0 mar não está longe. Subindo ao monte da Oureça, ali mesmo ao lado, o olhar alcança Santa Cruz e outros lugares difusos na orla do oceano. Distinguem-se, na direção oposta, os edifícios mais altos de Torres Vedras e, muito próximo, em baixo, na sua pequena extensão, a aldeia de Moçafaneira, sobranceando um vale fértil. Apreende-se, então, a possibilidade de estas terras terem comunicado, em tempos remotos, com o mar. Há milhões de anos, o espaço que vemos agora repleto de vinhas sépias seria o delta de um rio lodoso e com densa arborização ao redor. Um lugar aprazível para os grandes répteis que dominavam o planeta.


                                NÃO MATEM OS DINOSSÁURIOS – 1

Monstruoso lagarto escondido
com os ossos de fora


«Alguns agricultores da região de Torres Vedras têm em casa ossadas de dinossáurios e, receando perderem as terras, dissimulam com cedros e urzes, nos campos agrícolas, os achados de maiores dimensões». Foi com estas palavras que me chegou, por via telefónica, a notícia. O meu informador, antigo amigo residente naquele concelho, advertiu-me que a reportagem, se eu a quisesse realizar, não seria fácil: «Ninguém está interessado em falar».

Conheciam-se nos meios paleontológicos os casos pontuais de ocultação de vestígios pré-históricos em zonas rurais. No concelho de Torres Vedras, porém, esses casos pareciam adquirir uma extensão que ninguém imaginara. A oeste da vila começava a detetar-se a ponta do icebergue.

Tive oportunidade, nesse mesmo dia e na Redação do Diário de Notícias, de abordar o assunto com o meu diretor, Mário Bettencourt Resendes, que não escondeu o espanto e me aconselhou a trocar impressões com um ilustre amigo do jornal, o Professor Galopim de Carvalho. Seria mesmo verdade? Ossadas de dinossáurios escondidas nos terrenos agrícolas? O então diretor do Museu Nacional de História Natural nem me deixou concluir a pergunta: «Não só é verdade como acontece também em outras regiões do País. Eu bem compreendo os agricultores. O meu amigo, naquelas circunstâncias, procederia da mesma forma. Para eles constitui um azar enorme darem conta de um achado cuja natureza inusual nem sabem definir. O que sabem muito bem é que o facto, sendo propagado, se converte num pesadelo. Deixam de poder cultivar naquela área por um tempo imenso, chega gente esquisita que começa a esventrar as terras, sofrem prejuízos que ninguém compensa minimamente, a começar pelas entidades municipais. Isto não significa que concorde com o secretismo. Claro que não. Creio que o tratamento jornalístico da situação poderá sensibilizar os responsáveis das administrações central e local para o valiosíssimo Património Natural que não é admissível persistir escondido, pelo contrário urge salvaguardá-lo e valorizar o mais possível, todavia com pedagogia e sensibilidade social».

Ficou prometida pelo emérito catedrático uma entrevista alargada sobre o tema. Antes, eu iria "ao terreno" em busca de ossos pré-históricos. Parti na semana seguinte, na companhia do camarada da fotografia, Miguel Madeira, devidamente alertado para a conveniência de usar a câmara com a máxima discrição.

Secretismo confinado aos terrenos agricultáveis




Agricultor da aldeia de Moçafaneira mostrando dois dos mais
significativos ossos de dinossáurio encontrados no seu terreno.
FOTO: MIGUEL MADEIRA / CORTESIA DIÁRIO DE NOTÍCIAS


Falava cheio de convicção e com a vivacidade de quem presenciou o episódio, há milhões de anos: «O bicho encalhou num banco de pedra, aqui, neste ponto, por debaixo desta terra. Ficou entalado, o desgraçado, e até hoje...»

Não demorei a constatar que o secretismo dos achados se confinava aos terrenos agricultáveis. António Luís Antunes, 48 anos, agricultor de Moçafaneira, serena aldeia a oeste de Torres Vedras, manifestava com veemência uma outra certeza: deveriam existir naquele subsolo tesouros que ninguém conseguiria avaliar. Queria ele dizer que em muitos outros bancos de pedra permaneciam enleados outros «monstruosos lagartos» da mesma natureza, em número incontável, à espera de serem descobertos. «Mas dar com eles é que é o problema. É um acaso, como aconteceu comigo. Valeu que estava com os ossos quase de fora...».

Em rigor, os tais «bancos de pedra» são antiquíssimos estratos de arenitos que oferecem o aspeto da argamassa feita com saibro. Em relação ao «bicho», o vocábulo conferia. Tratava-se, na realidade, de um bicho medindo seis metros de comprimento por três de largura, um crânio achatado e de pequeníssimas dimensões, uma cauda longa, pontiaguda, com espigões ameaçadores na extremidade, um pescoço comprido, quatro pernas grossas sustentando um tronco rotundo, descomunal, e, por fim, um dorso bizarro, enfeitado com uma fiada dupla de geométricas placas ósseas assemelhando-se a escamas eriçadas. Um senhor dinossáurio. Viveu durante o Jurássico Superior, há cerca de 120 milhões de anos, ou mais.

O paleontólogo Pedro Dantas classificá-lo-ia, ao cabo de uma morosa observação às primeiras ossadas desenterradas, como um Estegossauro do género Dacentrurus (que significa «cauda pontiaguda»), do grupo dos Ornitisquianos. «Era um sáurio herbívoro», referiu-me aquele especialista. «Eventualmente pacífico, deslocando-se em manadas, as placas e espigões no dorso e na cauda compunham, talvez, um dispositivo dissuasor em relação aos predadores, para além de terem uma função de controlo térmico».

