o meu corpo abriu-se a ti, a pele da nossa juventude plasmada na areia doce.
Não te enviei condolências pela morte da Rosária, nada alterou a cruenta sensação de nada. Pensei na Maria da Luz, escrevi-lhe qualquer coisa não-significante. Creio que não estranhou. Mandei-lhe trevos secos, mando-lhos muitas vezes, encanta-me a sua paixão por trevos. Regressada à Aldeia do Rio, apanho-os de manhã, quando os sinos chamam no alto da laje e ninguém vai. O mundo pós-guerra deixou as aldeias sem viço e sem rugas, uma solidão densa. Ficaram os trevos, as silvas. O rio. Comprei a velha casa da Rosa. E no tronco do salgueiro ainda existimos juntos: Agosto, 1953, escavado com a tua navalha de estudante; Agosto, 1958, gravado com a minha cruz de ferro. Uma das vezes que a Maria da Luz me visitou — foi quando me ofereceu o telemóvel, finais de 90, estou a recordar-me —, levei-a ao salgueiro e ao cotovelo do rio, comemos pão de centeio (gostavas tanto de pão de centeio, Manuel Pedro) com azeitonas pretas. Nunca me chamou tia, apenas Maria Dália.
Tão lamurienta a Maria da Luz por ser filha única, tão deslumbrada pelas ciências da vida, refeita do divórcio, os filhos mais americanos do que luso-descendentes, trocará ela a sua carreira em Harvard para tomar conta da tua viuvez e dos teus olhos?, os teus olhos atraiçoam-te, sempre foram traição ao darem-se-me com juras e gozo, mas eram vida, agora aprendem a finitude, também a vou aprendendo, feliz porque ao rio pertenço. Não sei se gostaria de voltar a ver-te, Manuel Pedro, o rio guarda-nos. Mal as águas sobem, solta-se a música que nos levitava como se fossemos uma dança de Matisse. Chama por mim, Manuel Pedro.
— Maria Dália...
Conto-te sem artifícios o meu desprezo pela Rosária. Não por ser dela a meia-irmã que nunca beijou. Não por ela troçar do meu braço esquerdo, amputação arredondada abaixo do ombro, desfecho da minha raiva-suicida a rolar pela escadaria granítica, a da minha infância incompleta. Não por teres depois amado o meu corpo no corpo dela. O que nunca lhe perdoei foi a morte da cotovia. Sentirás — como eu sinto — a cotovia, o seu canto no esconderijo do nosso desejo, sentinela cúmplice das manhãs de nós? Inesperadamente, a Rosária, pedras vingativas nas mãos enciumadas, domingo ao meio-dia..., meio-dia na sombra das estacas. Matou a cotovia, matou-a para nos matar.
E tu, animal em fuga...
— Cobarde!
A minha saia azul no salgueiro, o botão de madrepérola a despegar-se. E do salgueiro e do rio e de mim o grito.
— Cobarde! Nunca te direi que vou ser mãe.
Tanta noite a arranhar-me. A escola em férias grandes, os alunos de Oliveira das Santas sem adivinharem o meu amar quando lhes ensinava a somar as letras: R...I...O. Tu, fantasma medroso, a levares as mãos da Rosária nas tuas mãos, a deixares a minha mão sobre o peito da cotovia.
— Que aconteceu, filha?, faz-se tarde.
— Quem a trouxe a este sítio, avó?, aqui nunca há gente.
— Conheço o rio e o salgueiro, filha... A Rosária e o Manuel Pedro vão casar-se no Porto. Disseram-mo de surpresa. Depois da morte dos teus pais naquela estrada, não voltei a falar com o Manuel Pedro e a Rosária tão cheia de si... Pensam abrir consultório lá, a medicina uniu-os.
(A morte dos meus pais, do meu pai..., eu não pertencia à sua vida).
— Vou para casa da Rosa, avó.
— A Rosa tão doente, Maria Dália, temos de arranjar outra modista, a Rosa já não pode.
— Ela sempre me chamou filha. Só a avó e a Rosa: filha.
Quero acabar o último conto para o meu primeiro livro, Manuel Pedro. Escrevo-o a lápis com a mina afiada em ambas as extremidades. Ganhei esse hábito em Florença, diálogo entre duas pontas: segredo e luz. Depois do abismo insuportável do hospício, foi reconfortante aprender o mundo inteiro em Itália como guia de turismo. E regressar como regressam os herdeiros da utopia.
Que idade temos hoje, Manuel Pedro? A do envelhecimento, sim. E um livro em carne viva, A Servidão Humana, lembrança da avó Hortense quando segui para o Alentejo, ventre a já não caber na saia azul. Por que apareceste?, afeiçoara-me à parteira do monte, prima da Rosa, ela valia-me.
Por que apareceste?
— Respira, respira forte, Maria Dália, — a tua voz clínica, Manuel Pedro, a rasgar o meu corpo como se nunca tivesses entrado nele com sede e fogo.
Um arrepio súbito na cara, uma névoa. O grito do salgueiro.
— Cobarde!
O grito de mim, enlouquecida.
— Cobarde que me fizeste cobarde.
Quem me levou o ser nascido da minha carne e da minha alma? Quem me internou cinco anos num hospício? Quem me secou o leite e me voltou a matar?
Soube que o coração da avó Hortense parou no dia seguinte ao da minha clausura na sala dos alucinados. Quanto gostaria a avó de ter podido celebrar o fim da mais ignóbil das leis, a de filhos ilegítimos, mães incógnitas, pais incógnitos. Eu, filha de quem? De mãe incógnita. A Rosa, parida de mãe incógnita. A Rosa que me chamava filha na Aldeia do Rio.
E a Maria da Luz, ilegítima, perfilhada. Pai: Manuel Pedro V. de Azurara. Mãe: Rosária S. Cabral de Azurara.
— É nobre a adopção, o gesto de quem perfilha — filosofavas tu, ainda solteiro.
— Se não for hipocrisia, humilhação, cobardia — respondia-te afoita, sonhando uma lua de noivos nas Ilhas Gregas.
Tanto tempo, tantos tempos a devorarem os meus nervos.
Espero esta tarde no rio pela Maria da Luz.
Calor de trovoada. Terminarei o conto amanhã. Quem publicará contos de uma velha?