O agricultor António Luís não disfarçava o júbilo por ter estado na origem de um relevante acontecimento paleontológico, pois havia sido ele quem primeiro instigara as atenções sobre o achado, quando procedia à terraplanagem de uma área dos seus terrenos. Possibilitou, assim, a recolha de um conjunto de ossos de dinossáurio que se revelaria o mais vasto e completo de quantos foram encontrados no concelho de Torres Vedras. Tais descobertas são, aliás, em número que ascende a largas dezenas, desde o princípio do século XX. Nunca, porém, fora possível reunir uma quantidade tão elevada de fragmentos pertencentes a um único animal.

António Luís, um homem da terra, simples, generoso, franco. Ainda havia quem o tratasse por Patrão, alcunha provinda dos tempos de ouro da equipa local de futebol: «Eu era o capitão e andava tudo na linha...» Bom conversador, espírito vivo, ia discorrendo sobre fósseis, dos quais possuía exemplares recolhidos durante as lavouras. «Este bivalve» – exibia com entusiasmo o que parecia ser uma pequena pedra escura – «viveu há milhões de anos, é da época do Jurássico».

Tinha igualmente o prazer da leitura. Confessava que a melhor prenda que lhe podiam dar era um livro. A paleontologia, em resultado dos acontecimentos que protagonizara, converteu-se num tema predileto sobre o qual gostava de conversar. Mostrava-se indignado com o comportamento de alguns habitantes da região que, sabendo existirem nas suas propriedades jazidas importantes, por vezes em espaços adversos ao cultivo, mesmo assim não as divulgavam. Pior do que isso, escondiam os achados em casa ou disfarçavam-nos no terreno. A escamoteação durava há anos, era conhecida nos meios arqueológicos. Depoimentos que recolhi ao tempo permitiam avaliar em pelo menos meia dezena as situações de ocultação de vestígios de dinossáurios na região de Torres Vedras, sobretudo nas povoações sobranceiras à ribeira do Cadoiço. Próximo de Bordinheira, por exemplo, registavam-se dois casos de flagrante dissimulação por meio do plantio maciço de urzes, uma nota dissonante num terreno de lavoura. Conhecidas pelo nome de "urzes-das-vassouras", estas plantas apareciam nos locais, não muito distanciados entre si, onde dois anos antes haviam aflorado, durante os trabalhos agrícolas, vértebras de grandes dimensões.

António Luís estava ao corrente de um rol de ocorrências similares, que reprovava energicamente. Tão-só o desejo de não quebrar as boas relações de vizinhança influíam na sua atitude de passividade, mas ansiava que «pessoas instruídas, com conhecimentos, consigam fazer ver a esta gente que não está a agir bem». Pediu-me que escrevesse no jornal isso mesmo, o que fiz, mas descrente da eficácia.

Um medo ancestral

As ações de sensibilização das populações eram planeadas pelas duas coletividades que empreenderam as escavações paleontológicas em Moçafaneira – o Espéleo Clube e a Associação de Defesa e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras (ADDPCTV). O antigo presidente desta associação, José Pedro Sobreiro, professor de educação visual e figura admirada no meio cultural da cidade, realçou-me que a situação advinha sobretudo de uma grande falta de informação. «As pequenas comunidades agrícolas, que vivem em exclusivo do que a terra lhes dá, têm um medo ancestral de poderem ficar sem essas terras. Se se descobre numa propriedade algo que subitamente origina um grande movimento de interesse por parte de estranhos, logo pensam em expropriações e coisas assim. Os agricultores receiam, no mínimo, serem impedidos de fazer as plantações regulares e decidem, então, silenciar e esconder».

A temática arqueológica e, sobretudo, paleontológica, no âmbito restrito dos dinossáurios já tinha apreciável ressonância mediática. As populações rurais reagiam com curiosidade aos achados e levavam-nos para casa. Vértebras de proporções avantajadas ficavam expostas na cozinha, sobre a chaminé, ou decoravam as paredes das caves. Depois, nem isso, porque, como me explicava o meu guia, «os agricultores tomam conhecimento, em especial pela televisão, das agruras por que têm passado outros proprietários que comunicaram descobertas importantes». Começaram a recorrer à ocultação dos vestígios e quantas vezes não terão precipitado a destruição dos mesmos. Relatei pessoalmente todos estes factos ao presidente da Câmara Municipal de Torres Vedras. Com mau humor e enorme frieza limitou-se a responder que não competia à autarquia exercer esse género de «pedagogia científica» junto da população rural. A audiência demorou dois minutos e o repórter de imagem ficou à porta, o que não obstou ao registo fotográfico da praxe (à sorrelfa, bem entendido).

Ossos «a bom recato»

António Luís Antunes, uma meritória exceção à regra, começou por atemorizar-se nos dias sequentes à descoberta dos primeiros ossos. Muitos vizinhos alertaram-no para o efeito prejudicial que adviria para ele próprio e para os proprietários da zona da sua decisão de divulgar o achado. «Os meus ossos estão a bom recato, lá na cave, e lá vão continuar», confidenciou um deles. À noite, no café de Moçafaneira, tentavam dissuadi-lo: «Vais meter-te numa grande carga de trabalhos. Chegará o momento de quereres plantar e mandam-te dar uma curva». O agricultor, contudo, mostrou-se determinado e chegou a ripostar: «Se fosse necessário eu oferecer mil ou dois mil metros da fazenda para fazerem ali um museu, sentia-me até muito orgulhoso. Mas ninguém compreendeu a minha atitude. É gente dura. Sabe lá os olhares que caíram sobre mim, quando começou a chegar o pessoal para as escavações...»


NÃO MATEM OS DINOSSÁURIOS – 2

Um museu Jurássico
na arrecadação doméstica


Na freguesia de São Mamede da Ventosa, a um quilómetro do local onde apareceram as ossadas do "dinossáurio de Moçafaneira", o agricultor Boaventura Carlos, de 45 anos, especializado no cultivo de vinhas, é um dos poucos que tem revelado achados de ossos dos grandes sáurios. Possui uma vértebra portentosa já referenciada pelos paleontólogos como sendo de «um dinossáurio muito possante». O mais espantoso, no entanto, é que este homem preserva na cave da sua residência, num espaço de arrecadação, largas dezenas de outras descobertas com excecional importância científica. Um autêntico museu particular do Jurássico. Quando se lhe pergunta a razão por que tem acumuladas naquele local, em circunstâncias tão precárias, reconhecidas preciosidades pré-históricas, responde: «E quem convence a minha mulher a ter os ossos lá em cima, em casa?»




Este agricultor, que não escondia ter parte da sua casa convertida em
museu paleontológico, exibe uma imponente vértebra com 120 milhões de anos.
FOTO: MIGUEL MADEIRA / CORTESIA DIÁRIO DE NOTÍCIAS


Os membros do Espéleo Clube de Torres Vedras consideram preferível, perante a inexistência de alternativas, que os agricultores conservem na sua posse os achados, na condição de os comunicarem, como tem sido o caso de Boaventura Carlos.

O paleontólogo Leonel Trindade (nome que, após a sua morte, seria atribuído ao Museu Municipal de Torres Vedras), coordenador dos trabalhos de prospeção em Moçafaneira, sublinhou-me: «A verdade é que, se todos os agricultores da região começassem a entregar-nos as peças guardadas em casa, não teríamos capacidade de resposta. É melhor que as retenham, com o nosso conhecimento».

Esta situação vem reforçar a necessidade de concretizar-se o projeto, há muito tempo ambicionado pelos paleontólogos locais, da criação de um museu de História Natural em Torres Vedras. Entretanto, alguns especialistas voluntariosos oferecem-se para classificar estes espólios privados. Bruno Gonçalo Silva, que me acompanhou na visita ao agricultor Boaventura Carlos, reiterou a este a sua disponibilidade para classificar as numerosíssimas peças reunidas no decurso dos últimos anos.

Mais difícil é obter a cooperação dos proprietários para a eventualidade de virem a realizar-se sondagens nos terrenos. Mesmo este agricultor, que tem mantido um comportamento exemplar na relação colaborante com os paleontólogos, não deixa de observar, bem-humorado: «Se quiserem escavar para descobrir os bichos inteiros, seria melhor, talvez, daqui a trinta anos...»

Reconheça-se, porém, que as últimas campanhas de escavações em Moçafaneira concorreram significativamente para granjear a confiança das populações. Houve uma escrupulosa atenção ao calendário agrícola do proprietário e procurou-se causar o mínimo prejuízo à plantação (abóboras, ao tempo). Leonel Trindade assinala que a questão do bom relacionamento dos participantes com a comunidade local se inscreveu desde o início nos objetivos primordiais da intervenção. «Nestes casos, uma situação conflituosa com os habitantes, mesmo que pareça não revestir gravidade, poderá fazer perigar todo o projeto e a continuidade de ações.»

É este código de comportamento que determina também a extrema prudência com que os paleontólogos estão a encarar os casos de dissimulação de achados na região. O plano passa pela sensibilização, rejeitando-se qualquer iniciativa de pressão.

As poucas abordagens diretas aos proprietários suspeitos de ocultarem jazidas nos terrenos têm resultado inoperantes. As respostas desses agricultores às «diligências amigáveis» desarmam, logo à partida, quaisquer hipóteses de êxito. Um relato esclarecedor: nas imediações de Bordinheira, desenrolou-se uma tentativa subtil de aproximação, num terreno apontado como um dos que abrigam vestígios encobertos. Os visitantes fizeram-se à conversa com o sogro do proprietário. Como quem não quer a coisa, tatearam manhosamente o assunto, aludindo aos muitos achados que têm vindo a fazer-se no subsolo da região: «Então, e por aqui, há notícia de haver coisas debaixo da terra?...»

O velho ouviu com mal disfarçado alheamento e depois refutou: «Ó senhores, aqui por debaixo da terra, que eu saiba, só andam minhocas».




NÃO MATEM OS DINOSSÁURIOS – 3

Tiranossauro Rex:
dá-se a quem o estime



Réplica do Tiranossauro Rex no Museu de História Natural de Londres
(Cortesia de International Friends of the Natural History Museum)



Naquela pequena sala de um primeiro andar da Rua Santos Bernardes, em Torres Vedras, havia quem se entregasse ao exercício aparentemente lúgubre de mexer e remexer, horas a fio, ossos e mais ossos. E fazia-o com paixão.

O movimento paleontológico gerado pelos achados de Moçafaneira teve a sua expressão científico-associativa no espaço de dois dinâmicos agrupamentos cuja capacidade de mobilização permitia incutir em muitos jovens da região o gosto por aquela temática e a possibilidade de os mesmos viajarem, da teoria à prática, num voo de aventura sobre as mais longínquas idades do planeta. Eram o Espéleo Clube e a Associação de Defesa e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras, coletividades que funcionavam de uma forma interligada, a começar pelas respetivas sedes, paredes meias no andar cedido pela Câmara Municipal. Justificar-se-iam, contudo, muitos mais apoios, atendendo à admirável ação cultural e pedagógica que desenvolviam.