                                                                    
Enrolo a saia no salgueiro. Danço, danço com o rio todo. Que vertigem! Chama por mim, Manuel Pedro...
— Maria Dália, Maria Dália, responde-me. Sou a Maria da Luz, fala-me, responde-me, fala... Um sinal de trevo no teu ventre, igual ao meu, vejo agora. Dorme, Maria Dália. Dorme o grande sono, minha mãe.



© MARIA AUGUSTA SILVA






A boneca azul

Nos corredores de ciprestes
o rapaz deixa a primeira flor
da noite funda, insondável noite das flores
— não tem outro modo de lhe falar
no ventre, voltar ao choro do nascer.
Agora ele sabe que as árvores
também são animais com medo
da escuridão. Às vezes pensava
em abismos mas nunca sentira
a substância da cratera, o sobressalto
dos pés na distância das raízes.

O retorno ao lugar perdeu a luz.
De porta em porta, o rapaz
olha a desordem do silêncio
— as portas da casa são pulmões
saturados de divagações filosóficas.

Agora ele sabe que a boneca azul
da mãe é o único deus possível


© MARIA AUGUSTA SILVA





A carta



Coisas de que te falo hoje, nesta aflição do tempo. Talvez não seja bem aflição, é mais a urgência de reescrever a carta nos meus olhos, no silêncio dos meus olhos, Manuel, com os teus olhos a criarem um sol todo, um sol novo na varanda de ardósia. Ainda te vejo a dar o giz para a mão, os cinco anos da Leonor aconchegados na camisola às riscas, de muitas riscas e muitas cores — noites do meu tricotar rápido para minorar os frios das serras.
E tu ajeitando a voz ao ouvido dela: — Vamos escrever a carta ao Pai Natal, segura o giz, assim, não deixes cair, segura.
A Leonor a aprender contigo as primeiras letras na ardósia da nossa casa: P... a... i... Pai, na pedra larga da varanda.
Natal — acrescentado por ti. E ela, esguia, traquina, a riscar Natal com gatafunhos circulares. Tu entre a arrelia e a doçura: — Isso não se faz, o Pai Natal zanga-se, zanga-se a sério. Não queres pedir-lhe a boneca? Vamos escrever outra vez.
Mimada, a Leonor a deitar fora o giz.
— Quero um gato, um gato grande.
Um gato — comentava eu, de paciência esgotada. Gato é lá coisa que o Pai Natal traga num saco à meia-noite? Mais um gato, credo! Já nos bastava a Florinha à beira de parir a ninhada dos amores com o Zarolho – a ninhada devia ser do Zarolho, o do vizinho Simplício.
Coisas de que te falo hoje, nesta urgência de tudo. A carta na pedra da varanda, a nossa casa. A Leonor:
— Quero um gato grande.
Agora, Manuel, o nosso neto sem giz, sem ardósia, com um gato malhado, preto e branco, esparramado no ecrã do computador em cibercarícias. Cibercarícias — ensinou-me ele a dizer.
— Estás numa de sonho virtual, avó?
(Sonho virtual... Será, Manuel?)
— Estou a reescrever de memória uma carta da tua mãe, Jorge Filipe.
A reescrever com a memória, anda tão triste a minha memória que tenho medo de esquecê-la.
— Vó, conta tudo. Vou abrir um documento novo. Diz, vó.
— Palavra-chave, Jorge Filipe: A carta.
— Keyword, vó: A carta.
E o giz, a ardósia, a casa, a Leonor? Coisas de que te falo hoje, Manuel, nesta aflição do tempo, na solidão do tempo, na urgência de...
— Vó! Avó!
— Escreve, filho.
— Neto, sou neto, avó...
— ... a urgência. Escreve a urgência, a memória.
— TB. Tudo bem, vó: Carta ao Pai Natal.
— Escreve apenas: Pai.


© MARIA AUGUSTA SILVA




Silêncios dos meus passos

FOTOGRAFIA DE ALFREDO CUNHA                


Há sempre uma terra nos silêncios dos meus passos
e caminho devagar escutando as acácias que sabem
da boca dos meninos a morrer com a barriga sem nada.
Meninos meus irmãos de inconfessáveis revoltas
sorrindo para o mar que talvez julguem ser deus
— esperando das ondas, da liberdade das ondas
água limpa, peixe bom, pão de farinha de amor, um beijo
sem contrabandos. Depois, a barriga dos meninos
há-de ir pelas madrugadas com merengues e pitangas
olhos de claridade escrevendo ao fundo da ilha
os poemas límpidos de Alda Lara.

© MARIA AUGUSTA SILVA