Todo o material osteológico (ossos, para os leigos) recolhido durante as campanhas de escavações em Moçafaneira encontrava-se naquele compartimento, decorrendo na ocasião da minha visita uma operação que requeria a mais beneditina das paciências: a limpeza dos fósseis.

Há necessidade, por vezes, de proceder a uma cuidadosa decapagem dos fragmentos mais impregnados de margas e arenitos.

José Luís Almendro, um reformado para quem a arqueologia e a paleontologia constituem uma atividade amadora «a tempo inteiro», afirmou-me que é indispensável, na realidade, «ter uma verdadeira paixão por estas coisas». Entregava-se igualmente à prospeção no terreno. A sua "coroa de glória" foi a descoberta em Baio, próximo de Ponte de Lamporeira, onde desagua o Sisandro, de uma vértebra de dinossáurio.

Importantes vestígios do Jurássico, recolhidos na região, encontravam-se preservados nessa «sala dos ossos», com realce para um maxilar superior, raríssimo, com um dente emergente, presumivelmente de um Carnossauro, a demonstrar que os grandes predadores andaram também por aquele território. De muito interesse revestia-se ainda uma vértebra do pescoço de um dinossáurio, encontrada por um jovem em Porto de Vacas e doada à associação.

Os achados em Moçafaneira aliciaram para esta atividade muita gente nova. Dezenas de estudantes de ambos os sexos, a maioria com idades entre os 16 e os 20 anos, participaram nas campanhas de escavações e ficaram... "apanhados". Um deles, a quem foi oferecido, por esses dias, um cachorro, resolveu dar-lhe o nome de Tiranossauro Rex. O animal, entretanto, cresceu imenso, e o jovem quis dá-lo a quem o estimasse e pudesse proporcionar-lhe mais espaço. Parecia improvável, porém, que alguém se dispusesse a acolher um hóspede chamado... Tiranossauro!

De entre as tarefas empreendidas com regularidade por aquelas associações, a mais entusiasmante respeitava à fase de reconstituição do esqueleto de um animal pré-histórico, a partir dos fragmentos disponíveis. Era o que se passava com o chamado "dinossáurio da Moçafaneira". O puzzle progredia lentamente, em constantes tentativas de decifração, à medida que as várias peças ajustadas entre si iam conferindo formas verosímeis à estrutura.

Mas o esforço era compensado, quase sempre, por pequenas vitórias que alguém fora do meio teria dificuldade em compreender. Como, por exemplo, a circunstância de várias pessoas se manifestarem jubilosamente, a altas horas da noite, quando se concluía que uma determinada vértebra de enigmática localização assentava, afinal, como uma luva, sobre o canal da medula.

Um outro mundo.


NÃO MATEM OS DINOSSÁURIOS – 4

Dava nas vistas aquele descomunal amuleto
sobre o "tablier" da camioneta


O agricultor António Luís Antunes é descendente de uma fabulosa personagem que no século XIX teria encontrado nas proximidades de Moçafaneira um conjunto soberbo de achados paleontológicos. Chamava-se Alberto da Quintinha, também conhecido por capitão Alberto, um nome que ressoa ainda na memória dos habitantes da região. Vulto difuso na linha de fronteira entre a lenda e a realidade, sabe-se que era militar e riquíssimo. Dado a aventuras amorosas, as histórias que dele se evocam confluem invariavelmente para relatos eivados de picardia e depravação. «Um velhaco», resume António Luís, «um velhaco tão grande que não é honra ser-se descendente de um tal figurão».

Instalou-se numa quinta do vale de Moçafaneira, depois de abandonar a vida militar, e desde logo se tornou numa espécie de alcaide-mor do território a oeste de Torres Vedras. Passeava-se a cavalo pelos lugares, constando que o presunçoso reclamava durante a digressão matinal a donzela com quem passaria a noite. Ficava rica, a eleita, porque Alberto sempre presenteava essas graças com uma moeda de ouro retirada de uma notabilíssima arca que tinha à mão, no próprio quarto. Era a arca do Alberto da Quintinha, afamado tesouro, que perdurou, de geração em geração, na memória coletiva. Para além das moedas e dos anéis de ouro, «em número maior que os seixos existentes no leito do Sisandro», a riqueza do grande senhor abarcava longínquas preciosidades, como vasos lacrimatórios e elmos de prata. «Até relógios de sol, com milhares de anos, havia nessa quinta», remata o descendente renunciante.

Hoje, descortina-se sem esforço a proveniência de tanto fausto. Alberto, ao tempo das Invasões Francesas, estava no auge da sua carreira militar. Continuados saques foram esvaziando os templos e casas nobres de Torres Vedras. E o capitão, filho da vila espoliada, terá considerado que melhor seria antecipar-se aos franceses e fazer permanecer os despojos no solo pátrio...

As últimas notícias de Alberto e da sua arca remontam aos meados do século passado. Sobressaem, como não podia deixar de ser, os lances libidinosos. No final da vida, o galante decrépito dava-se ainda a obsessões indecorosas. Assim: mulher que lhe entrasse na propriedade e exibisse uma determinada parte do corpo expunha-se igualmente ao preito de uma libra reluzente, retirada da famosa arca e depositada, com todo o ritual, na tal parte da desavergonhada. «E diz-se que freguesia daquela não faltava ao velho!», ri António Luís, cujo repertório de histórias do Alberto daria para fartos serões.

Um bicho medonho

Mas vamos ao caso que interessa à crónica. Um dia, o senhor de Moçafaneira decidiu reconstruir o solar da sua herdade. Obra vultosa, dos caboucos ao telhado. Ia a escavação ainda no princípio quando saltou aos olhos dos operários o esqueleto de um bicho medonho. Coisa nunca vista, pela dimensão gigantesca da ossada. Deu brado o achado e muita gente veio de longe para espreitar a estranha criatura. Um paleontólogo dos nossos dias classificaria, por certo, esse esqueleto como pertencendo a um dinossáurio, vocábulo desconhecido na época e, portanto, os bons frades do vizinho convento do Varatojo, observando-o, biblicamente passaram a escrito a cédula que se lhes afigurou mais ajustada ao fenómeno: «Animal do tempo do Dilúvio».

Quanto a Alberto da Quintinha, colecionador muito versado em antiguidades, como se viu pelo currículo, mandou reunir os ossos que foram lavados e depois metidos na sua arca memorável.

A morte do capitão constitui, bem pode dizer-se, o fim de um trilho. Ninguém sabe que destino terá levado a arca. Tão-pouco se conhece o local exato onde se situava a casa reconstruída, que, entretanto, desapareceu. Indícios relacionados com um método engenhoso de transporte de água para a construção levam a admitir que a mesma estaria próxima de um rio (o rio Sisandro?... ou a ribeira do Cadoiço?).

Um único elemento reminiscente desta personagem se perpetuou na região: o sobrenome epitético da Quintinha, em relação a um ramo dos seus descendentes (ou tão-só habitantes sucessores da primitiva quinta).

Acresce, para tornar mais dificultosas as pesquisas, que os da Quintinha estão a abandonar, desde há duas ou três gerações, o concelho de Torres Vedras. Um deles, também Alberto, como o fundador torriense, é o herói da segunda parte da história.

Osso com mais de um metro na camioneta

Este Alberto da Quintinha morreu por volta dos anos anos oitenta. Antigo gasolineiro, investiu as economias na compra de uma camioneta e entregou-se ao negócio de gado, que por regra transacionava na feira da Malveira. Alguns comerciantes recordam-se dele por uma particularidade assombrosa: sobre o tablier do veículo no qual transportava o gado, via-se um osso descomunal, com o aspeto de um fémur de mais de um metro e que «não pertencia, de certeza, a um animal dos que conhecemos hoje».

O comerciante João Graça, que faz a feira «desde o tempo em que o gado não estava separado dos alguidares de plástico, era tudo no mesmo sítio», diz que o Alberto da Quintinha era pessoa «muito fechada». O famoso osso vinha por vezes à conversa, esclarecendo o seu proprietário que o tinha recebido de herança. João Graça lembra-se, até, que numa ocasião alguém brincou com o caso, lançando-lhe: «Ó Alberto, que grande caçador era esse teu antepassado!» Dava nas vistas aquele osso. «Parecia uma coisa do princípio do mundo. E ele andava com aquilo por debaixo do para-brisas como se fosse um troféu, ou um talismã», afirmou-me este feirante.

Depois da morte do Alberto dissiparam-se de novo as pistas que poderiam conduzir à descoberta da fabulosa arca, ou do que restará dela, cujas histórias incendeiam, há mais de um século, o imaginário dos habitantes de Moçafaneira. Poder-se-ia estar, é claro, perante um conjunto espantoso de coincidências: duas pessoas com o mesmo nome, habitando locais relativamente próximos e ambas vivendo episódios no centro dos quais despontam ossos colossais, «do princípio do mundo». Hipótese improvável. Muito mais empolgante será continuar a pensar que existirá, algures no concelho de Torres Vedras ou no de Mafra, um ignoto herdeiro detentor de um osso de dinossáurio e que, na ignorância do facto, o tenha atirado para o sótão das velharias. Esperemos que o mesmo ressurja, um dia, para novas histórias.


NÃO MATEM OS DINOSSÁURIOS – 5

O estranho caso de um outro osso
que intrigou muita gente na cidade


Manhã de sábado. O agricultor António Luís Antunes, mencionado na crónica anterior, concretizava finalmente o antigo projeto de esbater por meio de terraplanagem um declive acentuado que lhe dificultava a lavoura. A sudoeste da aldeia de Moçafaneira, onde se situa a propriedade, ninguém consegue dar dois passos em terra chã, mas o estorvo maior, naquele mar alto de elevações e quebradas, sempre foi «o disparate de uma encosta assim, onde um homem quase não se tem em equilíbrio».

Por tal razão, a escavadora resfolegava de cada vez que a obrigavam a vencer o declive tormentoso. E nessa manhã António Luís começava a reavaliar as previsões. Era quase certo que a tarefa excederia o tempo calculado.

Percorreu com os olhos a porção de terra esventrada e reparou, então, na estranha pedra que a máquina desenterrara. Assemelhava-se a uma pedra mas não era uma pedra. Forma um tanto cilíndrica, achatada, expandindo-se nas extremidades. Reforçou a ideia de não ser uma pedra quando lhe tomou o peso e examinou ao perto a estrutura singular. Para além do mais, avistara, entretanto, outro fragmento, mais pequeno, que parecia da mesma matéria do primeiro. E disse para consigo: «Bem, chegou a minha vez.» Porque achados daquela natureza têm sido recorrentes na zona. O povo designa-os por «ossos de animais do tempo do Dilúvio» e, por regra, esconde-os, para evitar problemas com as terras. Agora, porém, seria diferente, decidiu António Luís. As peças eram bonitas de se ver, em especial a maior, e, confirmando-se a importância das mesmas, comunicaria a descoberta «às pessoas entendidas nestas coisas». Antes, seria preciso obter uma certeza e, para tanto, incumbiu um dos filhos, o Xico Zé, de uma missão de responsabilidade. Pediu-lhe: «Segunda-feira, leva isto para a escola e mostra às professoras. Pergunta que pensam elas sobre o que possa ser isto.» Assim aconteceu, mas, regressado da escola de Freiria, o Xico Zé foi demasiado lacónico para quem aguardava um relatório minucioso: «A professora de História diz que é um osso.»




O repórter reconstituiu a cena bizarra do jovem Xico Zé a caminho da escola, para perguntar às professoras a que bicho pertenceria aquele enorme osso (que vemos na foto na sua mão esquerda). Confirmaram: era sem dúvida um osso. O veterinário da vila foi mais exato: «isto é de um bicho dos tempos remotos». Depois, espeleólogos corroboraram de modo científico: «é uma vértebra de dinossáurio». Semanas depois foi possível reconstituir uma boa parte desse estegossáurio — um dos muitos que viveram ali no final do Jurássico "português"


Inconformado, resolveu ir ele próprio a Torres Vedras, no dia seguinte. Começou por contactar «gente de letras», no caso o chefe de Redação do semanário local, o Badaladas. Manuel César Candeias confirmou: «É um osso, sim senhor, e muito antigo.» Elucidação ainda insuficiente, pelo que se dirigiu ao veterinário da vila, um seu velho conhecido, a quem perguntou: «Conhece algum animal com uma vértebra deste tamanho?» O dr. Luís Roque de Carvalho mostrou-se surpreendido: «Onde diabo encontraste isto?! Tens razão, António Luís, isto é de um bicho dos tempos remotos.» E saiu dali com uma boa pista: o pessoal do Espéleo Clube, «que costuma andar para aí em escavações», saberia, porventura, identificar o animal.

Chegado àquela associação, António Luís ouviu pela primeira vez a palavra mágica, mil vezes pronunciada depois à sua volta: «Dinossáurio. Isto é a vértebra de um dinossáurio.» Maravilhado, deu-se conta, também, de que o achado causava ali uma intensa agitação: «O senhor não mexa em nada, por favor deixe estar tudo como está, pois nós próprios iremos lá investigar.» Explicaram-lhe, depois, que o aparecimento de vestígios como aquele indicia com frequência a existência de outros, no mesmo local, a maior profundidade.

As escavações começaram pouco depois. A obtenção de uma placa dorsal e de uma apófise constituiu o primeiro sinal de ser um estegossauro, como de facto se confirmaria.

Outras descobertas foram sendo feitas, a espaços. Dezenas de ossos, apresentando em geral um bom estado de conservação, permitiriam a reconstituição de uma parte significativa do esqueleto, em especial toda a cintura pélvica e um sector da coluna vertebral.

Alguns espigões e saliências do dorso, para refrigeração e intimidação defensiva, não deixavam dúvidas sobre a identidade deste dinossáurio herbívoro que viveu no Jurássico há 120 milhões de anos. Todavia, no início das escavações, os primeiros fragmentos desenterrados induziram a uma outra interpretação invalidada pouco tempo depois. Tratar-se-ia de um espécime de Baryonyx walkeri, um dinossáurio terópode (bípede com três dedos separados) que, sabiam os investigadores, muito vadiou pelas atuais terras lusas, sobretudo na região norte. Seria portanto do período Cretácio, mais recente, ou seja, teria apenas 90 milhões de anos, ou menos do que isso.

Quem dava pouco crédito a essas notícias era um velho habitante da aldeia, com décadas de trabalho agrícola na zona. Quando lhe revelaram que estavam a desenterrar ali uns ossos do Cretáceo, respondeu: «Pode lá ser! Esse Acácio enterrado ali?! Pois se eu andei durante anos a cavar aquela terra e nunca me cheirou a podre!...»


NÃO MATEM OS DINOSSÁURIOS – 6

Uma conversa com Galopim de Carvalho
o grande divulgador do tema em Portugal

PUBLICADO EM NOVEMBRO 1996
NO "DIÁRIO DE NOTÍCIAS"


Esta conversa com o Professor Galopim de Carvalho decorreu num momento em que Portugal era alvo de especial atenção por parte da comunidade científica internacional no domínio da paleontologia dos dinossáurios. O concelho de Torres Vedras prefigurava-se como um dos mais ricos núcleos mundiais do género. Paleontólogos portugueses pretendiam concretizar projetos de sensibilização das populações rurais nas regiões onde se conheciam casos de ocultação de jazidas fósseis. O Professor Galopim de Carvalho, à época diretor do Museu Nacional de História Natural da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, foi notavelmente estoico na luta pela preservação dos achados, também pedagógico e ponderado nos apelos aos agricultores. Enfrentou os poderes públicos, insurgindo-se contra a falta de apoios. Acabariam por chegar de forma mais que minguada, todavia lograram-se pontuais cedências.




                  Estegossauro dacentrurus – o "dinossáurio de Moçafaneira" (Torres Vedras)


Abundantes vestígios da fauna e da flora de há muitos milhões de anos continuam a aparecer com uma frequência surpreendente de cada vez que os agricultores empreendem lavouras profundas para renovação das espécies cultivadas. Significativamente, observam-se, amiúde, nos fragmentos desenterrados, elementos fossilizados, como aconteceu com o chamado "dinossáurio de Moçafaneira", o Estegossauro do género Dacentrurus (que significa "cauda muito afiada" – ver imagem) cujos ossos constituem o conjunto mais vasto e completo de quantos foram encontrados até agora no concelho de Torres Vedras.

Muitos cientistas acreditam que esta região poderia converter-se, a prazo indefinível mas que desejam próximo, num dos mais ricos centros mundiais da paleontologia dos dinossáurios. O material osteológico encontrado ultimamente representa tão-só a ponta do icebergue. Acresce, em reforço dessa convicção, a descoberta, também em território torriense, do trilho de pegadas de dinossáurio no alto dos Cucos.

Entretanto, enquanto se aguardam operações investigativas de vulto, os paleontólogos consideram prioritárias as ações de sensibilização das populações a oeste de Torres Vedras, onde alguns agricultores estão a ocultar achados, com receio de perderem as terras. Existe um plano, acionado pelos dois organismos locais que se têm assumido como polo dinamizador da atividade paleontológica – o Espéleo Clube e a Associação de Defesa e Divulgação do Património Cultural – cuja eficácia dependerá dos apoios que vier a congregar. O projeto consiste numa grande exposição itinerante, elaborada em moldes de atratividade visual e pedagógica, bem como de acessibilidade didática, a ser apresentada nas próprias localidades da região onde se sabe haver dissimulação de jazidas fósseis. Os principais destinatários da mostra seriam os habitantes mais jovens, os quais, uma vez sensibilizados para a importância da preservação dos vestígios, poderiam exercer uma decisiva ação persuasora no seu meio familiar.

O paleontólogo amador Leonel Trindade, coordenador das últimas campanhas de escavações, sublinha que a inclusão na mostra dos próprios vestígios recuperados naqueles terrenos, em especial o esqueleto reconstituído do "dinossáurio de Moçafaneira", poderá concorrer para a educação e informação das populações. Estas captariam «a noção de que um simples osso remoto é suscetível de contribuir para o conhecimento de um animal que viveu ali há milhões de anos», adianta Leonel Trindade. «E não só o conhecimento da vida animal, pois os vegetais fossilizados permitirão recriar, igualmente, no âmbito da exposição, a flora desse tempo longínquo».

Direitos desrespeitados

Esta realização obteve o entusiástico apoio do Professor Galopim de Carvalho, personalidade carismática que a opinião pública se habituou a relacionar com a problemática dos dinossáurios. Espírito desassombrado e investigador nato, conquistou o respeito da classe científica. Também a população em geral admira-lhe a tenacidade demonstrada em inúmeras batalhas, quase sempre bem-sucedidas, em prol da preservação do património paleontológico, com relevo para os casos das jazidas de Carenque e da pedreira do Galinha (cuja musealização, no entanto, ficou por concluir).

No quadro das ocorrências em Torres Vedras foi inestimável a ação de Galopim de Carvalho, reconhecendo a razão dos agricultores que, atemorizados com as possíveis consequências advenientes da divulgação de achados, decidiam escondê-los. «A verdade é que nem sempre as pessoas são respeitadas nos seus direitos», afirma. «Não existe, por norma, uma contrapartida, nem sequer às vezes compreensão para as contrariedades que resultam do facto de se participar um achado com valor. São as máquinas, os camiões, as escavadoras que de repente invadem os terrenos e os proprietários ficam apavorados na perspetiva dos prejuízos que uma tal situação irá causar-lhes».

Referindo alguns casos concretos, Galopim de Carvalho realça o que sucedeu há tempos no Bombarral: «Tudo parado durante um tempo infindo. Nem a vinha era cavada nem o proprietário era indemnizado, um desespero enorme para aquela gente, apesar de as coisas terem começado muito bem connosco, na base de um relacionamento ótimo. Precisamos de dar a volta a estas situações, pela persuasão, pela educação, mas também não permitindo que as pessoas sofram prejuízos quando comunicam um achado com valor paleontológico».

O papel das autarquias

Em relação à pedagogia que deve praticar-se junto das populações, este cientista considera que tal tarefa competirá aos agentes da educação e da comunicação social, não podendo eximirem-se dessa ação primordial os governantes, a todos os níveis. E acentua: «Os responsáveis autárquicos, por exemplo, deveriam desempenhar um papel fundamental de esclarecimento, mas infelizmente o que verificamos é que muitos deles estão mais interessados nas questões do imobiliário. Não faltam nas câmaras os arquitetos, os economistas, os advogados... E eu pergunto: não há lugar e orçamento para um só geólogo, em concelhos de uma extraordinária riqueza arqueológica e paleontológica?» Nesta linha de pensamento, Galopim de Carvalho sublinha que são as autarquias que se encontram nas melhores condições para estabelecer um contato direto com as populações, garantindo-lhes com seriedade que os seus interesses não serão lesados em consequência de eventuais intervenções nos terrenos.

No caso concreto de Torres Vedras, esse diálogo, segundo Galopim de Carvalho, deve ser encetado pelo poder autárquico: «A câmara, como entidade que melhor representa os interesses dos habitantes, deveria tutelar a mobilização dos professores, das escolas, dos jovens, das associações, dos próprios vereadores, no sentido de acionarem campanhas e projetos. Esse seria um esforço meritório. E não esqueçamos os jovens. Casos como o de Carenque demonstram serem os jovens que conseguem inverter situações cuja evolução não se afigurava a melhor numa perspetiva de preservação do património».

Bairro da lata

A riqueza paleontológica do território torriense sugere a este investigador a ideia de que deveria ser o próprio presidente da autarquia a sensibilizar diretamente as pessoas para a importância dos achados, persuadindo-as a não os dissimular. Por outro lado, ressalva, «é um facto que, havendo necessidade de prestar indemnizações, o processo poderá ultrapassar as capacidades da administração local e exigir a intervenção do poder central; antes, porém, há imensas coisas que podem fazer-se, e, em geral, nem custam muito dinheiro».

A este propósito, o geólogo observa: «O que surpreende é ver um tema atualmente tão mediático como os dinossáurios, do qual dispomos de tanta matéria-prima e também de imensas boas vontades particulares, não ser apoiado e aproveitado pelas entidades públicas».

Galopim de Carvalho termina, em tom magoado, aludindo à situação precaríssima em que continua a viver o Museu Nacional de História Natural, «com um orçamento ridículo e onde não existe, sequer, um só investigador científico, o que parece inimaginável num museu nacional consagrado à Ciência». E conclui: «Somos o bairro da lata da Universidade de Lisboa. Chegámos ao ponto de termos de cancelar as assinaturas das revistas estrangeiras da especialidade. A mudança de política governativa não foi sentida aqui, até ao momento. Hoje, como ontem, os cifrões para a Ciência parecem sempre muito grandes...»


NÃO MATEM OS DINOSSÁURIOS – 7

Falta de vontade política
continua a empobrecer o Património Natural


Uma das numerosas pegadas de dinossáurio existentes na Pedreira do Galinha


Portugal poderia representar um dos mais visitados centros mundiais da paleontologia dos dinossáurios, com evidente interesse turístico, mas falta, sobretudo, vontade política.

Quase vinte anos decorridos sobre a conversa anterior, o Professor Galopim de Carvalho, que sempre ressalva não ser um especialista e apenas se remeter ao papel de divulgador «por meio da palavra escrita e falada», fez-me o sombrio "ponto da situação", deplorando a inanidade política dos responsáveis das administrações central e local incapazes de levar a cabo, concluir ou prestar assistência de manutenção a importantes projetos. As críticas dos naturalistas recaem em especial sobre as autarquias de Ourém, Torres Novas, Torres Vedras, Santarém, Sesimbra e Sintra. Surpreendente é o facto de alguns desses planos terem sido entregues há mais de uma vintena de anos.

São, nomeadamente, os casos seguintes:

• Grande jazida de "Pego Longo" perto de Carenque, com projeto de arquitetura aprovado pela Câmara Municipal de Sintra, em 2001, completamente deixado ao abandono;

• Jazidas "Pedreira do Avelino", "Pedra da Mua" e "Lagosteiros", cujos projetos continuam perdidos em uma ou mais gavetas da autarquia de Sesimbra;

• Jazida da "Pedreira do Galinha", a única visitável, cuja musealização não foi concluída e que, por falta de manutenção, se encontra num estado de degradação preocupante;

• Jazida de "Vale de Meios" (Alcanede, Santarém), à espera de melhores dias.

O alto valor científico, o correspondente interesse pedagógico e a monumentalidade destas jazidas justificariam o investimento que nelas se pudesse fazer (algo insignificante face ao que já foi feito), na certeza de que o seu potencial interesse turístico o compensaria amplamente.

Conclui, penosamente, o emérito Professor: «Se a incúria por parte das administrações, "em tempos de vacas gordas", foi a que está à vista, não é difícil imaginar o destino deste valiosíssimo Património Natural, nos tempos que correm, com os governantes que elegemos».



NÃO MATEM OS DINOSSÁURIOS – 8

Dinossauro ou dinossáurio?

                 DUAS EXPRESSÕES E DUAS GRAFIAS PARA O MESMO CONCEITO


Uma antiga controvérsia divide filólogos e naturalistas quanto à grafia em português do histórico e mediático réptil que inspirou as minhas crónicas e reportagens. Dinossauro ou dinossáurio? O Professor Galopim de Carvalho prestou sobre o tema o depoimento que transcrevo:

Têm razão os filólogos quando defendem a grafia dinossauro, retirando-a do grego deinós (terrível) e saurós (lagarto, réptil), pois que desta matéria quem sabe são os seus cultores e mestres. Têm igualmente razão os naturalistas quando, na taxonomia e na nomenclatura zoológica e paleontológica, utilizam as expressões Sauria e Dinosauria ou as suas correspondentes vulgarizadas sáurio e dinossáurio.

Em 1841, o inglês Richard Owen criou o termo Dinosauria para dar nome a um grupo taxonómico, no qual reuniu o conjunto de fósseis de grandes animais com características reptilianas, conhecidos à época. Adotado pela comunidade científica, o termo acabou por invadir o domínio comum como um dos mais divulgados de toda a nomenclatura biológica.

Os cultores e mestres da filologia sabem, de facto, do seu ofício mas, lamentavelmente, nada ou quase nada das Ciências da Natureza e outras. Tanto assim é que, para alguns deles, "dinossauro é uma espécie fóssil de réptil marinho".

Em contrapartida, insignes paleontólogos nacionais e estrangeiros, escrevendo em português, têm usado desde sempre a grafia dinossáurio. Entre eles salientam-se nomes como Jacinto Pedro Gomes, Georges Zbyiszewski, Carlos Teixeira e a maioria dos autores atuais com maior número de trabalhos publicados nesta matéria, realidade que não pode deixar de ser tomada em consideração. Dinossáurio é, ainda, a versão utilizada em Espanha, quer pelos cultores das Ciências quer pelos das Letras. Assim, se existem razões linguísticas para dizer e escrever dinossauro, não é menos verdade que se impõe respeitar a nomenclatura adotada por quem trouxe e traz à luz do conhecimento estes ainda enigmáticos representantes do mundo vivo de há muitos milhões de anos.

Consagrada em 1890, por Morais, no Grande Dicionário da Língua Portuguesa, a versão dinossauro ficou assim validada entre os estudiosos da língua. Mas os dicionários não têm força de lei, não devendo esquecer-se que quem faz a língua é quem a utiliza. Tendo em consideração as duas posições, o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia de Ciências de Lisboa, valida as duas expressões. Assim, que cada um diga e escreva como quiser, mas que se saiba que o termo adotado por Morais, amplamente preferido pelos meios de comunicação social e eleito pela classe literária dita culta, não é nem mais correto nem mais legítimo do que o outro.


                                                   (Cortesia do blogue Lusodinos)